Crítica

A costa das assombrações

Um dos mais intrigantes filmes portugueses dos últimos anos, mesmo que pareça perder-se aqui e ali.

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Dez anos depois de A Costa dos Murmúrios (2004), o regresso de Margarida Cardoso à ficção faz-se com uma nova história de mulheres em África, cruzando passado e presente de modo difuso e oblíquo.

A Yvone Kane do título, guerrilheira revolucionária dos anos 1970 num país africano que nunca será nomeado e cuja morte ficou sempre por explicar completamente, é um fantasma que já está morto quando o filme começa. A sua memória é o pretexto para o reencontro entre uma mãe e uma filha (Irene Ravache e Beatriz Batarda) assombradas pela presença da morte, numa África que Margarida Cardoso filma em tons invernais e cinzentos, com um distanciamento sublinhado pela presença constante de vidros e espelhos que impedem a verdade de ser vista directamente. Sente-se que Yvone Kane se perde aqui e ali, e que entra por atalhos que não levam a lado nenhum. Mas para quem estiver disposto a deixar-se levar no seu feitiço, é um dos mais intrigantes filmes portugueses dos últimos anos.