No Sul da Alemanha, as universidades estão no centro da economia

Das gigantes Bosh e Mercedes às firmas de base familiar, é ao ensino superior que as empresas do länder de Baden-Vurtemberga recorrem para recrutarem trabalhadores ou encontrarem fontes de inovação para os seus produtos. Este é o retrato da região europeia com maior diversidade de universidades, onde o financiamento é totalmente público e os estudantes não pagam propinas.

Foto
REUTERS/Ina Fassbender

Há uma nova atracção num dos grandes armazéns de investigação do Karlsruhe Institute of Tecnology (KIT). É um conjunto de equipamentos de uma linha de montagem industrial. Estão baralhados como as partes de um puzzle antes de ser montado e, sob cada um dos componentes, há rodas que facilitam a sua arrumação. É isso que se pede aos alunos desta universidade: encontrem a melhor configuração para fazer estas peças encaixarem.

A partir de Outubro será aqui que vão trabalhar os estudantes do curso de gestão de produção industrial. Terão de descobrir a melhor configuração para a montagem de um produto ou como adaptar o processo à organização do trabalho em diferentes países. Chamam-lhe teaching factory (fábrica de ensino) e foi oferecida por um das maiores multinacionais do país, a Bosh, que é parceira desta universidade.

A firma tem sede a poucos quilómetros dali, em Estugarda, a capital do estado de Baden-Vurtemberga, no sudoeste da Alemanha. Na região encontra-se uma das ofertas de ensino superior mais diversas da Europa, desde uma das mais antigas universidades da Europa, a de Heidelberg (1386) e outras oito universidades clássicas, bem como Universidades de Ciências Aplicadas (o equivalente aos Institutos Politécnicos), Academias de Cinema, Teatro e Cultura Pop. Há ainda um tipo de oferta que é única: uma universidade dedicada ao ensino dual, que articula a aprendizagem em contexto de aulas com a sua utilização em empresas. É a Universidade Estadual Cooperativa de Baden-Vurtemberga (DHBW, na sigla alemã), com sede em Estugarda e polos em 12 outras localidades. Ao todo, são 70 universidades (5% privadas) em pouco mais de 36 mil metros quadrados, o que faz deste länder alemão a região europeia com a mais alta concentração de instituições de ensino superior de todo o continente.

O estado de Baden-Vurtemberga tem 10,8 milhões de habitantes, quase tantos como Portugal. Mas a proximidade com a realidade nacional esgota-se nesta dimensão. A região alemã não só tem mais universidades como todo o país como dispõe de um orçamento destinado à Educação que ultrapassa largamente o que é disponibilizado pelo Estado português. No último ano, foram destinados ao sector 14,7 mil milhões (cerca de 35% do total da verba gasta pelo estado), dos quais quatro mil milhões vão para o ensino superior. E esta verba é alcançada sem o auxílio das propinas dos estudantes, que passaram a ser gratuitas, em toda a Alemanha, no início deste ano lectivo, por decisão dos vários governos regionais.

Como o orçamento deixa perceber, Baden-Vurtemberga é uma região de sucesso e a economia poderosa permite-lhe ter uma das taxas de desemprego mais baixas da Alemanha (4,1%, três pontos abaixo da média do país e 6,5 menos do que média europeia) e um PIB per capita de 37.400 euros, bem acima da média da União Europeia (23 mil). E na região ninguém duvida que a relação privilegiada das universidades com as empresas é uma parte importante da explicação para esta realidade. “Somos uma região industrial, porque a universidade é o seu ponto central. E nós estamos aqui desde o século XIV”, defende o vice-reitor da Universidade de Heidelberg, Dieter W. Heermann. A fórmula de sucesso é um combinado entre capacidade para transferir tecnologia e inovação para as empresas, mas também formar diplomados à medida dos interesses das empresas.

Formação dos trabalhadores
No sistema de ensino superior alemão formam-se, acima de tudo, trabalhadores. Por isso, das 70 universidades de Baden-Vurtemberga, só três têm um lugar consistente nos principais rankings internacionais e duas delas, a Universidade de Estugarda e o KIT, em posições medianas. A única universidade da região que consegue estar bem posicionada é a de Heidelberg 49.ª na lista de Xangai e 68.º no Times Higher Education), disputando com Universidade de Munique, a liderança nacional.

Na região estão empresas mundialmente reconhecidas como a Bosh, a Porsche, a Mercedes-Benz ou a química BASF, todas com colaborações próximas com o ensino. Mas também as milhares de pequenas e médias empresas, que são o coração da economia regional, estão em contacto privilegiado com as universidades. “É assim que as empresas de base-familiar têm contacto com tecnologia de ponta”, conta Joachim Lembach, da Universidade de Ciências Aplicadas de Karlsruhe. “Eles aprendem com os alunos que recebem e conseguem estar em contacto com as universidades”.

É também nas universidades que as empresas de Baden-Vurtemberga recrutam os seus quadros. E, ao contrário do que podia ser expectável numa região que está tão próxima de grandes gigantes mundiais da indústria, a maioria dos estudantes, pelo menos nesta universidade, prefere fazer o estágio em empresas mais pequenas “porque vivem perto ou porque os pais trabalham lá”, conta Wilhelm-August Buckermann, vice-presidente da Universidade de Ciência Aplicadas de Esslingen. “Nas empresas mais pequenas também conseguem ter maiores responsabilidades”, acrescenta Joachim Weber, presidente da DHBW.

A DHBW é a instituições onde se percebe mais nitidamente esta orientação das universidades do Sudoeste da Alemanha para responder directamente ao mercado de trabalho. Esta é a única universidade alemã que concentra a sua oferta em formações feitas com base no sistema dual. Este tipo de ensino, que o Governo português tem tentado implementar no país nos últimos anos, tem raízes históricas na Alemanha que remontam ao final da Idade Média e encontra, numa instituição como esta, a sua continuidade do ensino superior.

Há, este ano, 34 mil estudantes inscritos na Universidade Estadual Cooperativa de Baden-Vurtemberga, que representam cerca de 10% do total de inscritos no ensino superior em todo o estado. Este é também o tipo de oferta que mais tem crescido na região: há dez anos, o número de inscritos não chegava a 20 mil e o ensino dual tem vindo a ganhar terreno face às restantes ofertas, sobretudo os cursos vocacionais. Uma tendência que o presidente da universidade, Joachim Weber, justifica pelas “perspectivas mais prometedoras de emprego após o curso”. Os dados oficiais indicam que 90% dos alunos encontram trabalho na empresa parceira no final da formação.

Licenciaturas tradicionais
As universidades de ciências aplicadas como a de Esslingen ou a Karlsruhe têm alguns programas de formação em modo dual, mas que são pontuais. A maioria são licenciaturas tradicionais, ainda que nestas instituições com uma forte componente prática. Pelo menos um semestre obrigatório de trabalho em empresas e a tese final da licenciatura também é feita em parceria com as empresas. Mas nenhuma instituição tem um modelo de ensino como a da DHBW, que combina três meses de formação em contexto de aula com três meses de formação em contexto de trabalho nas empresas. “Os alunos vão mesmo para lá trabalhar. Não fazem estágio para tirar cópias ou servir cafés, têm que aplicar o conhecimento que ganham aqui”, garante Weber.

Antes de se inscrever nestas universidades, o aluno têm que ter já um contrato de trabalho-aprendizagem com uma empresa de três anos, tantos quantos a licenciatura. Nesse período recebem um salário mensal – entre 750 e 2000 euros – para garantir a sua independência financeira. A pressão está do lado dos estudantes: se chumbarem, o contrato termina imediatamente, mas uma empresa não pode deixar sair um aluno simplesmente porque não gosta dele.

Além do aumento da procura deste tipo de cursos, as empresas parecem também ter percebido as vantagens deste sistema. Na crise por que a Alemanha passou nos anos 1990, a retracção do mercado de trabalho teve também impactos junto dos estudantes, que passaram a ter mais dificuldade em aceder a contratos de emprego-formação ou a estágios. “Na crise mais recente, em 2008, foi diferente. Mantivemos o nível de procura que estávamos a ter”, conta Joachim Weber. “Acho que as empresas aprenderam a lição. Mesmo em situações difíceis, têm que manter os trabalhadores de mais alto potencial por perto”.

O PÚBLICO viajou a convite da agência governamental Baden-Wurttemberg International