Crítica

O hobbit não enche barriga

O último filme da trilogia do Hobbit apenas confirma como Peter Jackson se devia ter ficado pelo Senhor dos Anéis. A estreia é esta quinta-feira.

Ao final das duas horas e quase meia do terceiro e último filme da adaptação do Hobbit de J. R. R. Tolkien, fica a pergunta: este Peter Jackson que dirige em piloto automático as intermináveis vistas digitais da batalha pelo controlo de Erebor é o mesmo Peter Jackson que soube traduzir em imagens com tanta pontaria O Senhor dos Anéis?

Porque, genuinamente, é essa a sensação que A Batalha dos Cinco Exércitos – e que, globalmente, a trilogia do Hobbit – deixa: que, nos dez anos que passaram entre uma e outra trilogia, Jackson perdeu a mão, perdeu o jeito, vendeu a alma. Que este regresso à Terra Média para contar a aventura de Bilbo Baggins, muitos anos antes dos acontecimentos de O Senhor dos Anéis, tem menos a ver com a vontade de fazer justiça às personagens de Tolkien, e mais com a “extensão” do sucesso obtido pelos filmes originais.

Goste-se ou não (e nós gostamos muito), há que reconhecer que o que Jackson fez nos três “episódios” de O Senhor dos Anéis é um imenso e maníaco trabalho de amor e devoção à obra de Tolkien, uma vontade de fazer finalmente justiça em imagens a uma obra seminal da literatura do século XX. Essa paixão possessiva de fã atento transparecia na atenção dada às personagens e à narrativa na primeira trilogia, e sobretudo no primeiro filme (e melhor dos três), A Irmandade do Anel (2001), que evocava o filme de aventuras clássico com uma desenvoltura invulgar numa produção destas ambições.

Nada disso sobreviveu na trilogia do Hobbit. Ao esticar o pequeno romance para três filmes – Uma Viagem Inesperada, 2012; A Desolação de Smaug, 2013; e agora A Batalha dos Cinco Exércitos - , introduzindo personagens novas ou elementos retirados a outros escritos do académico e novelista sobre o universo da Terra Média, Jackson parece ter sucumbido a duas coisas. Primeira: à necessidade de estar “ao nível” do sucesso público e crítico do Senhor dos Anéis. Segunda: ao gigantismo que parece ser hoje “figura obrigatória” no caderno de encargos de qualquer candidato a blockbuster global.

O que daqui sai é um filme que enche certamente o olho mas que está longe de encher a barriga, quase inteiramente preenchido pela batalha que lhe dá título, e com o anão Thorin (Richard Armitage) e o arqueiro Bard (Luke Evans) como personagens mais centrais do que o hobbit Bilbo propriamente dito (pobre Martin Freeman, literalmente “chutado para canto” apesar de lhe pertencerem os melhores momentos do filme). A Batalha dos Cinco Exércitos não passa de uma manifestação de virtuosismo técnico da equipa de efeitos visuais liderada por Richard Taylor e Joe Letteri; uma espécie de mostruário luxuoso do que a tecnologia permite hoje em dia, mas na qual nem a espaços se sente a mãozinha humana que sempre fez a diferença de Peter Jackson e que tanto ajudara à grandeza do Senhor dos Anéis. Não chega a ser uma desilusão - depois do resultado dos filmes anteriores, não estávamos à espera de muito; é apenas uma oportunidade perdida.