Casa da Música sem portas nem paredes

Uma década de vida cheia é razão mais que suficiente para quatro dias inteiros de festa. Dentro da casa e fora de portas, sempre em nome da transparência que Koolhas materializou, a Casa da Música construiu uma programação para abraçar todos os públicos. E o público sentiu-se abraçado.

Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Há uma música infantil de Vinicius de Moraes que fala que de uma “Casa muito engraçada, que não tinha tecto nem tinha nada”. Por estes dias de festa que tomaram conta da Casa da Música - em jeito de comemoração dos dez anos que leva de funcionamento - é difícil não pensar em adaptar a letra, e pensar que mesmo com as paredes gigantes de betão (aquelas que o empreiteiro que olhou para o projecto de Rem Koolhas começou por dizer que eram impossíveis de construir) esta é mesmo uma casa transparente, das que “não tem paredes, é envidraçada”.

Quando foi chamado a explicar a sempre polémica obra, o arquitecto holandês repetiu várias vezes que não tinha construído um edifício público, mas sim um edifício para o público, por isso trabalhou as transparências, para a rua e para dentro, para a sala Suggia). Dez anos depois, essa afirmação faz ainda mais sentido. A festa de aniversário foi programada para ser intensa e diversificada, de forma a abraçar todos os públicos. E o que é certo é que os públicos responderam em massa, e mostraram gostar muito do abraço que lhes foi estendido. 

Maria Palmira Martins já estava a descansar da ”pequena-maratona” a que se tinha sujeitado, para “não perder nada e conhecer tudo”, quando disse ao PÚBLICO que achava o programa das festas da Casa “uma forma muito simpática de agradecer aos portuenses”. Era quinta-feira ao fim da tarde e ela tinha-se apressado a deixar o trabalho logo às 16h30 para seguir directa para a Rotunda da Boavista. Acompanhada da amiga, Júlia Granja, estava a cumprir o programa “de cima para baixo”. “Já estivemos na sala Roxa a ouvir os Dez Postais Musicais que os compositores amigos ofereceram, e já estivemos na sala Laranja, a experimentar uma brincadeira que nos deixa conhecer a música de todos os agrupamentos residentes. Já lá esteve? É muito, muito giro!”, diz entusiasmada. Maria Palmira refere-se ao Sonorium, um instrumento virtual electrónico que costuma fazer as delícias dos muitos que fazem as visitas guiadas à casa da Música - miúdos e graúdos. Agora estava a descansar antes de ir ouvir o concerto que a Escola de Música Profissional de Espinho iria dar logo ali a três passos, junto ao Bar 2. Tanto Palmira como Júlia achavam que conheciam bem o edifício, tantas foram as vezes que ali entraram, e tantos foram os concertos a que assistiram - “Sobretudo os da orquestra. Gostamos muito de ouvir a Sinfónica”, revela Maria Palmira. Mas, afinal, havia ainda muitos cantos para descobrir.  Acompanhar uma visita guiada às áreas técnicas teria de ficar para outro dia - isso, e assistir ao ensaio aberto da Orquestra Sinfónica com o Coro da Casa da Música. “Gostávamos muito, mas não podemos ficar mais tempo. Por isso nem fomos ver se conseguíamos arranjar bilhete”.

Apesar das muitas actividades que decorreram com entrada livre, como as visitas guiadas e os ensaios abertos, era sempre necessário levantar um bilhete. “Os bilhetes servem para controlar as entradas na sala  também por uma questão de segurança”, explica Joana Baptista, assistente de sala na Casa da Música desde 2011, depois de também já ter tido um emprego semelhante na Fundação de Serralves. “Estes dias parecem de muito trabalho, para nós, mas na verdade são muito entusiasmantes. Sinto um ambiente muito semelhante àquele que vivi no Serralves em Festa. É mesmo uma festa. Há sempre muita coisa a acontecer”. Joana fez estas declarações enquanto encaminhava os mais atrasados para o ensaio do Ali Babá e as 40 canções, um espectáculo inserido na rubrica Concertos para Todos, destinados a famílias, e que a Casa da Música programa todos os meses. Helena Marques, do alto dos seus seis anos, foi uma das que gostou muito do que viu e ouviu e sorriu com as histórias do Ali Babá, do Mustafá e do Mustafá Sustenido. “Se era um ensaio, a verdade é que ninguém se enganou. Foi muito divertido”, contou a mãe, Carla, dizendo estar a aproveitar o facto de todos estes espectáculos estarem acessíveis de forma gratuita.

Será, porventura, o preço dos bilhetes que tem afastado a já licenciada “mas ainda de férias” Teresa Almeida a frequentar os concertos da Casa da Música. Moradora na Granja, em Espinho, até já veio várias vezes assistir às manobras que alguém está sempre a desempenhar naquilo que se tornou um skatepark improvisado no exterior da Casa da Musica. “Mas nunca entrei. Os bilhetes são caros”, admite, fazendo-se acompanhar na estreia por dois amigos de Santarém, Sérgio e Maria Alexandre. “Apanhar o aniversário da casa foi uma feliz coincidência”, explica Sérgio, preparado para as descobertas à entrada do Bar Suspenso, onde pôde coleccionar fotografias autografadas por alguns dos artistas mais marcantes que já passaram pelos palcos da Casa da Música.

Para Luísa Oliveira, uma brasileira radicada em Antuérpia, não houve coincidências. Todos os anos traz os seus alunos da escola de línguas onde ministra português a fazer visitas guiadas a Portugal. Ao Porto já veio três vezes - “e vimos sempre fazer as visitas guiadas à Casa da Musica”. Essa aconteceu na quarta-feira à tarde mas os alunos gostaram tanto que quiseram voltar no dia a seguir para assistir a um ensaio aberto da Orquestra Barroca. “Viemos a correr de um tour na Ribeira antes de voltarmos para o jantar. Mas, azar, já não havia bilhetes”, explica, sentada numa das mesas do bar panorâmico. Os alunos não pareciam particularmente tristes. “A Casa da Música merece muitas visitas seguidas”, disse Margaret, uma das alunas que melhor falava o português. Sem a conhecer, a também belga Griet Potteau haveria de secundar a opinião, uns momentos depois. Tinha acabado de aterrar no Porto, com o marido e a filha, para um fim-de-semana prolongado. E a Casa da Música foi o primeiro sítio a que se dirigiu mal deixou as malas no hotel. “Vimos na televisão belga que havia uma festa aqui na Casa. E achamos que era um bom sítio para começar”, afirmou, admitindo que ainda tinha visto pouco mas que o marido, engenheiro civil, já se tinha espantado muito.

Em qualquer esquina, escadaria, cadeira, miradouro ou bar, haveria de ser possível encontrar alguém a apreciar um espaço, uma música, um detalhe, uma instalação - visual ou sonora. Sem multidões nem sobressaltos, no primeiro dia passaram pela Casa cerca de quatro mil pessoas. Portugueses e estrangeiros, portuenses ou nem por isso, repetentes e estreantes, novos e velhos. 

O objectivo era revelar o que é o dia-a-dia da Casa e de quem nela trabalha. Sem paredes, só com transparências. “E isso é que é um ambiente de festa”, disse Jorge Prendas, responsável pelo Serviço Educativo, aquele que mais se tem empenhado em levar as várias formas de música aos públicos da cidade. A Orquestra Som de Rua, que integra músicos profissionais e membros de instituições solidárias da cidade que apoiam, por exemplo, os sem-abrigo, tem estado no terreno desde Outubro de 2009. Amanhã vai estar com elenco reforçado (o guitarrista Peixe, ou o baixista Tiago Oliveira) a mostrar que a música mora em todas as casas. Mesmo nas de que falava Vinicius.

Sugerir correcção