Kraftwerk: O que devemos aos alemães

Este domingo, em Lisboa, e segunda-feira no Porto, haverá um espectáculo audiovisual com efeitos tridimensionais por parte de um projecto que inspirou gerações. Ao mesmo tempo que contribuiu para recriar a identidade de um país, a Alemanha, conhecido pela forma como se regenera.

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É esse grupo, hoje em dia constituído pelo fundador Ralf Hütter e por Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Falk Grieffenhagen, que se apresenta este domingo (Coliseu de Lisboa) e 2ª feira (Casa da Música do Porto) num concerto em 3-D DR

Em Janeiro deste ano a BBC transmitiu o documentário Kraftwerk: Pop Art onde às tantas surge o histórico crítico de música inglês Paul Morley a argumentar que o grupo alemão tornou-se mais influente do que os Beatles.

No mesmo mês, o professor universitário alemão Uwe Schütte,organizou na Universidade Aston, na cidade inglesa de Birmingham, um simpósio à volta da obra dos Kraftwerk onde participaram mais de 150 académicos de todo o mundo. Ele prefere não entrar em comparações subjectivas, mas sempre nos vai dizendo que “ao nível das transformações que se operaram na música popular a influência dos Kraftwerk é enorme. É incrível como a sua música, desenvolvida num tempo e lugar específicos, conseguiu exceder todas as fronteiras.”

É difícil imaginar um projecto tão dominante na paisagem contemporânea, não só inspirando gerações de músicos, como contaminando o cinema (David Cronenberg) ou as artes plásticas (Matthew Barney). Nos últimos anos apostaram ainda mais na relação entre música e arte visual, e em retorno foram convidados para residências e actuações em alguns dos espaços mais icónicos da criação artística, como o MoMA de Nova Iorque, a Tate Modern de Londres, a Opera House de Sidney, a Fundação Louis Vuitton de Paris, o Akasaka Blitz de Tóquio ou a Neue Nationalgalerie de Berlim. 

É esse grupo, hoje em dia constituído pelo fundador Ralf Hütter e por Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Falk Grieffenhagen, que se apresenta este domingo (Coliseu de Lisboa) e 2ª feira (Casa da Música do Porto) num concerto em 3-D, sendo distribuído previamente aos espectadores óculos para a visualização do mesmo. Não é a primeira vez em Portugal. Por cá estiveram em 2004 no Coliseu de Lisboa e depois no festival Sudoeste.

Na altura em conversa com Ralf Hütter este dizia-nos que iríamos ver os Kraftwerk “em versão computador-portátil”, depois de anos a reconverterem o material analógico para digital. Desta feita iremos ter o grupo em versão 3-D. Mais uma etapa de um projecto que tem sabido integrar as transformações tecnológicas no vocabulário pop. Um grupo sem idade, austero, misterioso, germânico mas internacional.



Uma nova Alemanha
No final dos anos 1960 e início dos 1970 personificaram, ao lado de outras formações alemãs como Can, Neu!, Tangerine Dream ou Faust, a emancipação e até a recusa não só do que restava ainda do traumático passado nazi como das influências anglo-americanas, criando um idioma próprio a partir do psicadelismo rock ou da electrónica experimental de Stockhausen. A sua música singular constituiu uma hipótese de superar o passado alemão e a americanização da Europa, instituindo uma outra linguagem. Havia o desejo de construir uma nova sociedade. E a música representava esse desejo.

Um livro editado no final do ano passado (Future Days: Krautrock and the Building of Modern Germany) do jornalista e crítico inglês David Stubbs dá conta disso. Havia várias características que distinguiam essas formações do vulgar cenário pop-rock anglo-saxónico. Em primeiro lugar, mais do que a ideia clássica de canção, o que lhes interessava era a sua reconfiguração, a forma como vozes, letras e sons podiam fazer parte do mesmo traçado sónico sem hierarquizações.

Em vez da estrutura a aposta na atmosfera. A liberdade criativa aliada a uma absoluta disciplina técnica. Música pós-humana, procurando uma relação simbiótica com as máquinas, arriscando na repetição, nas texturas, no espaço, na disciplina e na eficiência. Uma música seca, sem afectações, criada por verdadeiros colectivos, sem líderes, o que por um lado significava a rejeição do culto do ego do rock e parecia constituir uma correcção do fetichismo nazi da figura do líder.

Na visão de David Stubbs grupos como os Kraftwerk tinham consciência desse sentido identitário da sua actividade. Reabilitaram o que significava ser alemão na Europa do pós-guerra. Constituíram uma manifestação da capacidade alemã para a regeneração, recusando o fascismo ou a cultura pop americana, sinalizando um novo futuro dominado pela tecnologia. Uma visão aliás partilhada por Uwe Schütte.

“A geração dos membros fundadores dos Kraftwerk sentia uma grande necessidade de forçar uma identidade para si própria, no sentido de perseguir um futuro mais luminoso – tendo em atenção os horrores do passado recente”, diz-nos ele. “Foi por isso que abraçaram a promessa de um futuro melhor, ao mesmo tempo que rejeitavam a cultura americana que havia ocupado o vazio criado pelo nazismo. Ou seja, de uma só vez, sentiam necessidade de rejeitar uma América que de libertadora se havia transformado na força imperialista que bombardeava os civis vietnamitas, ao mesmo tempo que tentavam religar-se com as tradições alemães do final do seculo XIX e início do século XX, como a Bauhaus, o expressionismo no cinema e até a noção de obra de arte total desenvolvida por Wagner.”

David Stubbs foca a sua atenção na influência da Bauhaus, uma das maiores expressões do que foi o  modernismo no design, na arquitectura e nas artes. “Eles são sempre vistos como ‘futuristas’ mas não creio que essa fosse a sua força motriz – eles acreditam apenas na relação serena, harmónica e funcional entre homem e máquina, e também entre a arte e a vida quotidiana – que foi aliás uma dos temas maiores das vanguardas do século XX. Nesse sentido aplicaram os princípios da Bauhaus à sua música. Ao mesmo tempo vêem-se a si próprios como estando em conexão com a grande tradição da inovação cultural alemã – não é por acaso que compuseram um tema chamado Franz Schubert para o álbum Trans-Europe Express. Ou seja, olharam tanto para o passado da grande Alemanha como projectaram o seu possível futuro.”

Inicialmente grupos como os Kraftwerk eram apenas um fenómeno de culto. A meio dos anos 1970, David Bowie, na sua fase mais criativa (o período de Berlim que originou os álbuns Low, Heroes e Lodger, gravados na capital alemã entre 1976 e 1979), foi um dos primeiros a sinalizar que estava a nascer uma nova Europa na Alemanha. Subitamente a nova música alemã, até aí quase ridicularizada, tornou-se sedutora. O novo cânone. O presente e, principalmente, o futuro já não dependia da raiz americana do blues e do rock.



Proféticos
Quase tudo o que aconteceu de significativo a partir da segunda metade dos anos 1970 (Bowie, pós-punk, Talking Heads, Primal Scream, hip-hop, mestiçagem, electrónica, New Order, reciclagem, tecno, house, electro, Daft Punk, Björk, The Knife, Kanye West) deve qualquer coisa aos alemães. 

Mas não foi apenas musicalmente que se revelaram à frente do tempo, principalmente no período entre 1974 e 1981, quando lançaram Autobahn(1974), Radio Activity (1975), Trans-Europe Express (1977), The Man Machine (1978) ou Computer World (1981). Nessa altura descartaram guitarras e bateria, subiram aos palcos numa atitude impassível, aplicando vozes robóticas, enquanto operavam com maquinaria. Mais do que um grupo, revelavam-se um conceito.

As auto-estradas, os transportes, o ambiente, os robôs, os computadores, o consumismo e outros temas que remetem para as grandes mutações no Ocidente foram por eles fixados.

Em algumas circunstâncias até se revelaram proféticos, considera Uwe Schütte. “É incrível como os seus álbuns conceptuais anteciparam um futuro que se viria a revelar o nosso presente. Quando Computer World foi editado em Maio de 1981 a IBM ainda não tinha criado o computador pessoal que viria a revolucionar as nossas vidas e já eles cantavami programme my home computer ou antecipavam a utilização da tecnologia para propósitos de vigilância pelos governos.”

Mas não é apenas a tecnologia. O single The model (1978) assinalava o irromper da cultura de celebridades e o álbum Radio Activity (1975) espelhava preocupações ambientais, antes de a ecologia ser tema obrigatório na agenda política.

E existe ainda essa fixação nas bicicletas, também elas de regresso à vida urbana das cidades nos nossos dias. “Eles não eram muito crentes na aviação, preferiam andar nas suas bicicletas”, ri-se David Stubbs. “Do ponto de vista ecológico Ralf Hütter foi sempre intransigente. Chegaram a ser criticados por Radio activity – que na verdade é um hino de louvor às rádios e nada tem a ver com forças nucleares – e acabaram mesmo por remisturar esse tema em 1991 introduzindo uma secção que alertava para os perigos de um desastre nuclear.”

Contrariamente ao que muitas vezes se pensa nunca romantizaram a tecnologia. Pelo contrário, afirma Uwe Schütte, revelaram sempre uma atitude reflexiva e por vezes mesmo irónica: “na sua relação com a tecnologia expressaram preocupações acerca da história da Alemanha, na relação entre o homem e a máquina e o homem e a natureza. Não há fetiche, embora tenham sido dos primeiros a mostrar que as diversas dinâmicas da música popular são inseparáveis da tecnologia.”

A partir dos anos 1990 o grupo foi optando por reactivar periodicamente o seu repertório, mais do expandi-lo, funcionado sempre de forma disciplinada. O produtor e músico português Fernando Abrantes que fez parte da formação em 1991, recordava numa entrevista que lhe fizemos em 2003, que durante os concertos até a atitude em palco era imposta rigidamente. Havia um protocolo que todos tinham que seguir.

A hibernação criativa do grupo terminou em 2003 quando foi editado Tour de France Soundtracks, a que se seguiria o álbum ao vivo Minimum-Maximum (2005), embora o regresso triunfal dos últimos anos se deva ao lançamento de uma caixa (Der Katalog) que contém oito álbuns remasterizados.

Por essa altura, o outro co-fundador que se conservou ao longo de quatro décadas, Florian Schneider, acabou por abandonar o projecto. Poderia ter sido o fim. Mas não. Pelo contrário, nos últimos tempos, viram ser reafirmados os princípios que lhe granjearam fama, voltando a falar-se deles a propósito de como a música pode ser representada visualmente ou de como funcionam, detendo o controlo criativo sobre a totalidade da sua actividade.

“Eles sempre estiveram na dianteira na forma como uniram música pop e arte devido ao seu passado estudantil” considera Uwe Schütte. “O seu colaborador vital, Emil Schult, estudou com Joseph Beuys na mais importante escola de arte na Alemanha, em Dusseldórfia, perto da vizinha Colónia, a cidade mais importante para galerias de arte, museus ou casas de leilão. Nesse sentido era inevitável que activamente procurassem esse reconhecimento da obra de arte total.”

Desde o primeiro momento que Ralf Hütter proclamou que, mais do que tocar canções, interessava-lhe criar em palco “pinturas musicais”, fundindo música, performance e imagens.

O facto de a partir de 2011 se concentrarem mais na componente visual tem a ver com a ausência de música nova, mas também porque voltaram a revisitar os conceitos retro-futuristas que sempre caracterizam o projecto, esse imaginário híbrido, tão nostálgico como hipermodernista, que parece capaz de criar uma suspensão temporal. “Parece claro que o seu próximo lançamento deverá ser um documentário sobre os espectáculos 3-D ou qualquer coisa parecida”, prevê Schütte.

Numa entrevista recente, a islandesa Björk, antecipando a retrospectiva do seu trabalho no museu MoMA de Nova Iorque, declarava que os Kraftwerk constituíam o exemplo supremo dessa ligação umbilical possível entre som e imagem. E curiosamente, um outro artífice dessa relação, Bowie, também tem a sua retrospectiva a decorrer neste momento em Paris, depois de o ano passado ter estado em Londres.

Nada que surpreenda o inglês David Stubbs: “Os Kraftwerk merecem ser considerados arte, na medida em que se colocam a eles próprios, de um ponto de vista conceptual, no centro do seu trabalho, como a dupla Gilbert & George, por exemplo – que provavelmente até terão influenciado a forma como Ralf e Florian se auto-apresentavam nos primórdios”, afirma ele.

E voltamos ao início, ao documentário da BBC, onde os Kraftwerk são apresentados como arte-pop. É compreensível que os alemães queiram chegar aos maiores templos da arte contemporânea, até porque tocaram em galerias no início do seu percurso, “numa altura em que existia uma relação natural entre espaços de arte visuais e música”, recorda David Stubbs.

No entanto, hoje em dia, são essencialmente os espaços expositivos que se aproximam de projectos como os Kraftwerk. “É uma relação que serve os dois campos”, considera David Stubbs. “Por um lado o universo da arte conceptual moderna parece estar a necessitar de novos recursos e inspirações, por outro é um novo horizonte que se abre à música e toda a gente fica feliz!”

Mais relevantes que os Beatles? Não é por aí. Mas para muito boa gente a resposta não oferece dúvidas.


 

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A sua música singular constituiu uma hipótese de superar o passado alemão e a americanização da Europa, instituindo uma outra linguagem. Havia o desejo de construir uma nova sociedade. E a música representava esse desejo PETER BOETTCHER
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É difícil imaginar um projecto tão dominante na paisagem contemporânea, não só inspirando gerações de músicos, como contaminando o cinema (David Cronenberg) ou as artes plásticas (Matthew Barney) Peter Boettcher