Crítica

O exército das sombras

Depois de Miami Vice e Inimigos Públicos, Michael Mann regressa com um policial clássico que é também um magistral exercício formal.

Vamos dar de barato que Michael Mann anda a fazer o mesmo filme desde mil-novecentos-e-troca-o-passo e que, no papel, Blackhat: Ameaça na Rede nada traz de novo à filmografia do autor de Heat – Cidade sob Pressão (1995), Miami Vice (2006) e Inimigos Públicos (2009).

E, contudo, com cada novo filme, vai mais longe, mais fundo, na estilização e na depuração de um género que já parece estar codificado à exaustão. Blackhat é um thriller clássico, pulsante, nervoso sobre uma perseguição obsessiva a um criminoso internacional, mas é também o thriller mais experimental e formalista que um grande estúdio hollywoodiano propõe desde... provavelmente desde Miami Vice. Confirma, assim, que não há outro realizador americano ao nível de Michael Mann, capaz de fazer com que extremos aparentemente opostos e inconciliáveis se toquem e se conjuguem harmoniosamente — de um lado a pura experimentação formal ao nível da imagem (quase quase Godardiana no modo como trabalha a textura da imagem digital), do outro a vontade de trabalhar especificamente dentro da pulp fiction popular e de massas.

No papel, Blackhat transporta para os nossos dias da tecnologia e do ciber-crime a velha história do criminoso libertado para ajudar a polícia numa investigação — no caso um hacker (Chris “Thor” Hemsworth) recrutado para ajudar a deter um ciber-criminoso que provocou uma explosão numa central nuclear na China e sabotou a bolsa de futuros de Chicago sem deixar rasto. O facto do centro da perseguição ser um macguffin puramente desmaterializado que arrasta as suas personagens por toda a Ásia (com epicentro em Hong Kong, num piscar de olho ao cinema cinético de Johnnie To ou Tsui Hark) apenas confirma que estamos perante mais uma variação sobre o film noir tradicional: heróis anónimos que labutam nas sombras, que se sacrificam em nome de algo maior. Blackhat reflecte o fascínio imutável de Mann pela ideia, Melvilliana (de Jean-Pierre) mas também muito americana, de um profissionalismo abnegado e estóico, de um código de honra e de uma moralidade linear que se mantém intacta mesmo pelo meio de iterações mais ou menos modernizadas. 

Ou seja: o que interessa ao cineasta americano é muito menos resolver uma narrativa de modo convencional e muito mais percorrer os atalhos e desvios que essa narrativa abre, acompanhar personagens encostadas à parede e o modo como elas se desenrascam. É uma visão que Mann gere orgulhosamente sem ceder aos diktats do comercialismo, e isso dá-lhe o direito de ser considerado um dos poucos “autores” a trabalhar hoje em dia no seio da indústria. Blackhat pode ser visto como o policial clássico que também é, que respeita as coordenadas do género, mas é também um thriller desintegrado e abstracto, que encena o mundo moderno à luz fria e suja dos écrãs de telemóveis e computadores e o desenha como uma enorme internet física, como se as ligações intangíveis e intocáveis entre computadores se limitassem a reflectir as que existem entre seres humanos. 

Dito por outras palavras: filmão do caraças, e uma excelente maneira de entrar em 2015.