Entrevista

“Hoje apenas podemos dizer que Deus é possível”

Anselmo Borges antecipa que a Igreja católica vai abrir-se ao fim do celibato, ao sexo antes do casamento e ao recurso a métodos anticoncepcionais artificiais. E diz que a Ciência continua a deixar espaço à ideia de Deus enquanto pergunta.

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Anselmo Borges ADRIANO MIRANDA (Arquivo)

Depois dos lançamentos no Porto e em Coimbra, o teólogo Anselmo Borges lança hoje em Lisboa o livro “Deus ainda tem futuro?”, que reúne as intervenções do colóquio internacional “Igreja em Diálogo”, realizado em Valadares (Gaia), em Outubro de 2013. No livro, prefaciado pelo ensaísta Eduardo Lourenço, teólogos mas também cientistas de vários ramos (porque “a religião é um assunto demasiado sério para ser deixado apenas aos crentes”), discorrem sobre as representações de Deus e o lugar da religião no mundo contemporâneo.

Numa entrevista, a propósito do livro que coordenou, faz uma pergunta ainda mais provocatória: “E se tivéssemos sido ensinados a rezar “Mãe Nossa que estais no Céu?”. Não resisto a endossar-lhe a pergunta: “E se Deus fosse Mãe?”.
É engraçado porque o próximo debate que vamos fazer é sobre isso “E Se Deus fosse Mãe?”. Vamos convidar a escritora Lídia Jorge, [a ex-ministra da Saúde] Maria de Belém e talvez o padre Carreira das Neves. Este livro, aliás, já tem um texto de Isabel Gómez-Acebo sobre o rosto feminino de Deus. E Deus está efectivamente para lá da determinação sexual. Quando dizemos que Deus é pai usamos uma metáfora, por isso também podíamos usar a metáfora mãe, Aliás, na Bíblia, aparecem traços femininos de Deus. Se realmente fossemos habituados a usar “Mãe Nossa que estais no Céu”, isso teria certamente influência no nosso modo de lermos a realidade social, teria influência na nossa maneira de fazer política, de encarar a economia…Deus está para lá de todas as determinações que possamos dizer, portanto tudo o que dizemos de Deus temos de dizê-lo e a seguir negar, porque Deus é um mistério, pura e simplesmente, está sempre para lá de tudo o que possamos dizer e pensar.

Como é que isto se interliga com a tese, divulgada há semanas e que deu azo a um livro com suposta base científica, que defende que Jesus foi, afinal, casado com Maria Madalena com quem terá tido dois filhos?
Os melhores exegetas, os melhores historiadores, pensam que Jesus não foi casado. Não há dúvida nenhuma que Jesus teve uma predileção especial por Maria Madalena, mas tudo indica que não foi casado. Mas suponhamos que foi. E dai? Não mudava nada. Se Jesus tivesse sido casado, não era por isso que deixaria de ocupar um lugar central na mensagem cristã.

Isso não retiraria sustentação ao celibato obrigatório dos padres?
Independentemente de Jesus ter sido casado ou não – e tudo indica que não – o celibato tem que ver com o quê? Para já, Jesus não obrigou ao celibato. S. Pedro era casado, pelo menos tinha sogra. Ao longo do I milénio da Igreja houve papas casados. O celibato é uma lei que se torna obrigatória no Ocidente apenas no século XII, no quadro de uma sociedade patriarcal, de um poder patriarcal. E porquê? A partir do momento em que a eucarística foi interpretada como sacrifício, exigiu-se a pureza ritual, o mal-estar contra o sexo. Ao princípio, os padres não podiam ter relações sexuais na véspera de celebrarem a missa; quando a missa se tornou quotidiana, veio o celibato. Digo sempre que o celibato devia ser, não objecto de lei, mas uma opção livre.

Atendendo ao que se passou no último sínodo dedicado à família, acha que o Papa conseguirá levar avante alguma renovação na Igreja? Era capaz de arriscar o conteúdo da exortação pós-sinodal do próximo ano?
É adquirido que vai continuar a afirmar um ideal de família católico, com a união estável por toda a vida entre um homem e uma mulher, aberta à procriação. Repare que nos documentos da Igreja se diz matrimónio e não casamento. Casamento vem de casa e matrimónio vem do latim mater matris, que significa mãe. Portanto, na perspectiva católica, o casamento tem sempre de estar aberto à procriação. Mas vai haver necessariamente abertura à comunhão por parte dos católicos divorciados que voltaram a casar. Isso é adquirido. Como me parece adquirida a abertura aos métodos anticonceptivos artificiais. E como me parece adquirido que não vai haver discriminação em relação às crianças, mesmo que tenham nascido por procriação medicamente assistida ou vivam no seio de um casal homossexual. Em relação à homossexualidade, vai haver outra compreensão.

Isto apesar de, no sínodo, ter sido maioritária a voz dos que assumiram uma postura mais conservadora relativamente a estes temas?
Não é verdade. Mesmo em relação aos casos mais problemáticos, como o acesso à comunhão por parte dos católicos divorciados que voltaram a casar, houve maioria, o que não houve foi uma maioria de dois terços [necessária para que a posição destes preponderasse no relatório final]. E em relação aos homossexuais, a maioria pronunciou-se a favor de um acolhimento e da não discriminação. Nesse sentido, vai haver outra abertura. Também vai haver outra atitude em relação às relações sexuais pré-matrimoniais.

Crê que estas mudanças poderão ajudar, se não a inverter, pelo menos a travar o crescimento do ateísmo?
O Papa, antes de se interessar pela doutrina, tem-se interessado pela humanidade, pela alegria dos homens e das mulheres. Isso torna a Igreja mais humana, que é aquilo que ela tem de ser em primeiro lugar. Antes de sermos crentes, cristãos, católicos, budistas ou ortodoxos, somos todos seres humanos e temos de ajudar-nos a tornarmo-nos mais humanos e facilitarmos a vida uns aos outros, há sofrimento suficiente no mundo para nos unirmos, por exemplo, no combate ao sofrimento. E é isso que o Papa tem feito. Neste momento, olha-se para o Papa, não já como aquela figura sacral, mas como um homem bom que se interessa pela humanidade. E essa é que tem sido, em primeiro lugar, a revolução do Papa Francisco.

Neste contexto de crise - financeira, social, económica, política moral -, a ideia de Deus também entrou em crise?
Isso para mim é claro. Há uma crise moral e religiosa e de Deus. É uma crise da humanidade. O título do livro é provocatório porque, se Deus não existir, a pergunta não tem sentido e, se Deus existir, também não tem sentido, porque Deus é pelo seu próprio conceito presença eterna. O título é uma provocação, e pergunta que no fundo lá está é “No futuro ainda haverá homens e mulheres que acreditam em Deus?”

A Ciência ainda deixa espaço para a existência de Deus?
Deus existirá sempre como pergunta. Porque os homens e as mulheres perguntarão sempre qual é o fundamento último da realidade e, nesse sentido, estarão sempre a perguntar por Deus, pelo infinito. Portanto, Deus estará sempre presente na humanidade enquanto pergunta, independentemente da resposta que os homens e as mulheres darão a essa pergunta. Hoje, quando se olha para a situação do mundo, nomeadamente a partir da Ciência, e quando fazemos estas perguntas radicais, evidentemente que é possível dar uma resposta dizendo que o mundo se auto-explica. Mas também é possível pensar que o fundamento último do mundo e o sentido último do mundo é Deus, é uma inteligência pessoal, criadora, da qual os homens e as mulheres podem esperar salvação. A mudança foi essa. Tradicionalmente, Deus parecia patente. Hoje, apenas podemos dizer que Deus é possível.

Subscreve a tese de que estamos a caminhar para uma sociedade pós-secular?
Este livro abre com um texto daquele que é talvez o maior sociólogo das religiões – Jean-Paul Willaime – que diz que Deus ainda não disse a última palavra. Ele partilha da ideia de que estamos numa sociedade pós-secular, no sentido de que volta a pergunta religiosa. E porquê? Porque realmente a religião que se opôs aos direitos humanos, que se opôs à democracia, neste momento é defensora da democracia, mesmo quando ela está em perigo. Isto aconteceu na Polónia e noutros lugares. Por outro lado, pensou-se que o comunismo traria a salvação, afinal não trouxe. Que o progresso traria a salvação, não trouxe. Pensou-se que a salvação viria a partir da secularização do próprio mundo e viu-se que, afinal, a salvação não vem nem da Ciência nem da técnica nem do progresso nem do comunismo. Por isso mesmo, estamos numa sociedade hoje pós-secular, em que a religião volta outra vez a ser espaço pelo menos de pergunta, de interrogação. Já não é, ao contrário do que se pensou, uma realidade superada, definitivamente.