Impacte ambiental e patrimonial do Alqueva custa 10% do investimento

A planta aquática jacinto-de-água já chegou ao Alqueva e o mexilhão-zebra é uma ameaça cada vez maior. A EDIA vai instalar barreiras para impedir a sua progressão.

Foto
A EDIA esteve cinco meses a travar a entrada do jacinto-de-água na albufeira do Alqueva, o que conseguiu até agora NUNO OLIVEIRA

O projecto Alqueva prevê um investimento total de cerca de 2500 milhões de euros. Deste montante foram aplicados cerca de 10% do investimento em acções que procuraram minorar os impactes ambientais e patrimoniais provocados pela instalação do empreendimento.

Para além desta verba, a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA) suporta encargos anuais que podem ascender a quatro milhões de euros, na monitorização da qualidade da água, dos solos, da flora e na população de peixes.  Apesar do volume das verbas já despendidas e das que têm de ser suportadas anualmente, persiste a poluição difusa expressa em milhares de toneladas de fósforo, potássio e azoto, todos os anos arrastados pelos caudais vindos de Espanha e da área circundante das albufeiras do Alqueva e Pedrógão. Recentemente a EDIA foi confrontada com a presença do jacinto-de-água e a ameaça de uma praga do -ebra.

O presidente da EDIA, José Pedro Salema, admitiu ao PÚBLICO que “não tem jurisdição” para actuar contra quem prevarica no lançamento na rede hidrográfica do Guadiana de efluentes domésticos, industriais e da agricultura em território espanhol, a que se junta a matéria orgânica depositada nos leitos das albufeiras do Alqueva e Pedrógão. “Sempre que detectamos situações anómalas informamos as autoridades” refere.

Em 2011 o relatório técnico do novo Plano de Ordenamento da Bacia do Guadiana, concluía: “se não forem aplicadas, até 2015, as medidas de protecção e salvaguarda ambiental obrigatórias, a saúde pública pode estar ameaçada”.

A realidade nos dias de hoje reforça estas preocupações. De Espanha não vem só o fósforo, o azoto e o potássio. A proliferação no troço do Guadiana em território espanhol, desde 2004, do jacinto-de-água, já obrigou as entidades espanholas a investir cerca de 25 milhões de euros na erradicação desta planta infestante, sem o conseguir.

E as consequências já se fizeram anunciar em Alqueva em 2014. “Durante cinco meses mantivemos um barco na água a apanhar fragmentos de jacinto-de-água vindos de Espanha” descreve Pedro Salema. A barreira colocada pela empresa a montante da ponte da Ajuda, que liga Elvas a Olivença, em 2013, vai ser reforçada com outra para acautelar novas invasões da planta aquática oriunda do rio Amazonas. O presidente da EDIA teme o desastre ambiental em vastas áreas da albufeira do Alqueva caso a planta ultrapasse as barreiras colocadas a montante.

Também o mexilhão-zebra, um bivalve concentrado em troços do Guadiana no território espanhol e que pode destruir sistemas e perímetros de rega, suscita preocupações aos responsáveis da EDIA. Para combater a eventualidade da praga se estender a território português, a empresa já instalou em Alqueva duas estações para desinfestação de barcos que venham de locais suspeitos de estarem contaminados para participar em provas desportivas de pesca ou de regata na albufeira do Alqueva

Olival superintensivo
Quando falta um ano para a conclusão do sistema de rega em Alqueva, o impacte resultante do novo modelo agrícola na biodiversidade continua a suscitar reservas, sobretudo nos ambientalistas. Gonçalo Ribeiro Teles comparou em 2008 a emergência do olival intensivo e superintensivo no Alentejo a “uma espécie de eucaliptal de azeitona” que deixa os campos contaminados.

Confrontado pelo PÚBLICO com esta afirmação, o presidente da EDIA reconhece que existe a “ideia generalizada” que o olival superintensivo esgota os solos, mas garante que “não existe sustentabilidade científica” para uma tal suspeição, frisando que os estudos já efectuados revelam que os efeitos desta cultura intensiva “não afectam a biodiversidade”, assume Pedro Salema, frisando que as aves abundam e até foi possível recuperar uma planta incluída na Directiva Habitat com a categoria de prioritária, por ser uma espécie em risco: a Linaria ricardoi .

O dirigente da Quercus, José Paulo Martins não comunga do optimismo expresso pelo presidente da EDIA. Recorda que os núcleos onde se identificou a  "Linaria ricardoi"  muitos deles “desapareceram porque os agricultores lavraram a terra ou instalaram olival novo”.

A conclusão do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas publicada no seu site, também vai nesse sentido: “A intensificação da actividade agrícola parece constituir o factor mais relevante de decréscimo populacional da Linaria ricardoi” assim como a “passagem de culturas de sequeiro a regadio”.

A realidade nova agrícola que veio substituir o sequeiro numa área com 120 mil hectares coloca novos desafios aos agricultores com explorações no território abrangido. Para divulgar as boas experiências em regadio, a EDIA, em parceria com o Green Project Awards, acaba de instituir o “Prémio de reconhecimento de boas práticas agrícolas” destinado a projectos que promovam o desenvolvimento sustentável na região de Alqueva.

Pedro Salema explicou que a atribuição deste prémio de 2.500 euros, terá periodicidade anual  e pretende ao mesmo tempo, “alertar e consciencializar a sociedade civil para a importância do equilíbrio ambiental, económico e social” sublinha Pedro Salema, frisando que em Alqueva não se cultiva apenas o olival. Outras culturas como o milho, a vinha, a cebola, a batata e outras hortícolas e ainda a papoila para a produção de ópio medicinal já cobrem cerca de 80% dos 68.000 hectares de regadio instalados até ao momento.

Sugerir correcção