Erdogan aperta o cerco aos media próximos do seu grande rival

Directores de um jornal e de uma televisão ligados a Fethullah Gülen foram detidos. Operação representa nova escalada na luta entre Presidente o líder do influente movimento religioso.

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O director do Zaman, Ekrem Dumanli, no momento em que foi levado pela polícia OZAN KOSE/AFP
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Centenas de pessoas juntaram-se em frente do jornal Today’s Zaman para impedir a entrada da polícia OZAN KOSE/AFP

Com as televisões a transmitirem em directo, a polícia turca deteve neste domingo o director de um dos principais jornais do país, incluído numa lista de 32 pessoas acusadas de ligação a uma “organização terrorista”. Entre os detidos estão também o director e vários produtores de uma televisão igualmente próxima de Fethullah Gülen, o líder de um influente movimento religioso que foi aliado e é agora inimigo jurado do Presidente Recep Tayyip Erdogan.

“O momento escolhido para estas detenções não é uma coincidência”, escreveu o correspondente da BBC em Istambul, Mark Lowen, lembrando que faz quarta-feira um ano que dezenas de pessoas do círculo próximo de Erdogan, incluindo empresários e filhos de três ministros, foram presas por envolvimento no maior escândalo de corrupção de que há memória na Turquia moderna.  

O caso marcou a ruptura definitiva entre o então primeiro-ministro – apanhado em escutas comprometedoras que viriam a ser divulgadas nas redes sociais – e Güllen, defensor da modernização do islão, que construiu a sua influência graças a uma rede de escolas e universidades que formaram boa parte da moderna elite turca. Erdogan sobreviveu ao escândalo, consolidou o poder, ao ser eleito em Agosto para a presidência, e prometeu erradicar o “Estado dentro do Estado” que diz ter sido criado pelo seu rival, que tem milhões de seguidores na Turquia, muitos em postos de influência.

Em menos de um ano, centenas de polícias e magistrados foram afastados dos cargos, o Governo aprovou leis que reforçaram o seu controlo sobre os tribunais e a Internet. As investigações à rede de corrupção foram travadas. “Esta é a segunda fase, a prisão dos críticos”, escreveu o jornalista britânico. Sexta-feira, depois de ter assinado uma lei que autoriza detenções baseadas em “dúvidas razoáveis”, Erdogan assegurou que iria “perseguir até aos seus esconderijos” os seguidores do seu inimigo. “Não nos confrontamos apenas com uma simples rede, mas com pessoas que são peões das forças do mal”, afirmou, numa referência a Güllen.

Por essa altura eram já claros os alvos da sua ira. No Twitter, um misterioso informador anónimo cuja conta é seguida por milhares de turcos, avisava que as autoridades se preparavam para deter 400 pessoas associadas a Güllen, 150 das quais jornalistas. Fuat Avni, pseudónimo do informador que diz pertencer ao círculo próximo do Presidente, afirmou no dia seguinte que a operação tinha sido suspensa, devido à forte reacção gerada pela fuga de informação. Já no sábado, revelou que a polícia se preparava para prender três dezenas de pessoas, incluindo o director do Zaman, Ekrem Dumanli, o que levou redactores e chefias do jornal, a passar a noite na redacção.

No exterior do jornal, crítico de Erdogan e um dos de maior tiragem da Turquia, foram-se juntando leitores. Tantos que, quando os agentes da polícia chegaram ao local, pouco depois das 7h deste domingo, se viram rapidamente rodeados de cartazes onde se lia, em inglês e em turco, “a liberdade de imprensa não pode ser silenciada”. Os polícias abandonaram o local, mas regressaram ao início da tarde, levando Dumanli que, no meio da confusão, garantia estar tranquilo: “Os que cometem os crimes é que devem estar com medo.”

A operação, adianta a edição inglesa do jornal concorrente Hurriyet, foi lançada pela procuradoria de Istambul, mas estendeu-se a 13 províncias do país. Até ao final do dia, tinham já sido detidas 31 pessoas, entre elas Hidayet Karaca, director da cadeia de televisão Samanyolu, que tal como o Zaman é considerada próxima de Güllen, dez jornalistas e produtores de duas populares séries transmitidas pela estação, uma sobre um esquadrão antiterrorista outra, difundida em 2009, sobre a rebelião curda no sudoeste do país.

Num comunicado divulgado ao final do dia, o Ministério Público revelou que os visados no mandado de captura são suspeitas de “fundar, dirigir ou pertencer a uma organização armada terroristas, falsificação e calúnia”. Um documento apresentado pelos polícias na redacção do Zaman dava conta de que os visados eram acusados de ataques à soberania do Estado e organização criminosa, revelou o jornal. Já a agência semi-oficial Anadolu noticiou que o caso pode estar ligado a uma investigação, entretanto arquivada, contra um grupo religioso por suspeitas de ligações à Al-Qaeda – na operação deste domingo foram detidos dois antigos comandantes da polícia que lideraram o caso.

“O que estamos a assistir não acontece numa democracia saudável”, afirmou Kemal Kilicdaroglu, líder dos secularistas do CHP, o principal partido da oposição a Erdogan, denunciando o que diz ser um “golpe do Governo, um golpe contra a democracia”. Uma suspeita que deverá ser partilhada pelos aliados da NATO que, depois de elogiarem as reformas iniciadas por Erdogan após a sua chegada ao poder em 2002, olham com preocupação para as derivas autoritárias e cada vez mais conservadores do Presidente.

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