Netanyahu diz que acordo “abre caminho” a bomba nuclear iraniana

Primeiro-ministro israelita faz discurso polémico no Congresso dos EUA, mas não revela informação sensível.

Netanyahu no Congresso
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Netanyahu no Congresso Mandel Ngan/AFP

Perante aplausos de pé no Congresso dos Estados Unidos, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, fez um discurso denunciando “um mau acordo” que os EUA discutem com o Irão. As discussões sobre o nulear iraniano continuavam, na Suíça, com altos e baixos, e a alta representante da União Europeia para a política externa, Federica Mogherini, dizia que “ a agitação não ajuda” especialmente “nesta altura, quando estamos próximos de um resultado”.

Em Washington, Netanyahu discursava no que considerou ser a última hipótese para impedir um entendimento. “Se o acordo que está a ser agora negociado for aceite com o Irão, isto não vai impedir que o Irão chegue a ter armas nucleares – irá sim garantir que o Irão consegue essas armas”, disse Netanyahu. 

Enunciando os perigos do Irão não só para Israel mas para os países da região, lembrando a interferência de Teerão em vários conflitos e o apoio ao libanês Hezbollah (que por sua vez luta pelo regime de Assad na Síria), Netanyahu foi mais longe e ligou o Irão a um islão militante como o do grupo que se auto-intitula Estado Islâmico e que conquistou território na Síria e Iraque. O facto de ambos lutarem um contra o outro quer dizer, argumentou Netanyahu, que “só discordam sobre quem é o líder”.

E “o maior perigo deste mundo seria deixar armas nucleares nas mãos do islão militante”, declarou. Algo que o acordo que está agora a ser negociado “não impede – mas sim permite”.

Netanyahu dedicou-se então a explicar o que são, em seu entender, os dois pontos fracos do acordo (sem revelar informação sensível, como a Administração Obama chegou a temer): deixar intacta a infra-estrutura nuclear do Irão e permitir uma continuação do programa após dez anos. Isto é especialmente perigoso, defendeu, dado o curto período de tempo que se estima o Irão precisar para chegar a uma bomba (apenas um ano segundo as estimativas americanas, menos segundo as estimativas israelitas, notou).

Pior, continuou, a falta de supervisão pode fazer com que o Irão possa chegar à bomba mesmo com o acordo em vigor.

Porque é que então é defendido este acordo?, perguntou Netanyahu, que enfrenta eleições a 17 de Março. “Porque há quem ache que não há alternativa. Mas há – um acordo muito melhor!” Isto porque “o Irão precisa mais de um compromisso do que vocês”. 

Passando para as sanções, o primeiro-ministro israelita continuou dizendo que, no mínimo, esperava que o levantamento das sanções fosse feito apenas mais tarde. Enquanto isso, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, declarava em Montreux, na Suíça, onde as negociações entravam no segundo dia, que para que haja um acordo seria necessário que as sanções ao país sejam levantadas. 

No Congresso, Netanyahu fez ainda uma alusão ao Holocausto – apontando para um sobrevivente, disse que a sua presença dá um significado especial à expressão “nunca mais”. E garantiu, como já tinha feito na véspera: “a época em que o povo judaico se mantém passivo face a inimigos genocidas acabou”.

Netanyahu esforçou-se por se mostrar agradecido a tudo o que os Estados Unidos e o seu Presidente, Barack Obama, fizeram por Israel, antes de criticar a posição norte-americana nas negociações. Terminou o seu discurso dizendo que Israel vai enfrentar os seus inimigos, mesmo que seja sozinho – antes de atirar a tirada final: “Mas sei que não está sozinho porque os EUA estão connosco, vocês estarão connosco”. Segue-se uma enorme ovação de pé. Obama, que não recebeu Netanyahu (porque nunca o faz com um líder em campanha), tentou antes desvalorizar a fricção que o discurso está a causar, dizendo que não há danos permanentes” na relação mas sim "um desacordo substancial de posições”.

Diferentes ameaças
Enquanto isso, de Teerão surgiam notícias de que a maior ameaça a um acordo poderia estar na pressão interna – segundo o Guardian, o poderoso ayatollah Akbar Hashemi Rafsanjani referiu uma grande pressão sobre a equipa negocial iraniana. “Netanyahu ameaça Obama lá [em Washington] e aqui [em Teerão] há um grupo de pessoas que ameaça revelar segredos”, disse, referindo-se a um grupo de deputados conservadores que têm atacado a linha negocial do Presidente Hassan Rouhani. 

O jornal ultraconservador Kayhan até sugeriu que Netanyahu é a favor de um acordo mas que está a mostrar oposição para levar a oposição iraniana a aceitá-lo. Ironicamente, em Israel, há quem critique o discurso de Netanyahu ao Congresso alegando que este poderá pressionar ainda mais Obama para um entendimento. 

Uma troca de comentários públicos entre Obama e Zarif foi muito auspiciosa: o Presidente americano disse que o Irão deve concordar em congelar a sua actividade nuclear sensível durante pelo menos uma década, Zarif classificou as declarações como “frases ameaçadoras e inaceitáveis” e concluindo que “o Irão não vai aceitar exigências excessivas e ilógicas”. No entanto, sublinhou que as conversações de grupo continuam, referindo-se ao chamado 5+1 (China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha). O objectivo é chegar a um acordo no final de Março.