Rushdie: não podemos limitar a liberdade do Charlie Hebdo

Salman Rushdie criticou numa palestra nos EUA a forma como os cartoonistas mortos em Paris foram difamados.

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Salman Rushdie defende que a liberdade nunca pode ser limitada mesmo que ofenda AFP

Salman Rushdie, que viveu anos refém do fundamentalismo islâmico, após a edição em 1989 de Versículos Satânicos, respondeu no próprio dia, quarta-feira, ao atentado na redacção do Charlie Hebdo. “Ponho-me do lado do Charlie Hebdo, como é dever de todos, para defender a arte da sátira, que foi desde sempre uma força da liberdade contra a tirania, desonestidade e estupidez”, escreveu em comunicado.

Uma semana depois, o escritor voltou ao tema numa palestra nos Estados Unidos. Questionado pelos alunos sobre o que tinha acontecido em França, Rushdie começou por destacar a tradição satírica francesa que sempre foi mordaz e muito dura. “E ainda é”, disse, referindo-se aos cartoonistas mortos em Paris como camaradas. “Eles morreram usando o mesmo instrumento que eu uso, que é uma caneta ou um lápis, foram quase imediatamente difamados ou chamados de racistas e sei lá eu mais o que quê”, continuou Rushdie, que nasceu na Índia mas fez todos os seus estudos em Inglaterra.

Para o escritor que tem passado os últimos 25 anos sob pressão, depois de ter sido condenado à morte pelo então líder do Irão, o ayatollah Ruhollah Khomeini, que considerouo romance Os Versículos Satânicos blasfemo e condenou Rushdie à pena de morte, a liberdade de expressão não pode nunca ser limitada, mesmo que possa ofender.

“Tanto John F. Kennedy como Nelson Mandela usaram uma frase de três palavras que na minha cabeça diz tudo e que é 'A liberdade é indivisível'", acrescentou Salman Rushdie. “Não a podes cortar às fatias ou deixa de ser liberdade”, continuou para concluir: “Podes não gostar do Charlie Hebdo mas o facto de não gostares não tem nada a ver com o seu direito de falar”.