Opinião

As 50 sombras de Fernandes

O preocupante está aqui, neste apego ao fantasma do homem autoritário, que num impulso semifetichista muitos adoraram ver mandar com voz grossa, ainda que para isso fosse preciso fechar os olhos ao mais elementar bom senso e às regras básicas do escrutínio público.

No DN de sexta-feira, Ferreira Fernandes chamou-me “pedaço de asno”, a propósito da minha última crónica sobre José Sócrates.

Como observou – e bem – um amigo meu, isso não é necessariamente um insulto: dependendo do pedaço do asno de que estamos a falar, pode até ser lisonjeiro. Mas, a bem da tese que hoje aqui me traz, admitamos que não se trata de um elogio – nesse caso, o “pedaço de asno” de Ferreira Fernandes encaixa num padrão comum a José Sócrates e aos seus mais íntimos admiradores, que sempre reagiram de forma totalmente desbragada às acusações que lhe eram feitas. O “pedaço de asno” de Ferreira Fernandes é da mesma escola dos ataques de cólera do primeiro-ministro, do tom utilizado pelos blogues corporativos ou da entrevista pejada de turpilóquios que Sócrates ofereceu a Clara Ferreira Alves. É um reflexo cristalino do “animal feroz”.

Convém fazer justiça a Ferreira Fernandes: embora o DN viva agora mais próximo de Luanda, ele não estará a treinar para editorialista do Jornal de Angola, nem andará à procura de retirar vantagens da sua fidelidade ao preso 44. O “pedaço de asno” é um grito vindo do fundo da alma. Dir-se-á: depois de tantos anos a apostar no cavalo errado, não admira que só pense em burros. Mas não é isso. É uma outra coisa, a meu ver mais preocupante: é um efectivo deslumbramento por quem exerce o poder de forma decidida e por quem demonstra uma resistência inquebrantável diante das adversidades.

Ferreira Fernandes em 2009: “Sobre os factos [do caso Freeport] não sei nada, só posso ser testemunha abonatória de José Sócrates: ele é o melhor primeiro-ministro que já tive.” Há uma vasta fatia do eleitorado para quem Sócrates foi, efectivamente, a encarnação do líder perfeito: o homem que falava com as preocupações da esquerda e exercia o poder com a determinação da direita. Citemos Ferreira Fernandes outra vez, agora já este ano, numa crónica sobre liderança: “A tragédia é a falta de líderes. Podia ser a divisa de Portugal.”

Podia – excepto durante o consulado de José Sócrates. Aí, havia um macho alfa a dominar o seu território político, com uma determinação nunca antes vista – e muitos homens e muitas mulheres perderam a cabeça nas suas 50 sombras. Contentaram-se com explicações dúbias, pactuaram com mentiras, ignoraram os indícios gritantes que se acumulavam à sua volta. O preocupante está aqui, neste apego ao fantasma do homem autoritário, que num impulso semifetichista muitos adoraram ver mandar com voz grossa, ainda que para isso fosse preciso fechar os olhos ao mais elementar bom senso e às regras básicas do escrutínio público.

Claro que Ferreira Fernandes não justifica a sua defesa de Sócrates com o fascínio que as mariposas sentem pela luz. O que ele advoga é o supremo respeito pela presunção da inocência, já que “835 suspeitas não fazem, necessariamente, uma culpa”. Não, não fazem. Mas 835 suspeitas fazem, pelo menos, 83 cabalas e meia – onde estão elas? Pior: quando nessas 835 suspeitas há oitocentas que o suspeito explica muito mal, acreditar nele passa a ser coisa do domínio da fé, género de devoção em que Ferreira Fernandes superou largamente os pastorinhos de Fátima. Fascinado pela imagem do líder viril, inquebrantável e intempestivo, os seus infindáveis textos em defesa de José Sócrates foram extraordinários exemplos da arte de não ver um palmo à frente do nariz. Ferreira Fernandes andou sete anos de palas nos olhos – e o asno sou eu?