Reportagem

Há um roteiro de samba no Porto – e o Carnaval tem muito pouco a ver com isso

O Carnaval são dois dias mas o samba instalou-se no Porto para o ano inteiro. E não é só por causa dos brasileiros que cá moram.

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Samba Bloco nas Galerias de Paris
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Samba Bamba Social no Plano B
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Samba sem fronteiras no café Ceuta
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Samba sem fronteiras no café Ceuta

Quem na sexta-feira à noite tivesse passado pelo Café Ceuta, um dos cafés tradicionais da Baixa portuense, e um dos poucos que ainda funcionam desde os anos 50, poderia ter ficado espantado com o ambiente pouco usual.

O Ceuta tornou-se terreiro de samba, encheu-se de máscaras, apropriadas ao calendário, e explodiu de ritmo, tornando-se pequenino para todos os que quiseram participar no Baile de Carnaval animado pelo grupo Samba sem Fronteiras.

Em vez de finos e tremoços, a noite fez-se de trombone e cavaquinhos, violão, caixas e vozes. E teve ainda um convidado especial e uma novidade: a participação do primeiro bloco de samba organizado em território portuense, Blocalhau (ver segundo texto). Se uma noite com tom assumidamente brasileiro pode parecer inusitado num café como o Ceuta, já é algo muito habitual em alguns espaços da noite do Porto. Tanto que, diz ao PÚBLICO Rita Gigante, uma das responsáveis pela organização desta noite de Carnaval no Café Ceuta, já é possível ouvir samba, “e samba do bom”, todas as semanas no Porto. “Não é por causa do Carnaval. Não tem nada a ver com isso”, diz.

Rita Gigante é uma das indefectíveis daquilo a que já se pode chamar roteiro do samba no Porto, uma tendência que se tem vindo a cimentar no último ano e que assumiu proporções épicas na última D’Bandada, o festival de música que, em Setembro, leva todo o tipo de sons para as ruas do Porto: os Bamba Social tocaram durante quatro horas seguidas numa Rua das Galerias de Paris à pinha, e onde se viam novos e velhos e onde poucos conseguiam circular. “Foi uma tarde inesquecível”, disse ao PÚBLICO Pedro Guerra, ou melhor, “Guerrinha”, o vocalista dos Bamba Social, na passada quarta feira, momentos antes de começar mais um concerto no Plano B, para uma roda de samba que voltou a ter a casa cheia.

Desde finais de 2013 que não é difícil encontrá-las no Porto. Há pelo menos um bar que programa rodas de samba praticamente todas as semanas – o Rua, na zona de Cedofeita – e há outros que agendam noites de samba quinzenalmente, ou uma vez por mês, como o Plano B, ou o Baixaria, ambos na muito movimentada zona das Galerias de Paris, epicentro da animação nocturna do Porto.

As rodas de samba tornaram-se populares no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde, em plena rua e à volta de uma mesa, a música flui quase a cada esquina. Descontando as diferenças, as rodas estão para o samba como as jam sessions estão para o jazz. Juntam-se alguns músicos, segue-se uma pauta improvisada, há sempre alguém que surge entre o público e se junta, se integra e participa, sempre respeitando o que está a ser interpretado.

Na roda que todos os meses levam ao Plano B, os Bamba Social recriam esse ambiente da rua e dos botecos boémios. Os nove músicos que formam a banda dispõem-se atrás de umas mesas, onde a toalha posta, a garrafa a refrescar no gelo e os copos prontos a servir quase convidam ao beberete – mas quem quiser beber deverá, naturalmente, dirigir-se ao bar sem interromper a música.

Quem ouve Guerrinha a cantar não conseguiria adivinhar tratar-se de um português. Tão português como Pedro Pinheiro e Tomás Marques, os dois músicos que, numa viagem aos Açores, onde iam dar um espectáculo com a sua banda reggae – Souls of Fire – se lembraram de criar um projecto musical que juntasse samba e chorinho. A ideia inicial passava por incluir também alguns instrumentos como a guitarra portuguesa. “Ainda tocámos alguns temas de chorinho nas primeiras actuações, mas de uma forma natural, quer pelos elementos da banda, quer pelo ambiente das noites de actuação e do público, começámos a tocar só samba”, explica Pedro Pinheiro, comissário de bordo sempre que é preciso, e músico de reggae e de samba sempre que pode – nos Bamba Social toca cavaquinho. Tomás Marques, formado na área da música, toca violão nos Bamba, mas é baixista nas bandas Souls of Fire, Mundo Secreto e Edumundo. Outro português a integrar os Bamba é o “Jota”, João Guedes, que viveu oito anos no Rio de Janeiro e conseguiu ser o único estrangeiro a alcançar a proeza de tocar na bateria de uma escola de samba com a história e renome da Mangueira.

Num concerto dos Bamba Social tanto passam temas de 1930 de Noel Rosa como outros bem mais actuais, como os de Seu Jorge. “Tentamos reconstruir os grandes sambas à nossa maneira, com arranjos diferentes mas sem deixar de ser fiel à obra do compositor. Numa actuação dos Bamba, há vários momentos, vários picos que pode ir desde um samba lento a uma fusão com samba e hip-hop”, sintetiza Pedro Pinheiro.

O público que aprecia o samba não é, necessariamente, o público que aprecia o Carnaval. Isto apesar de ambos, Carnaval e samba, estarem de tal maneira ligados que muitas vezes se confundem. O Carnaval é uma manifestação cultural brasileira tão popular como o samba, que é um “estilo musical, que ‘pipocou’ em muitas variantes por todo o Brasil”, explica Frankão, percussionista dos Samba Sem Fronteiras. Natural do estado do Rio de Janeiro, mas a viver no Porto há já quase três anos, Frankão explica que o trabalho de formação de públicos é um dos aspectos que mais gozo lhe dá levar a cabo em Portugal. “Quando falamos em samba, muitos dizem que não gostam, porque, se calhar, estão a pensar em outras músicas que foram aparecendo em cima do samba, mas que não são samba. Algumas delas até o desrespeitaram. Mas nós vamos insistindo no nosso repertório, e mostrando ao público que esse samba de raiz é música que vale a pena escutar. E tocar”, diz Frankão.

Ao contrário dos Bamba Social, a roda Samba sem Fronteiras é constituída integralmente por músicos brasileiros que vieram viver para Portugal e que sentiam falta de encontrar as suas músicas, com as suas alegrias e tristezas. “Há muito preconceito com a música brasileira. Não é só música de Carnaval, de samba-enredo. Há sambas rápidos e lentos, há sambas alegres e há sambas-fados”, explica Luca Argel, o vocalista, e único do grupo que vive exclusivamente do trabalho no Samba Sem Fronteiras. E o primeiro a assumir que, se antes não havia ensaios, apenas um grupo de amigos que se juntava para tocar, agora estão a “profissionalizar-se” e a trabalhar afincadamente, incluindo em reportório próprio. O Samba do Pedrinho, uma canção que aborda as perplexidades de um brasileiro que aterra em Portugal e que achava que se ia dar bem com a língua mas que, afinal, não percebe nada do que por cá se diz, é a mais pedida pelo público.

Nados e criados no Porto, tanto os Bamba Social como os Samba sem Fronteiras são agora grupos requisitados para outras cidades do país e até mesmo fora dele. Para o fim deste mês, os Bamba Social têm agendadas três datas em Paris.

A adesão a este tipo de música tem sido de tal forma crescente que Rita Gigante acredita que estão criadas as bases para fazer um festival de samba no porto, mais perto do Verão. E garante que, ao lado de elementos das duas rodas de samba portuenses, vai apresentar uma proposta nesse sentido à Porto Lazer, empresa municipal responsável pela animação da cidade. “Até já pensamos no nome e tudo: Samba Fest”, conclui Rita, de sorriso nos olhos.

Foi Rafael Henrique, no Porto há um ano e meio para estudar Filosofia do Direito, quem teve a ideia de criar um bloco de rua para comemorar o Carnaval. “Sentia a falta disso. Na minha terra [São Paulo] há blocos por todo o lado. Achei que aqui também poderia haver essa festa de rua, que chamasse todos e não apenas os brasileiros”, explicou. Juntou-se a Eurico Mathias, natural de Belo Horizonte e a viver no Porto para estudar violoncelo na Escola Superior de Música e de Artes do Espectáculo, e a ideia começou a ganhar forma. Dez dias antes de se celebrar oficialmente o Carnaval, o coreto na Praça da Cordoaria passou a ser poiso fixo para os ensaios do Blocalhau, um bloco carnavalesco com sabor português – “e não há nada mais português do que o bacalhau”, explica Rafael.

O Blocalhau é um bloco aberto e horizontal – isto é, acolhe quem a ele se quer juntar, traga um instrumento ou apenas o ritmo no corpo “e a vontade de beber uma cervejinha”, diz Rafael Henrique. Às quartas, sextas e sábados, entre as 20h00 e as 23h00, era hora de ouvir surdos e pandeiros, cavaquinhos e violão, trombones e flautas. E até as menos comuns guitarras eléctricas. Oficialmente, eram os ensaios para o grande evento do Blocalhau, marcado para a noite de ontem, o Baile de Carnaval dos Solteiros Enamorados. Mas, admite Rafael Henrique, o mais importante era a festa que todos faziam juntos, em plena Cordoaria. 

No primeiro ensaio apareceram 23 músicos e o bloco encheu-se de várias nacionalidades, atraindo turistas italianos e polacos. Nos ensaios seguintes, o bloco ia crescendo, e notava-se bem a sua presença quando começava a desfilar pelas ruas a cantar o hino do Blocalhau, uma paródia aos que vendem atum como comida vegetariana. “É uma brincadeira, porque o bloco é festa, o Carnaval é uma festa”, explica Rafael. Há outras brincadeiras, como o Patrick Swayze ser o galã do bloco, ou a Madre Teresa de Calcutá ser a padroeira, e ambos terem imagens suas a desfilar pelas ruas. É Carnaval. Ninguém leva a mal.     

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