Gigantes dos mares, ou como os seus tamanhos podem ter sido um pouco exagerados

Artigos científicos, boletins informativos, livros, amostras de museus, notícias, sites de leilões – uma equipa de cientistas procurou informação nestes sítios para determinar as dimensões verdadeiras de 24 grandes animais marinhos, desde invertebrados a baleias.

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Baleia-azul, o maior animal que alguma vez existiu na Terra Rodrigo Hucke-Gaete/CBA/UACh
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Os maiores entre os maiores animais têm muitas vezes um lugar no Livro de Recordes Mundiais do Guinness. Em 1997, o paleontólogo e biólogo evolucionista Stephen Jay Gould alertou para o perigo de nos maravilharmos com estes casos “notáveis”: os animais maiores, os mais pesados, os mais ferozes, os mais... “A nossa preferência forte e enviesada para nos concentrarmos nos extremos, em vez de documentarmos toda a gama de variações [das características das espécies], gera todo o tipo de erros profundos e persistentes”, dizia o divulgador de ciência norte-americano (1941-2002).

Ou seja, corre-se o perigo de não observar toda a variedade de uma espécie, mas apenas um caso extremo, que está longe de ser representativo. É como se alienígenas chegassem à Terra, olhassem para todos os registos da civilização e tomassem Robert Wadlow, norte-americano com 2,72 metros que morreu em 1940, e que é considerado a maior pessoa de sempre, como o padrão da altura da espécie humana.

Os animais marinhos são também alvo deste tipo de enviesamento. Além disso, a dificuldade em obter indivíduos de algumas espécies e de medir grandes animais como a baleia-azul ou a lula-gigante lançam dúvidas sobre as medições realizadas no passado a estas criaturas. Mas uma equipa de cientistas fez uma investigação exaustiva sobre o tamanho e, algumas vezes, o peso de 24 animais marinhos gigantes de diferentes grupos. Para algumas espécies, os cientistas tiveram de corrigir os tamanhos máximos – baixando-os.

O estudo foi agora publicado na revista online Peerj e mostra ainda que, tal como Robert Wadlow para os humanos, os maiores animais são raridades que não representam as populações de cada espécie.

“Há vários anos apercebi-me de que as pessoas diziam sempre que as lulas-gigantes [“Architeuthis dux”] chegavam a ter 18 metros, o que é um comprimento incrivelmente grande”, conta Craig McClain, subdirector do Centro Nacional de Síntese Evolutiva, em Durham, na Carolina do Norte, Estados Unidos, num comunicado desta instituição. “Quando comecei a observar a informação já existente, descobri que esta estimativa é pouco realista.”

Os cientistas pensam que a lula-gigante vive em todos os oceanos do mundo, a grande profundidade. Ao longo dos últimos séculos, os biólogos identificaram 21 espécies diferentes de lulas-gigantes do género Architeuthis. Mas um estudo genético mais recente revelou que os indivíduos das diferentes espécies eram, afinal, muito próximos a nível genético. Por isso, os biólogos juntaram as 21 espécies numa só – a Architeuthis dux.

Ainda assim, estes cefalópodes são pouco conhecidos: pensa-se que são carnívoros, alimentando-se de pequenos peixes e de outras lulas. Segundo Craig McClain, quando estes moluscos morrem, as fibras musculares vão deixando de ter a rigidez normal e ficam esticadas, o que pode explicar os registos do século XIX dos enormes comprimentos de alguns destes animais. Do que analisou, a equipa encontrou informação sobre alguns exemplares grandes: uma da lulas-gigantes chegava a ter mais de 17 metros. Mas não é informação confiável.

“O maior e mais bem preservado indivíduo descrito na literatura contemporânea, com revisão feita pelos pares, é de 12 metros”, escrevem os autores no artigo científico. “Dado que os [registos dos] poucos [indivíduos com] comprimentos superiores a 12 metros não são em primeira mão e vêm de testemunhos, achamos que a maior lula-gigante cientificamente medida tem 12 metros.”

Da baleia-azul…
Tal como a lula-gigante, a equipa andou à procura do mesmo tipo de informação para a baleia-azul (Balaenoptera musculus), o cachalote (Physeter macrocephalus), a morsa (Odobenus rosmarus), o elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a manta (Manta birostris), o tubarão-branco (Carcharadon carcharias), o tubarão-frade (Cetorhinus maximus), o polvo-gigante-do-pacífico (Enteroctopus dofleini), a amêijoa-gigante (Tridacna gigas), o isópode-gigante (Bathynomus giganteus), entre outros animais.

Para isso, os cientistas recorreram a artigos científicos, boletins informativos, livros, amostras de museus, notícias, sites de leilões e obtiveram ainda informação partilhada por outros especialistas.

Sempre que era possível, analisaram a variação das populações de cada espécie. Um exemplo paradigmático desta variação é a baleia-azul, o maior animal de sempre que viveu (e vive) na Terra. O maior exemplar conhecido destes cetáceos tinha 33 metros de comprimento: foi encontrado em 1930 no oceano Antárctico, refere a equipa no artigo científico. No entanto, três quartos dos indivíduos medidos desta espécie têm menos de 25,3 metros. A estimativa do peso para os dois maiores animais é de 199 e 190 toneladas. Por comparação, um elefante-africano de quatro metros de altura pode chegar a ter sete toneladas.

Apesar de a baleia-azul se distribuir por todos os oceanos do mundo, os exemplares maiores apenas vivem nos oceanos do Sul. Há três subespécies: uma vive junto da Antárctica, outra no oceano Índico e a terceira no Norte do Atlântico no Norte do Pacífico. É a subespécie do Índico que tem indivíduos com menor tamanho.

Este mamífero alimenta-se de krill, um grupo de várias espécies de pequenos crustáceos, com poucos centímetros de comprimento, que são uma importante parte da biomassa dos oceanos. Nos oceanos do Sul, segundo os cientistas, o krill está mais disperso, por isso as baleias-azuis precisam de percorrer mais quilómetros para comer. Neste contexto, um maior comprimento possibilita ter mais reservas no corpo, o que permite empreender estas viagens longas à procura de alimento.

Mas a conclusão é geral para todas as espécies: “A nossa informação sugere que a maioria dos indivíduos vive muito abaixo do tamanho máximo (…) e flutua mais provavelmente à volta de um tamanho óptimo.” Os cientistas explicam ainda que os tamanhos máximos podem estar associados a mutações genéticas ou a alterações metabólicas. Mas é um tamanho médio que se relaciona com um maior sucesso reprodutor.

…À amêijoa-gigante
Assim, embora já se tenha encontrado uma amêijoa-gigante com 137 centímetros de comprimento, nove em cada dez dos indivíduos desta que é a maior espécie de bivalves viva atingem menos de 102 centímetros. O grande crescimento destes indivíduos deve-se à relação de simbiose que esta espécie tem com um tipo de zooxantelas – algas unicelulares que fazem a fotossíntese. O recorde dos 137 centímetros pertence a um indivíduo descoberto em 1817 na costa Nordeste da ilha de Samatra (Indonésia), cuja concha pesava 230 quilos e o corpo estava estimado em cerca de 250 quilos.

E o peso-pesado das morsas tinha 1883 quilos: era um macho de 3,8 metros encontrado no arquipélago norueguês de Svalbard. Mas três quartos destes mamíferos que vivem na região do Árctico pesam menos do que 1225 quilos. Na sua pesquisa, a equipa de cientistas encontrou registos de duas morsas que ultrapassavam as duas toneladas. Uma tinha 2500 quilos e outra 2268, mas estes dois registos tinham problemas, pelo que os investigadores não puderam confirmar esses dados.

Muitas vezes, a equipa não conseguiu obter a informação completa que desejava sobre algumas espécies, o que significa que ainda hoje não existe uma verdadeira noção de como é a sua população saudável. Além disso, este estudo não encontrou informação temporal para muitos animais, o que dificulta a compreensão da evolução destes 24 animais marinhos e a avaliação do impacto humano.

Para Craig McClain, é preciso conhecer o tamanho corporal das espécies para compreender o seu papel nos ecossistemas. “O metabolismo é uma função do tamanho de um animal porque indica quanto oxigénio e carbono consome”, diz o cientista. “Saber se um tubarão-baleia tem 10, 15 ou 20 toneladas permite-nos estimar o equivalente a quantas lâmpadas de luz é que gasta todos os dias.”

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