Pais e directores temem que atraso na colocação de professores provoque danos "irreparáveis"

Ao planear as aulas de recuperação, as direcções das escolas privilegiaram as disciplinas e os alunos que este ano têm exames nacionais. E os outros?

Foto
Rui Gaudêncio

Entre os representantes dos pais, dos professores e dos directores, há quem diga que o arranque do ano lectivo foi “diabólico” e “o pior de sempre”, que “desgastou emocionalmente as famílias” e “perturbou as escolas”. Mas o mais grave, concordam, é que as consequências do atraso na colocação dos professores vão prolongar-se nos próximos anos. “Talvez se evite um descalabro nos resultados dos exames, este ano, mas já não serão reparáveis os prejuízos para os milhares de alunos que só vão sentir as consequências do que aconteceu mais tarde, quando já ninguém estiver a olhar”, diz António Parente, da Confederação Nacional Independente dos Pais e Encarregados de Educação (CNIPE).

Não dá dados oficiais. Calcula-se que duas semanas depois do início das aulas mais de 400 mil alunos dos 304 agrupamentos de escolas TEIP (Território Educativo e de Intervenção Prioritária) e com autonomia ainda não tinham professores a todas as disciplinas. E sabe-se que na última semana de Outubro os dirigentes escolares ainda desesperavam, agarrados ao telefone, para contratar os últimos docentes, devido ao tipo de concurso, que permitiu que o mesmo professor ficasse colocado simultaneamente em dezenas de escolas e bloqueasse a abertura de vagas aos restantes colegas (ver caixa ao lado).

“Foi diabólico – nunca se viu coisa assim e, se quer saber, foi de tal forma grave que não acredito que se volte a ver”, comenta o normalmente contido Filinto Lima, dirigente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), tem uma percepção semelhante. Diz que “sempre houve problemas no arranque do ano lectivo, mas, desta vez, bateu-se no fundo”. “Quando começámos a ter consciência da dimensão e da gravidade do que estava a acontecer, só desejávamos poder parar o tempo. Impossível, claro: os dias foram passando, e depois as semanas, criando um problema que simplesmente não tem solução”, afirma.

Ambos fazem notar algo que, reparam, será de difícil compreensão para quem está fora do sistema – “A recuperação das aulas perdidas não é viável. Os alunos têm o horário de tal forma preenchido que é impossível somar, de forma indiscriminada, horas lectivas àquelas que eles já têm por semana”, diz Ascenção. Ainda defendeu que as crianças tivessem aulas nalguns dias dos períodos de férias de Natal, da pausa de Carnaval e na Páscoa, “o que também não resolveria o problema, mas o atenuava”. Os directores preferiram “ser práticos”, “estabelecendo prioridades e avançando com base numa política de contenção de danos”, explica Filinto Lima. “Na generalidade das escolas apostámos nas aulas de compensação para os alunos que estão em anos terminais de ciclo e nas disciplinas sujeitas a exame. Nos restantes casos optámos pelas readaptações curriculares, ou seja, por cortar conteúdos do programa das diversas disciplinas”, resume Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE).

Ninguém contesta a solução. E ninguém a aplaude. Manuel Pereira não é capaz de garantir que os conteúdos programáticos cortados (com sequência noutros anos escolares, admite) poderão alguma vez ser recuperados. António Parente acredita que isso nunca acontecerá: “Se este ano as dificuldades são as que são, para o ano e no ano seguinte, o normal é que ninguém se lembre disto”, lamenta. Jorge Ascenção diz não ter ilusões. Está convicto de que “até se poderão sumariar os conteúdos, mas não ensiná-los, já que para isso era preciso o tempo que não há”. "Talvez nunca venhamos a ter noção de como estas crianças foram afectadas", diz.

Os representantes das duas organizações de pais estão convencidos de que a solução adoptada servirá para “mitigar a gravidade do problema” e “acalmar as famílias de alunos sujeitos a exames este ano” que, segundo o presidente da Confap, “são as que ficaram mais terrivelmente desgastadas” com este processo. Não está confiante nos resultados: “Se a avaliação for feita com os mesmos critérios e com o mesmo nível de exigência, os efeitos far-se-ão sentir, inevitavelmente. Com uma agravante: mesmo dentro da mesma turma serão prejudicados os alunos de famílias mais carenciadas, que não tiveram possibilidade de recorrer a ajuda externa, de explicadores, para tentar colmatar a falta de professores”, nota.