Alunos têm mais dificuldades em formular juízos de valor e resolver problemas

Análise comparada aos exames de Português e Matemática do 6.º e 9.º ano mostra que há sempre uma descida quando se requer operações cognitivas mais exigentes.

Associações de pais criticam decisão do MEC sobre exames
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Associações de pais criticam decisão do MEC sobre exames RUI GAUDêNCIO

Uma pergunta de interpretação a propósito de um poema de Nuno Júdice redundou no item com o pior resultado obtido por alunos do 9.º ano nos exames nacionais de Português.

Aconteceu em 2010. Na prova pedia-se para que explicassem por que motivo a expressão “uma gaiola de palavras pode ser considerada metáfora de texto”. A classificação média foi de 14%. O exemplo é apontado pelo Instituto de Avaliação Educativa (Iave) num relatório sobre os exames nacionais do 6.º e do 9.º ano, a que o PÚBLICO teve acesso.

No relatório, que será tornado público este sábado, o Iave comparou as prestações dos alunos nos vários domínios e itens dos exames de Português e de Matemática (as únicas disciplinas sujeitas a provas finais naqueles anos de escolaridade) entre 2012 e 2014 no caso do 6.º ano e entre 2010 e 2014 no 9.º ano.

Constatou que, “em regra, apresentam menor dificuldade os itens que mantêm as mesmas características de um ano para o outro” e também os que “mobilizam operações cognitivas pouco complexas ou seja, que apelam a operações de identificação, de reconhecimento ou de aplicação em situações simples”. Pelo contrário, seja a Português ou a Matemática, "os resultados são particularmente fracos em itens que mobilizam a capacidade de encontrar estratégias para a resolução de problemas, como o são em itens onde se solicita a construção de textos de carácter argumentativo".

Tem-se atribuído, por exemplo, piores prestações no caso do exame de Português quando as perguntas de interpretação incidem sobre um texto poético. Da análise deste pacote de exames o Iave chegou, contudo, a mais uma conclusão: “As dificuldades em responder parecem estar mais directamente relacionadas com a natureza das operações cognitivas do que com o modo literário”.

Mais concretamente, nos itens que “implicavam a formulação de juízos de valor ou um posicionamento crítico, a classificação média foi, em geral, inferior a 50%”. Deste lote faz parte a pergunta sobre o poema de Nuno Júdice. Já os itens “em que se requereu a localização ou interpretação de informação explícita no texto, apresentaram, de um modo geral, resultados superiores”, como mostram os 80% de classificação média obtida no ano passado num item de interpretação em que “em que o verbo de comando era identificar”. No caso qual a recompensa atribuída a um dos protagonistas de um texto de Machado Assis, que se encontrava ali descrita.

Na gramática, tanto os alunos do 6.º como do 9.º ano têm melhores resultados em relação aos conteúdos que são leccionados ao longo de mais anos e também quando as perguntas são de escolha múltipla. Em ambos os anos de escolaridade existe também uma diferença acentuada de desempenho quando se trata de conjugar verbos com tempos simples ou composto. No 6.º ano a classificação média passou de 60% no primeiro caso para 31% no segundo. No 9.º ano desceu de 55% para 17%.

Também em ambos os anos de escolaridade o domínio que “apresenta maior estabilidade dos resultados” é o da escrita, sendo de destacar que neste campo os alunos têm vindo a dar menos erros. A classificação média no parâmetro da ortografia passou no 9.º ano de 61% em 2010 para 68% em 2014. No 6.º ano, o Iave assinala “uma tendência de descida” de 71% para 63% na avaliação feita ao modo como os alunos cumprem o que lhes é pedido quando ao tema da composição e ao tipo de texto solicitado. E de 65% para 59% quando está em causa a coerência e pertinência da informação utilizada na composição.

Sem calculadora

Quanto à disciplina de Matemática, o relatório do Iave confirma que a resolução de problemas continua a ser um dos calcanhares de Aquiles. No 6.º ano, “apesar da semelhança entre os itens que avaliaram este conteúdo”, a classificação média passou de 59% em 2012 para 40% em 2014, o que segundo o Iave se pode justificar em parte pelo facto de no ano passado se ter pedido aos alunos que justificassem a resposta dada a um dos problemas.

No problema proposto uma rapariga disse à mãe que ia gastar dois terços do dinheiro que a tia lhe deu na compra de um livro e dois quintos num bilhete de cinema. A mãe chamou-lhe atenção de que isso representava mais dinheiro do que aquele que lhe tinha sido dado. Perguntava-se aos alunos se a mãe tinha razão e que justificassem a resposta dada. Os resultados comprovaram “que os alunos continuam a revelar dificuldades na organização do raciocínio matemático e na sua exposição por escrito”, destaca o Iave.

No 9.º ano os itens com desempenhos sempre inferiores a 25% pertencem à Geometria e têm a ver com volumes. Também se comprovou que a novidade introduzida no ano passado, em que parte do exame foi feita sem possibilidade de recurso à calculadora, teve consequências: a classificação média na resolução de equações do 2.º grau passou de 72% para 51%. Em sentido contrário, constata-se que os alunos estão à vontade quando o que está em causa é o conceito de probabilidades, com os itens respectivos a apresentarem classificações médias superiores a 85%.