Opinião

Aproveitem o Verão!

A partir de Outubro, Portugal ficará ao Deus dará – sem autoridade ou direcção.

Ao que parece o dr. Cavaco está muito orgulhoso de ter levado esta legislatura até ao fim. Houve “estabilidade” e não houve qualquer das barafundas que ele classifica de “anormalidades”. Pior ainda: agora resolveu também declarar que não dará posse a um governo minoritário, embora haja grandes dúvidas sobre a legalidade desse propósito.

Hirto e rígido, o dr. Cavaco, apesar de 20 anos de poder, nunca verdadeiramente percebeu o que era a política, como não percebe o enorme problema que a sua obstinação criou ao país. Basta pensar. A Constituição proíbe que a Assembleia da República seja dissolvida nos seis primeiros meses do seu mandato. Se as legislativas forem no fim de Setembro ou no princípio de Outubro, isto quer dizer que a nova Assembleia irá durar até, pelo menos, meados de Abril e, contando com o tempo para eleger outra, não existirá um governo em Portugal antes de Junho de 2016.

Compreendo que este pequeno pormenor não aflija de sobremaneira o dr. Cavaco, a partir de Janeiro oficialmente morto e a partir de Fevereiro instalado no admirável conforto do Algarve e da reforma. Mas nós, sem meios para sair do mundo, devíamos pensar um bocadinho no que nos vai suceder. O dr. António Costa, pelo caminho que leva, talvez consiga espremer da apatia geral uma trágica maioria relativa, que por si só não lhe chega para governar e menos para as grandes reformas com que ele nos costuma ameaçar. Será então forçado a procurar uma aliança. Infelizmente, a ala radical do PS não lhe consentirá uma aliança à direita; e a ala moderada rejeitará em peso uma aliança à esquerda.

Alguns comentadores lamentam por aí que o pobre António Costa não “polarize” o eleitorado, esquecendo que desde o I Governo Constitucional os socialistas, sempre entre o PC e a direita (excepto no consulado de Sócrates: e mesmo assim com a inestimável ajuda de Santana Lopes), nunca “polarizaram” coisa alguma. E hoje, com os rancores da “austeridade”, a violência do debate político e a tutela dos senhores da “Europa”, essa proeza é manifestamente impossível. A partir de Outubro, Portugal ficará assim ao Deus dará – sem autoridade ou direcção – e o castelo de cartas financeiro, que Passos Coelho pôs pouco a pouco em pé, cairá com estrondo para desgosto da gente “razoável” e prejuízo dos portugueses. Aconselho por isso a inocência nacional a aproveitar bem o Verão.