Nos telhados de Havana há uma cidade pendurada no ar

A população de Havana cresceu para 2,1 milhões desde a Revolução de Fidel Castro em 1959, mas a oferta habitacional não acompanhou esse crescimento. Como sempre, os cubanos improvisaram.

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Sarah L. Voisin/The Washington Post
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O mundo secreto dos telhados de Havana não se consegue ver a partir da rua. Mas basta encontrar um ponto alto e olhar para a linha do horizonte: aí está, uma outra cidade inteira pendurada no ar.

É uma cidade escondida de apartamentos, galinheiros e hortas e jardins, onde rapazes de sandálias se entretêm a lançar papagaios de papel para o alto e homens em tronco nu jogam dominó enquanto a brisa marítima embala a roupa a secar à sua volta.

As ruas são barulhentas e cheiram mal, mas os terraços de Havana são iluminados pelo sol e pelo ar purificado pelo oceano. Aqui, tudo está protegido e fora do alcance dos olhos curiosos – é um lugar privilegiado para um furtivo encontro romântico, ou para apreciar a solidão.

“Os cubanos são muito coscuvilheiros”, diz Yordan Alonso, de 25 anos, pai de três, que passa metade do dia a trabalhar como barbeiro e a outra metade a pedalar uma bicicleta-táxi, e que toda a vida morou no terraço de um prédio de quatro andares da Rua San Ignacio, na chamada Havana Velha. “Aqui em cima ninguém nos chateia”, garante.

O edifício onde Alonso mora fica a meio quarteirão da Plaza Vieja, na fronteira invisível entre a animada Havana dos turistas e a outra parte da cidade, decrépita e em ruínas, que nenhum visitante está interessado em conhecer. É nessa parte da capital que se aguarda, com maior impaciência, pela chegada dos turistas e investidores norte-americanos, que precisam de se despachar antes que os prédios caiam.

Esse dia nunca pareceu tão próximo para os cubanos como Alonso, depois do anúncio da retoma das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba.

Construído com blocos de cimento no terraço de um edifício da era colonial em ruínas, o seu minúsculo apartamento tem uma vista impressionante que abarca a silhueta da cidade velha e se prolonga mais além, até ao azul profundo do Estreito da Florida. Navios e pequenas embarcações entram e saem da baía de Havana passando pela citadela de San Carlos de la Cabaña, uma das maiores fortalezas coloniais espanholas da América, construída no século XVIII.

A população de Havana cresceu para 2,1 milhões desde a Revolução de Fidel Castro em 1959, mas a oferta habitacional não acompanhou esse crescimento. O Governo comunista consistentemente falha a meta dos seus projectos habitacionais, e os enormes e horríveis blocos de apartamentos construídos durante a era soviética não são capazes de absorver a procura.

No sobrelotado bairro histórico do centro de Havana, a inexistência de lugares para viver, para jogar, ou para relaxar num momento de introspecção, acabou por empurrar a cidade para cima, inundando os terraços.

O termo técnico para esse fenómeno é “arquitectura parasita”. O Governo cubano não encoraja essa prática, mas nos bairros mais antigos e mais delapidados da cidade, a ocupação de famílias como a de Alonso, que viveu toda a vida no terraço, é tolerada. Os parasitas tornaram-se residentes permanentes.

Tudo em Cuba é assim: construída para uma coisa, adaptada para outra. Automóveis Studebaker circulam com motores de jipes soviéticos. Restaurantes ocupam antigas mansões. Pescadores sem barco atracam os seus iscos a bóias feitas com preservativos, inchados como balões.

A maior parte das grandes casas da Velha Havana foram projectadas para uma família, com um negócio no rés-do-chão e espaço suficiente para acolher várias gerações e acomodar os criados nos pisos superiores. Hoje em dia são prédios a transbordar de apartamentos, nos mais diferentes estados de decadência.

O edifício onde Alonso mora tem 36 apartamentos, incluindo o seu e outros quatro que foram construídos no terraço. A família da mulher instalou-se ali há mais de vinte anos quando a sua casa, numa outra parte da cidade, derrocou numa tempestade.

Um emaranhado de fios eléctricos e linhas telefónicas acompanha a escadaria e compõe uma espécie de teia de aranha no tecto do edifício. À porta de cada apartamento há um tanque de plástico ou um antigo barril de petróleo reconvertido em depósito de água, que é distribuída por uma bomba eléctrica. A maior parte dos residentes deixam as portas abertas para que os vizinhos possam disfrutar da brisa e da conversa, para que os seus dachshunds e chihuahuas possam entrar e sair e deixar as suas necessidades a secar no corredor.

Vindos da rua, vendedores ambulantes encavalitam-se pelos gastos degraus de mármore acima para percorrer os corredores, apregoando pastéis, salsichas e chouriços, provavelmente contrabandeados dos armazéns governamentais.

El Azul, o pombo Casanova
Uma frágil escada de madeira dá acesso ao terraço onde Alonso e família vivem. O seu vizinho, Josué Gutierrez, guarda ali os seus pombos.

Há pombais em praticamente todas as açoteias do bairro, muitos deles improvisados com armações metálicas e painéis ondulados de plástico verde. O de Gutierrez, de 22 anos, é um dos melhores, construído pelo pai, que o criou no terraço a cuidar dos pombos, mas entretanto se mudou.

Gutierrez levanta-se todos os dias às quatro da manhã para a pesca: se o tempo estiver de feição, arranca num pequeno barco a motor com um amigo em busca de cherne ou atum. É de madrugada que trata dos pombos, mudando a água e alimentando-os com o grão-de-bico que obtém através do sistema de distribuição de rações do Governo.

Yo, careca!”, grita Gutierrez a um amigo que também cuida de um pombal no prédio vizinho, a menos de cem metros. O careca não responde. “Hoje não me ouve, está muito vento”, justifica Gutierrez.

Dá ideia que há um pombal em cada terraço. Gutierrez diz que o bairro é um verdadeiro campo de batalha, com toda a gente a tentar apanhar os pássaros dos vizinhos. Ele montou um sistema no seu telhado, que consiste em pequenas armadilhas distribuídas por um fino fio de pesca que se prendem à pata do pássaro assim que ele tenta pousar.

Nos Estados Unidos, explica Gutierrez, os columbófilos preferem pombos-correio. Em Cuba, o passatempo consiste em criar pássaros que se aventuram pelo céu para atrair outros pombos para o seu bando e assim aumentar a colecção do seu proprietário. Chama-se a isto “roubo de pombos”. É um jogo de sedução, e um dos animais de Gutierrez, El Azul de la Grua, “O Azul do Guindaste”, é o Casanova aviário da Velha Havana.

El Azul ganhou o nome porque o único sítio onde gosta de pousar é no guindaste de uma obra parada, um hotel construído só até à metade, a um quarteirão do edifício de Gutierrez.

Gutierrez tira El Azul do pombal e atira-o para o ar abrindo os braços. O pássaro descreve um largo arco pelo céu, passa pelo guindaste e voa por cima do coração turístico da Velha Havana, até voltar para o pombal.

Uma vez, El Azul roubou 82 pombos num período de 14 meses: Gutierrez ficou com alguns e vendeu os outros. Os menos valiosos são populares com os praticantes da Santeria, e têm o seu destino traçado nos altares de Elegua, Oshun e outras divindades afro-cubanas com um apetite infindável por sangue de pombo.

Os pombos são só um passatempo para Gutierrez, diz ele, acrescentando que até chega a perder dinheiro com os animais. Ao contrário de Alonso, não gosta muito de passar o seu tempo nos telhados da cidade. “Não perco tempo a olhar para as pessoas. Prefiro jogar na minha PlayStation.”

Quando ele e Alonso estavam a crescer no terraço, costumavam descer para correr livres pela Plaza Vieja, uma das várias praças da Velha Havana, que na altura estava em ruínas. Agora é um dos locais mais procurados pelos turistas estrangeiros. No novo café na esquina, uma banda cubana toca Hey Jude em inglês.

A recuperada Plaza Vieja tem bares de tapas, um spa e até uma loja Benetton. E a polícia já não deixa os miúdos do bairro jogar baseball ou correr em tronco nu, diz Alonso. “Agora é como um museu”, observa. Até a fonte no centro da praça está vedada.

Seguramente mais turistas estarão a caminho, acredita Alonso, por causa da aproximação entre Havana e Washington. A Havana dura e gasta em que ele cresceu, com o seu mundo dos terraços à parte, poderá não sobreviver. Mas isso até pode ser uma coisa boa.

“Às vezes penso que devia mudar, para que os meus filhos pudessem ter mais espaço para brincar”, confessa Alonso, o olhar sobre a cidade e uma cortina de nuvens brancas que chegam de Norte. “Mas onde mais é que eu ia arranjar uma vista destas? Quanto é que isto vale?”, questiona-se. “Um dia vai aparecer aqui um milionário e querer comprá-la.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post