Matemática melhor do que críticos a identificar filmes memoráveis

Nem as críticas de cinema, nem os gostos do público, nem as vendas de bilheteira permitem prever tão bem a importância a longo prazo de uma obra cinematográfica como uma análise por computador de grandes massas de dados.

Cena do filme <i>Casablanca</i>, de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman
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Cena do filme Casablanca, de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman

Pela primeira vez, uma equipa de cientistas nos EUA, liderada por um investigador português, comparou várias maneiras, tanto subjectivas como objectivas, de “medir” a influência dos filmes de Hollywood. E conclui, na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que a melhor maneira de saber se um filme ficará na história não passa pela opinião dos críticos, mas… por um programa informático que conta o número de vezes que esse filme continua a ser referenciado, citado, por filmes ulteriores, muitos anos mais tarde.

“Os críticos de cinema podem ser demasiado peremptórios a declarar a grandeza de uma obra – e são tendenciosos”, diz em comunicado Luís Amaral, especialista português de redes e sistemas complexos, radicado nos EUA, onde trabalha há mais de dez anos na Universidade Northwestern. “O nosso método não podia ser mais objectivo.”

Os investigadores realizaram um estudo de milhares de filmes norte-americanos listados no célebre site IMDb (Internet Movie Database). Estabeleceram assim uma lista dos filmes mais influentes segundo um critério por eles determinado. A seguir, compararam os seus resultados com o Registo Nacional de Filmes (NFR), uma lista criada em 1988 pelo Conselho Nacional de Preservação dos Filmes dos EUA (o National Film Preservation Board, que depende da Biblioteca do Congresso). Essa lista, que contém actualmente 625 obras “de importância duradoura para a cultura americana”, é actualizada anualmente através de “uma cuidada avaliação e deliberação”, escrevem os autores na PNAS. Os filmes elegíveis devem ter pelo menos dez anos de idade e ser considerados “cultural, histórica ou esteticamente significativos”. A presença de um filme no NFR atesta assim, da forma mais fiável possível, “do impacto, da influência, da importância das obras de criação” que são os filmes, salientam.

Em que consistiu a análise que eles próprios fizeram? Acontece que, pelo seu lado, o IMDb lista, para cada filme, numa rubrica intitulada “ligações” (connections), links para outros filmes que, de uma maneira ou outra, façam alusão a esse filme (trata-se de dados obtidos através do contributo dos utilizadores do site).

“Existe uma ligação entre dois filmes quando uma sequência, uma personagem ou um qualquer outro elemento do filme referenciado foi adoptada, utilizada ou imitada no filme que faz a referência”, explicam os autores. O nível de pormenor atingido pode ser estonteante, como o mostra um dos exemplos dados pelos cientistas: a ligação entre o filme Arizona Júnior, de 1987, e A Noite dos Mortos-Vivos, de 1981, deve-se ao facto de os seus respectivos protagonistas guiarem um carro Oldsmobile Delta 88.

Com base neste manancial de dados, a equipa construiu uma rede de ligações entre 15.425 filmes, ligados por 42.794 citações. Nesta abordagem, a importância de cada filme é representada pelo número de filmes que o citam, tal como o impacto de um artigo científico é avaliado através do número de outros artigos científicos que o mencionam.

Como “medida” da importância dos filmes vista pelo prisma dos críticos de cinema, os cientistas utilizaram, em particular, a nota atribuída aos filmes pelo site Metacritics, que é calculada com base em múltiplas críticas publicadas sobre esse filme. Por último, para quantificar a opinião do público, recorreram aos votos do público registados, mais uma vez, no IMDb.

Resultado: a contagem do número de citações de um dado filme por outros filmes é o método mais fiável para prever a presença desse filme no Registo Nacional de Filmes – e em particular, quando esse filme tem 25 anos ou mais. Ou seja, são as citações de um filme presentes noutros filmes ao longo de muitos anos que melhor atestam da sua “grandeza”.

“A nossa análise mostra que a contagem das citações associadas aos maiores intervalos de tempo [entre o filme citado e o filme que cita] são o factor que melhor permite prever a presença de um filme no NFR”, concluem os cientistas. Entre os filmes que possuem uma história particularmente longa de citações – e que constam, de facto, do referido registo – estão O Feiticeiro de Oz, A Guerra das Estrelas, Psico, Casablanca e Tudo o Vento Levou. “Os cineastas estão sempre a regressar aos filmes importantes”, diz Luís Amaral.

“A importância de um filme não é uma componente visível, mas existem coisas que conseguimos medir, tais como as notas dos críticos, o número de prémios ou de citações por outros realizadores – e que dão pistas acerca dessa componente escondida", acrescenta o investigador. "E, em última análise, o que vemos é que não são os críticos, mas os criadores, os próprios realizadores, que vão determinar quais são os filmes realmente importantes.” Quem decide de forma fiável se uma obra de cinema passará ou não à posteridade também não são, já agora, nem os Óscares nem Cannes ou outros prestigiados festivais internacionais.

Os cientistas quiseram também saber se era possível distinguir entre os filmes que são memoráveis como um todo e os que perduram por causa de “momentos icónicos”. Mas "infelizmente", não foi possível estabelecer sistematicamente essa distinção com base nos dados disponíveis no IMDb.

Todavia, uma análise feita “à mão” sobre um conjunto dos 15 filmes com o maior número de citações a longo prazo (entre 51 e 60 citações), mostra, segundo os autores, “que alguns filmes são de facto importantes por causa de uma cena ou de uma personagem [que se torna] icónica”.

Um perfeito exemplo disso é o filme O Pecado Mora ao Lado, de 1955, para o qual 55% das referências em filmes posteriores dizem respeito especificamente à cena em que o vestido de Marilyn Monroe é levantado pelo ar quente que sobe das condutas de ventilação do metro de Nova Iorque, revelando as suas pernas. “É possível que muitos dos realizadores que citam [este filme] nunca o tenham visto, mas isso só mostra ainda melhor até que ponto o célebre vestido e o memorável cabelo estão firmemente enraizados na cultura popular – ou seja, mostra o quão importante é, na realidade, esse momento cinematográfico.”