“As doenças psicóticas podem não ser detectadas por testes psicológicos”

O acidente da Germanwings “teve o mérito de trazer para o debate a problemática das doenças psiquiátricas no contexto de trabalho”, diz um psiquiatra português.

Não é conhecido ainda o diagnóstico concreto de Andreas Lubitz
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Não é conhecido ainda o diagnóstico concreto de Andreas Lubitz Foto-Team-Mueller/REUTERS

Falha técnica, erro humano, acto terrorista, suicídio. Estas foram quatro das primeiras explicações que fizeram parte da equação à volta da morte das 150 pessoas que seguiam a bordo do Airbus A320 da companhia low-cost alemã Germanwings. À medida que surgiram mais informações sobre o co-piloto, nomeadamente sobre o possível historial de depressão de Andreas Lubitz, a última ganhou consistência e o lançamento do avião contra uma montanha nos Alpes passou a ser associado a uma doença psiquiátrica. Pode uma depressão levar a um acto deste género? Os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO falam num cenário raro, mas possível – e que dificilmente seria detectado em testes psicológicos básicos.

O psiquiatra Pedro Afonso ressalva que estamos apenas perante extrapolações feitas sem ter conhecimento completo dos factos “e que são por isso restritivas”. No entanto, o professor da Faculdade de Medicina de Lisboa destaca que os dados da OCDE indicam que 25% da população que sofre de doença mental está em idade activa, pelo que o acidente do avião “teve o mérito de trazer para o debate a problemática das doenças psiquiátricas no contexto de trabalho”.

Com base nas informações vindas a público sobre uma anterior depressão de Andreas Lubitz em 2009, Pedro Afonso alerta para o facto de as recaídas poderem ser comuns e introduz uma nova expressão: depressão psicótica. “Os dados apontam para que o terá feito friamente, até porque a respiração permaneceu inalterada”, explica. Essa “resposta fisiológica neutra” indica que algo podia não estar bem. Estes actos não costumam ser feitos por impulso, mas sim estudados e pensados. “Daí que tenha sido bem-sucedido”, afirma. “O risco de suicídio numa pessoa com depressão major é 21% superior ao da restante população”, aponta.

Num cenário de depressão psicótica, o doente é afectado por “ideias delirantes”. “Podem ter um carácter apocalíptico ou místico, em que se acha ter a missão de levar as pessoas todas para junto de Deus ou para o paraíso”, exemplifica. Mas acrescenta que também é comum existirem os chamados “delírios niilistas”, em que o suicida está a sofrer de tal forma que acredita que todos sofrem como ele, ou vão sofrer um dia, e opta então por aquilo que os psiquiatras denominam como um “acto piedoso”. “A morte das outras pessoas é entendida como um acto de misericórdia porque o sofrimento é visto como inevitável”, reforça.

Uma ideia corroborada pelo psiquiatra Álvaro Carvalho, director do Programa Nacional para a Saúde Mental na Direcção-Geral da Saúde. O especialista diz que o “suicídio antecedido por morte misericordiosa” está muito descrito quando uma mãe que se suicida mata primeiro os filhos, mas é também compatível com outros casos de depressão grave. “O suicídio é a expressão desse desespero”, diz.

No entanto, Álvaro Carvalho, que reforça que “não há doenças, há doentes” e que não sabe pormenores fidedignos sobre Andreas Lubitz, admite ainda que se trate de um caso de perturbação da personalidade que na gíria se traduz em “pessoas mal formadas”, com “dificuldade de adaptação social e ausência de culpabilidade”, de que são exemplo os psicopatas.

Porém, Pedro Afonso sublinha que estas situações são raras e, “para evitar criar falsas expectativas e alarmismos desnecessários”, avança que os testes psicológicos regulares – apontados como solução para detectar estes problemas – provavelmente não conduziriam a um desfecho diferente. “Esses testes são importantes para descartar situações de risco inerentes à personalidade da pessoa mas não para a doença psicótica”, adianta. “Na psiquiatria não temos uma TAC ou uma ressonância e nada dispensa a avaliação clínica feita por um especialista”, diz o psiquiatra.

Para Pedro Afonso, o mais fundamental teria sido não desvalorizar o passado do piloto de 27 anos e actuar de forma preventiva, não permitindo que alguém fique sozinho no cockpit. “Um médico nunca pode ficar sozinho num bloco operatório”, exemplifica. Álvaro Carvalho também considera que o caso serve de alerta para as profissões de risco em termos de fadiga. “Aparentemente as companhias aéreas têm desvalorizado a parte psicológica e só têm preocupações com a saúde orgânica dos pilotos”, diz.

“As pessoas que trabalham por turnos e por vezes noutros fusos horários têm maior prevalência das alterações do sono e isso é um risco para algumas doenças psiquiátricas, nomeadamente para a depressão”, reforça Pedro Afonso, lembrando que no caso dos pilotos, o problema nem sempre é o excesso de trabalho, mas a dificuldade em descansar nos momentos reservados para isso.