700 náufragos na "maior tragédia de sempre no Mediterrâneo"

Foram salvas apenas 28 pessoas. Navio com bandeira portuguesa foi o primeiro a chegar ao local.

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Na semana passada, um outro naufrágio terá feito 400 mortos GUARDIA COSTIERA/AFP
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Em 2014, o Mediterrâneo tornou-se "a rota mais mortífera do mundo" ANGELOS TZORTZINIS/AFP
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Várias centenas de pessoas terão morrido no Mediterrâneo, quando um barco que transportava cerca de 700 migrantes se virou entre as costas da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. Durante as operações de salvamento foram resgatados apenas 28 sobreviventes.

O naufrágio terá acontecido quando um navio porta-contentores com bandeira de Portugal se aproximou para resgatar os migrantes por indicação das autoridades italianas, que tinham recebido um pedido de ajuda devido a "problemas de navegação", pouco depois da meia-noite de domingo.

Na tentativa de se posicionarem para serem salvos pela tripulação do porta-contentores "King Jacob", os migrantes que tentavam chegar à Europa dirigiram-se para um dos lados da embarcação, acabando por cair ao mar, avançou Carlotta Sami, porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados no Sul da Europa. A mesma responsável, que descreveu o naufrágio como uma "tragédia de enormes proporções", disse que o número de pessoas que seguiam na embarcação foi avançado pelos sobreviventes.

Os naufrágios durante operações de resgate são comuns, disse à BBC Mark Micallef, repórter do jornal Times of Malta. "Este cenário já aconteceu vezes sem conta. As embarcações viram-se no momento em que vai começar um resgate. Isto é uma parte do problema: navios da marinha mercante mal equipados estão a ser enviados para cumprir funções para as quais não foram preparados", disse Micallef.

Também John Dalhuisen, responsável da Amnistia Internacional na Europa e na Ásia Central, apontou o dedo à falta de meios e disse que chegou a hora de os governos europeus "enfrentarem as suas responsabilidades".

"Os navios da marinha mercante e as suas tripulações têm tentado preencher, de forma muito corajosa, os buracos deixados pela falta crónica de equipas de busca e salvamento especializadas, mas não foram construídos, nem estão equipados nem treinados para resgates marítimos. Chegou a hora de os governos europeus enfrentarem as suas responsabilidades e lançarem uma operação humanitária para salvar vidas no mar", disse Dalhuisen.

Segundo os números da Guarda Costeira italiana, citados pela agência Ansa, cerca de 10.000 pessoas foram resgatadas por navios da marinha mercante no Mar Mediterrâneo nos últimos dias – 480 deles pelo mesmo navio com bandeira portuguesa que foi chamado a intervir novamente na noite de sábado. 

De acordo com o site marinetraffic.com, o "King Jacob" saiu do porto de Augusta (Sicília) na madrugada de sábado e dirigia-se para o porto de Al Khor (Qatar). Na noite de sábado para domingo, o porta-contentores estava na área do naufrágio, segundo as informações do mesmo site de navegação marítima.

"King Jacob" tem 146,42 metros de comprimento e 22 metros de largura e foi construído em 1998 – apesar de ter bandeira de Portugal, a Marinha desconhece se os tripulantes têm nacionalidade portuguesa.

Em declarações à agência Lusa, o porta-voz da Marinha, comandante Paulo Vicente, confirmou que o navio participou nas operações de resgate. O porta-contentores estava a navegar na zona do naufrágio, tendo sido contactado pelo Centro Coordenador de Buscas e Salvamento Marítimos de Itália para prestar assistência.

Comparação com genocídios
Um dos primeiros responsáveis a comentar o naufrágio foi Joseph Muscat, primeiro-ministro de Malta, país que se juntou a Itália nas operações de resgate.

"Menos de 50 foram resgatados até ao momento. Teme-se que haja muitas mortes", escreveu o chefe do Governo de Malta na sua conta no Twitter, nas primeiras horas da manhã de domingo. A Guarda Costeira italiana avançou mais tarde que tinham sido salvas apenas 28 pessoas.

Em conferência de imprensa, o primeiro-ministro de Malta disse que está a desenrolar-se "a maior tragédia de sempre no Mediterrâneo", e lamentou que o seu país e Itália estejam "sozinhos nesta crise".

"Malta tem problemas com a imigração, mas ninguém deveria ter de morrer", disse Joseph Muscat, citado pelo Times of Malta. "Se a União Europeia e o mundo continuarem a fechar os olhos, serão julgados da forma mais severa possível, tal como foram julgados no passado quando fecharam os olhos a genocídios enquanto os que viviam bem nada fizeram", disse o chefe do Governo de Malta, antes de pedir que se guardasse um minuto de silêncio.

"Dignidade humana"
Num discurso emocionado, a Presidente de Malta, Marie-Louise Coleiro Preca, disse que os cidadãos europeus têm de deixar de olhar para os migrantes "como um papão".

"Não podemos ter paz quando as pessoas agem de uma forma hostil contra os outros só porque têm uma pele mais escura ou porque usam um lenço na cabeça", disse a chefe de Estado de Malta.

"Não há soluções fáceis para a imigração. Já não se trata apenas das guerras. No mundo actual, as pessoas movimentam-se, tal como os nossos filhos emigram para melhorarem as suas vidas. Se fossemos nós – se tivéssemos de abandonar as nossas casas para termos uma hipótese de viver com dignidade humana –, não correríamos o mesmo risco?"

O Papa Francisco também destacou a luta dos migrantes na busca por melhores oportunidades, expressando o seu "profundo lamento" pelo naufrágio. "São homens e mulheres como nós, que procuravam uma vida melhor. Com fome, perseguidos, feridos, explorados, vítimas de guerra. Iam em busca de felicidade", disse o Papa.

UE promete reagir "sem demora"
Os principais líderes políticos europeus voltaram a dizer neste domingo que é preciso "enfrentar sem demora" as tragédias provocadas pelos naufrágios no Mar Mediterrâneo.

"Dissemos várias vezes 'nunca mais'. Temos de salvar vidas humanos todos juntos. Todos juntos temos de proteger as nossas fronteiras e lutar contra o tráfico de seres humanos", disse Federica Mogherini, a italiana responsável pela política externa da União Europeia.

O Presidente francês, François Hollande, falou ao telefone com o primeiro-ministro de Itália, Matteo Renzi, e disse que é necessário "reforçar o número de barcos e de sobrevoos" ao longo das costas europeias. Para além disso, defendeu "uma luta mais intensa contra quem põe as pessoas nos barcos" – são "traficantes, e também terroristas".

O chefe do Governo italiano estava em Mantua, no Norte do país, e regressou a Roma para acompanhar as operações. "O coração bate com força e pergunta-se como se pode falar em beleza quando no Mar Mediterrâneo assistimos todos os dias a uma tragédia, à dor de tantos homens, gerações inteiras que morrem numa era de comunicação global. Como se pode permanecer impassível?"

Rensi pediu depois uma cimeira europeia de emergência, dizendo esperar que esta aconteça pelo menos até ao final da semana. "Não estamos a falar de coisas banais, mas da vida humana", afirmou, numa conferência de imprensa à saída de uma reunião com os seus ministros dos Negócios Estrangeiros, Defesa e Interior.

Um encontro de chefes da diplomacia da UE já marcado para esta segunda-feira para discutir a Líbia será agora ocupado pelo tema. 

A Itália, prometeu Renzi, vai esforçar-se para encontrar a embarcação naufragada e assim dar uma "sepultura decente" às vítimas.

"Retórica extremista"
No sábado, em declarações ao jornal britânico The Guardian, o representante da Agência da ONU para os Refugiados em Itália, Lauren Jolls, culpou a "retórica extremista e irresponsável" contra a imigração pelas falhas nas operações de resgate no Mediterrâneo.

"Neste momento, em muitos países europeus, o diálogo político e a retórica são bastante extremistas e irresponsáveis", disse Jolls, apontando o dedo à proximidade das eleições. "É o medo dos estrangeiros, que é um medo natural, mas que está a ser explorado para fins populistas ou políticos, especialmente em períodos eleitorais", disse o responsável.

Na semana passada, um outro barco com migrantes naufragou ao largo das costas líbias – 150 pessoas foram resgatadas, mas cerca de 400 terão morrido.

Em 2014, o Mediterrâneo tornou-se "a rota mais mortífera do mundo", com pelo menos 3419 mortes de migrantes que tentavam chegar à Europa, um número recorde, anunciou a Agência da ONU para os Refugiados em Dezembro do ano passado.

Se se confirmarem os piores receios deste último naufrágio , desde Janeiro terão morrido cerca de 1600 pessoas no Mediterrâneo. Os corpos das vítimas desta última tragédia estão a ser levados para a cidade de Catania, na Sicília.