Animal feroz

A natureza testamentária de outros vinte minutos, os de O Velho do Restelo (2014), confirma-se hoje – sendo certo que nos últimos anos não tivemos outro remédio a não ser ver em cada novo filme uma cerimónia de fim, como se nos quiséssemos antecipar ao epitáfio no caso de ser traída a promessa de eternidade que uma centenária energia assegurava.

Nesse filme curto mas com todo o espaço para um mundo há excertos de Amor de Perdição (1979), Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), O Dia do Desespero (1992) e O Quinto Império (2004). Dito assim, e para os que não viram, poderia parecer um best of, coisa sempre de gente que se cansou. Não é o caso: é um filme de quem continuava a desinquietar.

Passando ao lado de palavras de fecho, daquelas que eternizam súmulas, Oliveira chamava ao suposto testamento os seus actores, Ricardo Trepa (que fazia Dom Quixote), Luis Miguel Cintra (Luís Vaz de Camões), Diogo Dória (Teixeira de Pascoaes) e Mário Barroso (que na obra de Oliveira foi mais um duplo de Camilo Castelo Branco do que intérprete). Juntavam-se num jardim do século XXI, as vestes e as barbas postiças. Quem estava ali, de facto, eram os actores. Como se Oliveira lhes dissesse: “este é o vosso património”, é a vossa história. O que interessava era a interferência da memória e do corpo dos actores. A nostalgia pode não ser coisa mole.

Está ali também uma parte da nossa história com Oliveira. Está ali, em excertos de filmes que vão dos anos 1970 aos anos 1990, o seu best. Está ali o nosso problema com ele, os preconceitos, a chacota, os lugares-comuns que não fomos capazes de combater – para nos ultrapassarmos... – sobre a “teatralidade”, os diálogos como fatias de tarte atiradas; está ali a origem de ressentimentos, de invejas; está ali Amor de Perdição, esse filme/série televisiva que escandalizou o pequeno país de final dos anos 70 – mesmo num excerto, continua olímpico, não lhe chegamos, meteria medo na TV e nas salas hoje (mas hoje muita coisa cinematograficamente destemida mete medo à nossa curiosidade).

Muito desse mal-estar, que passou a representar toda uma recusa, as dificuldades que ainda permanecem em relação ao “cinema português”, pode ter sido domesticado a partir do momento em que a idade do cineasta – dizer “o mais velho em actividade” passou a ser automatismo jornalístico – fez a irritação mudar de cara. Transformou-se em benevolência perante fenómeno exótico. Até as distinções, que antes pareciam provar que tudo isto, o cinema português, era uma invenção francesa, passaram a ser recebidas com orgulho - mas é como os feitos das estrelas de futebol, ajuda à auto-estima.

Não é certo que o facto de nos juntarmos agora para o R.I.P. nos leve a enfrentar Oliveira à altura – a tentar, pelo menos. Não é certo que depois de o vermos na sua pantomina chaplinesca, como no Lisbon Story, de Wim Wenders, e nos sucedâneos que lhe pediram para repetir, consigamos entender que não era só, nem essencialmente, um número burlesco que se ensaiava. Vivia ali a determinação feroz (como a de Chaplin) de um mundo que teimava, o do espectáculo cinematográfico, que teve uma natureza que nunca chegámos a experimentar com o espanto e inocência dos primeiros: fantasmas, sombras, mortos...

Não há benevolência, exotismo, complacência em A Caça. O mundo afunda-se num pântano, os cotos dos homens erguem-se da lama, gritam com som mas é como se gritassem com os olhos como no mudo. É um filme de uma lucidez tão enorme, tão lancinante, que vê-lo só pode fazer bem aos nossos preconceitos de espectadores (quem, não sabendo ao que vai, será capaz de dizer que uma sequência de A Caça, um fotograma, é de um filme de Oliveira tal como julgávamos que o conhecíamos?). O que é meio caminho andado para começar a fazer bem à nossa condição humana.

A este senhor ninguém o caçou.