Um alaúde também pode ser pop (e punk)

Começou no punk e dedicou-se a subverter a música clássica. O seu alaúde foi premiado em Cannes. Agora podemos ouvi-lo por cá.

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Jozef van Wissem não ensaia; simplesmente escreve. dr
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Jozef van Wissem dr

Barcelos (sexta, no Teatro Gil Vicente), Vila Real (sábado, no Salão Nobre dos Paços do Concelho) e Caminha (domingo, no Teatro Valadares), são as restantes cidades que poderão apreciar a misteriosa música de Jozef van Wissem.

Em 2013 van Wissem deixou de vez a obscuridade quando o Festival de Cannes lhe atribuiu o prémio de Melhor Banda-Sonora pelos catorze trechos que compôs para Only Lovers Left Alive, um filme do cineasta Jim Jarmuch – foi o culminar de uma longa amizade, traduzida, além desta banda-sonora, em mais três discos de colaboração entre os dois. “Ao início”, conta o músico, via Skype, “a única coisa que o Jim fazia era criar uma parede de feedback por cima das minhas composições. É engraçado, porque ele não pensa como músico”.

Em parte, van Wissem desmerece o galardão: “Não podia estar mais a borrifar-me para prémios”, diz. Por outro lado, reconhece, trouxe-lhe “de repente e do nada, um público a que eu não tinha acesso, que é o do cinema. Presumo que tenham um imaginário diferente que o do meu público habitual”. Ainda assim, garante, “não mudou nada” no seu trabalho: “Continuo a compor a partir da base renascentista com que comecei há 15 anos”.

Há 15 anos a vida de van Wissem deu uma certa volta. Já era músico, mas dedicava-se à guitarra eléctrica, e a partir da adolescência interessara-se “pelo punk e pela música experimental”, acabando a gerir um estabelecimento nocturno. Já nos EUA conheceu Pat O'Brien, que o introduziu ao alaúde e foi seu professor. “O professor dele era o Reverend Garry Davis, um herói meu. Eu estava com 30 anos e mal conheci o Pat o alaúde tornou-se uma obsessão”.

Não que o instrumento lhe fosse completamente desconhecido: em miúdo teve aulas de guitarra clássica e uma parte do repertório que aprendeu eram peças para alaúde. Mas nunca tinha tocado um. O'Brien não se limitou a ensiná-lo – deu-lhe também o que ele diz ter sido “o melhor dos conselhos”: “Se queres viver disto tens de escrever o teu material”. “Um europeu não me diria isto”, nota van Wissem. “Um europeu dir-me-ia 'Toca as notas certas e não inventes. Na América diziam-me para improvisar por cima das notas”. Van Wissem levou o recado a sério: entre discos a solo e em colaboração já editou mais de duas dezenas de álbuns.

O fascínio da sua música, em particular de It Is Time For You To Return, a obra mais recente, que dá origem à presente digressão, reside numa curiosa mistura entre o rendilhado harmónico que extrai do seu instrumento e um inusitado ouvido para uma boa melodia – estranha, mas boa. “Uma melodia simples, uma boa sequência de acordes, isto é mais difícil de encontrar do que tocar mil notas muito depressa”.

Ele tem uma forma curiosa de compor: não ensaia; simplesmente escreve. “Toco tanto ao vivo que não preciso de praticar – antes pelo contrário. Em casa toco algum repertório clássico, só para ginasticar os dedos, mas as melodias que acabam nos meus discos, essas apanho-as do ar”. É impossível não notar a ênfase que este músico clássico coloca na melodia: “Neste momento sinto que o ideal para uma composição é encontrar a melhor melodia possível. Não é fácil criar uma melodia que fique no ouvido de toda a gente. Isso é um presente de deus. O que sinto é que sou uma parte de algo que canaliza as melodias que já existem”.

O discurso não é muito diferente do de um músico pop, o que para ele não é uma contradição: “O alaúde”, explica, “sempre foi um instrumento popular. Hoje pode não o ser, mas durante séculos era tocado não só na corte mas também em bares. Estava em todo o lado. Portanto, eu faço pop. Ou música popular, se preferir”.

Pop medieval, para sermos precisos. Ou, por outra, pop que resulta de um processo medieval: “O que eu faço é uma espécie de amostragem medieval: estou a tocar repertório antigo, há uma melodia que aprecio e fico com ela. Se quiser: faço uma citação. E de repente, ela transforma-se noutra coisa. Deixa de ser história, passa a ser presente”.

O processo, que ele não aprecia analisar, resume-se a “magia”: “Tento trabalhar o menos possível. Se eu fizer alguma coisa muito complicada, se me puser a elaborar demasiado por cima da melodia inicial, a magia perde-se. A coisa ou surge e está lá ou não funciona”, diz, antes de acrescentar que “o Jim [Jarmusch] passa a vida a pedir-me que ponha um terceiro acorde. Mas muitos acordes aborrecem-me”. van Wissem, que diz interessar-se bastante por “teoria de arte visual”, que usa no seu trabalho, recorre a uma outra arte para se explicar: “O [escritor] Charles Bukowski escrevia curto, conciso e directo e eu gosto disso”.

Em It Is Time For You To Return, além de alguma electrónica, van Wissem usa a sua voz, no que se aproxima mas não é o registo canção que o século XX canonizou. Para o compositor, não há qualquer contradição entre isto, o seu passado punk e os seus estudos clássicos. “Se quiser pode chamar-lhe música clássica com uma atitude punk – para mim é o mesmo: o que importa é o sentido de aventura e esse permanece igual”.

Van Wissem tocará sozinho temas de It Is Time For You To Return, de Ex Patris (o disco a solo anterior) e algumas peças de Only Lovers Left Alive. Espera que quando os concertos acabarem “as pessoas saiam de lá mais interessadas pelo instrumento”. É um homem que dá muita importância à informação e ao passado: “O presente desaparece todos os dias, pelo que só podemos contar com o passado. A história explica os dias de hoje. Sem ela não somos nada”. Portanto: não é só música clássica pop e punk; é também filosófica.