Houellebecq imagina a França governada por um muçulmano

Depois de O Mapa e o Território (2010), o mais polémico ficcionista francês regressa no dia 7 de Janeiro com o romance Soumission, no qual antecipa a vitória de um partido muçulmano nas eleições presidenciais francesas de 2022.

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"A parte do romance que assusta é acima de tudo a anterior à chegada dos muçulmanos ao poder", afirmou o escritor à rádio francesa DR

Soumission, o próximo romance de Michel Houellebecq, com saída anunciada para o dia 7 de Janeiro, está já a causar polémica em França. Parece, de resto, ter sido concebido com essa intenção. O ponto de partida do livro é a eleição em França, em 2022, de um presidente da República muçulmano, eleito por uma coligação que inclui os socialistas e os centristas da UMP, menos receosos do candidato da (imaginária) Fraternidade Muçulmana do que de uma eventual vitória da extrema-direita populista da Frente Nacional.

Ficiconista, poeta, ensaísta, realizador, argumentista, Houellebecq é um dos mais traduzidos autores franceses contemporâneos, e também um dos mais controversos. Muitos o acusam, de resto, de lançar provocações – quer de viva voz, quer através das suas personagens – com o calculado propósito de alimentar controvérsias que chamem a atenção para os seus livros e para si próprio.

Depois de o seu premiado segundo romance, As Partículas Elementares (1998), ter desancado a  a geração que fez o Maio de 68, Houellebecq propõe agora uma espécie de romance de antecipação social, imaginando a sociedade francesa a submeter-se – o título do livro evoca um dos sentidos da palavra Islão, traduzível por “submissão” ou “obediência” – a um poder de inspiração muçulmana.

Alguns críticos já leram a obra, e sínteses do respectivo enredo têm surgido em diversas publicações ao longo dos últimos dias. A acção decorre em 2022, quando chega ao fim o segundo mandato do presidente François Hollande. Se parece um pouco forçado imaginar-se o PS francês a aliar-se à UMP de Sarkozy para eleger como sucessor de De Gaulle ou Mitterrand um certo Mohammed Ben Abbes, candidato de um partido de muçulmanos franceses, a própria sugestão de que Hollande irá ser reeleito não é provavelmente a menos inverosímil das profecias deste livro.

Houellebecq imagina Hollande a perder na primeira volta tanto para o candidato da Frente Nacional (FN) como para o representante da Fraternidade Muçulmana, que acabará por bater na segunda volta, com apoios que vão da esquerda ao centro-direita, o seu rival da FN.

Entre outras acusações, Houllebecq tem sido rotulado de xenófobo e racista. E se é admissível que algumas destas críticas decorram de interpretações demasiado literais de passagens dos seus livros, já a sua antipatia pelo Islão tem sido confirmada em várias ocasiões, como numa entrevista que deu em 2001 à revista Lire, na qual afirma que “o Islão é a mais estúpida das religiões”.

Houellebecq foi então processado por insultar os muçulmanos e por incitar ao ódio racial, mas acabou absolvido. O escritor afirmou em tribunal que não desprezava os muçulmanos, mas apenas a sua religião, porque, argumentou, tal como o cristianismo e o judaísmo, se baseia em “textos de ódio”. No entanto, na entrevista à Lire, distinguiu a “beleza” da Bíblia, defendendo que “o imenso talento literário dos judeus” os tornava merecedores de que muito lhes fosse perdoado.

Houellebecq começou por publicar livros de poemas, estreou-se relativamente tarde como romancista e costuma precisar de quatro ou cinco anos para escrever cada romance. O último que publicou, O Mapa e o Território, em que ele próprio é uma das personagens centrais, saiu já em 2010, cinco anos após o anterior, A Possibilidade de Uma Ilha (2005).

Como os romances anteriores, Soumission, cujo narrador é um professor de literatura que recorre frequentemente aos serviços de prostitutas e que se sente atraído por mulheres consideravelmente mais novas do que ele, vai provavelmente provocar polémica e vender-se bastante bem. A  ministra francesa da Cultura, Fleur Pellerin, já anunciou que tenciona ler o livro, lembrando que Houellebecq foi sempre “um romancista provocador”, com “um sentido de humor estranho”.