Jihadistas recrutam, escravizam e enterram crianças vivas no Iraque

As minorias são as principais vítimas. Há crianças muito pequenas usadas como bombistas suicidas ou escravas sexuais. Os radicais também decapitam e crucificam menores, diz a ONU.

Crianças yazidis, mas também curdas ou cristãs, foram capturadas, raptadas ou compradas
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Crianças yazidis, mas também curdas ou cristãs, foram capturadas, raptadas ou compradas BULENT KILIC/AFP

A entrada dos combatentes do autoproclamado Estado Islâmico em várias províncias no Iraque, no Verão passado, obrigou 2,5 milhões de civis a fugir das suas casas. Centenas de crianças perderam-se das famílias ou foram capturadas desde então: muitas têm sido usadas como bombistas suicidas, escudos humanos ou escravas sexuais; outras são enterradas vivas, crucificadas ou vendidas.

O Estado Islâmico não é o único grupo armado a abusar das crianças iraquianas, denuncia o Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas no seu primeiro relatório sobre o país desde 1998. O mesmo fazem diferentes milícias e há casos em que as forças do Governo entregam tarefas de segurança a menores.

Os radicais recrutaram “um grande número de crianças”, dizem os 18 peritos independentes que participaram na investigação. “As crianças são usadas como kamikazes, incluindo crianças deficientes”, lê-se no relatório.

Algumas são usadas como informadores ou “escudos humanos” para proteger as instalações do Estado Islâmico, outras são forçadas a permanecer em postos de controlo ou usadas no fabrico de bombas. Muitas foram mortas ou ficaram gravemente feridas durante ataques aéreos da coligação ou disparos das forças de segurança iraquianas, enquanto outras morreram de “desidratação ou fome”.

Também há menores sujeitos a vários tipos de tortura. O Estado Islâmico comete “violência sexual sistemática” contra crianças, incluindo “o rapto de crianças transformadas em escravas sexuais.” Por vezes, as crianças são mantidas em centros de detenção improvisados onde são violadas; um dos lugares usado para isso é a antiga prisão de Badoush, nos arredores de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, nas mãos dos jihadistas.

“A dimensão do problema é enorme”, afirmou à Reuters Renate Winter, uma das investigadoras, depois da apresentação do relatório, em Genebra. “Temos relatos de crianças, especialmente com problemas mentais, que foram usadas como bombistas suicidas, muito provavelmente sem sequer se aperceberem”, diz. “Há um vídeo onde se mostram crianças muito pequenas, com oito anos e menos, a serem treinadas como crianças-soldados.”

“Estamos verdadeiramente preocupados com a tortura e a morte destas crianças, em particular membros de minorias, mas não só”, afirmou Winter aos jornalistas. As minorias, como os yazidis, uma comunidade etnicamente curda e pré-islâmica, têm sido um dos alvos principais dos jihadistas.

Crianças yazidis, mas também curdas ou cristãs, foram capturadas, raptadas ou compradas e “vendidas em mercados como escravas”, diz a ONU.

Em Dezembro, um relatório da Amnistia Internacional descrevia como centenas de meninas e mulheres yazidis (que os fundamentalistas consideram “adoradores do diabo") tinham sido feitas escravas pelos extremistas. De acordo com o grupo de direitos humanos, as raparigas capturadas, algumas de dez e 12 anos, eram torturadas, violadas, forçadas a casar, “vendidas” ou “oferecidas” a combatentes ou apoiantes dos radicais nas áreas sob o seu controlo. Na mesma altura, outro relatório descrevia como crianças curdas capturadas perto da cidade síria de Kobani estavam a ser torturadas.

Execuções em massa
No relatório, o comité denuncia “o assassínio sistemático de crianças pertencentes a minorias étnicas e religiosas pelo Estado Islâmico no Iraque e na Síria [como o grupo se fazia chamar até ao ano passado], incluindo vários casos de execuções em massa de rapazes, assim como decapitações, crucificações e crianças enterradas vivas”. As principais vítimas são crianças de minorias, mas os mesmos crimes têm sido cometidos contra menores árabes xiitas e sunitas – os jihadistas são sunitas que proclamam combater regimes xiitas ilegítimos.

A situação das crianças no Iraque não deixou de piorar desde a invasão de 2003, quando os órfãos que viviam em instituições se viram sozinhos, com o colapso do Estado, por exemplo. A própria lei não protege as crianças, permitindo aos violadores evitarem qualquer perseguição judicial se casarem com as suas vítimas – Bagdad alega que este “é o único meio para proteger a vítima de represálias familiares”. O comité apela também ao Governo para criminalizar explicitamente o recrutamento de menores em conflitos armados.

A conquista de vastas zonas de território por parte do Estado Islâmico provocou um aumento dramático dos abusos sofridos por parte das crianças. Mas alguns dos factos apurados pelo comité da ONU não são inéditos: no auge da violência sectária, entre 2005 e 2008, a Al-Qaeda no Iraque, grupo que esteve na origem do actual Estado Islâmico, usou adolescentes como bombistas suicidas, ao mesmo tempo que as milícias dos partidos políticos xiitas recrutavam crianças.

A agência das Nações Unidas admite que o Exército iraquiano tem enfrentado muitas dificuldades no combate contra os jihadistas, lidando com falta de armas e treino. Winter reconhece ainda que actualmente é difícil perseguir os membros de “grupos armados em movimento” envolvidos nestes crimes. Mas insiste que Bagdad tem de fazer mais e “tomar todas as acções necessárias para garantir a segurança e a protecção das crianças”. “O Estado tem o dever de proteger todas as suas crianças. A questão é como é que eles vão fazer isto nesta situação?”.