Oito horas à espera das sirenes das 16h45

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Enric Vives-Rubio

A cada movimento no edifício do Tribunal Central de Instrução Criminal no Campus da Justiça todos os sentidos ficam alerta. Uma porta que se abre, um polícia que chega. Tudo serve de pista para antecipar o momento aguardado: a chegada de José Sócrates para ser ouvido pelo juiz Carlos Alexandre. Num dia pontuado por chuva e por informação a conta-gotas, o PÚBLICO esperou desde as 9h00 pelas sirenes das 16h45 que anunciaram a chegada do ex-primeiro-ministro.

10h00 – Além dos jornalistas e do reforço policial, pouco mais movimento existe no Campus da Justiça e ninguém confirma que arguidos já chegaram e quem está a ser ouvido. Sabe-se apenas que o juiz Carlos Alexandre trabalhou desde madrugada e que a advogada Paula Lourenço, que participou em casos relacionados com o Freeport e a JP Sá Couto, entrou sem dizer quem representa. Entra um outro homem, aparentando mais de 60 anos. Diz-se “advogado estagiário” em jeito de brincadeira.

11h10 – O suposto advogado estagiário sai do edifício e avança que se chama João Araújo e que “eventualmente” representará José Sócrates, dizendo primeiro que foi chamado pela família e, depois, pelo “próprio engenheiro”. Representou a mãe de Sócrates num processo passado. Mais tarde regressa com um saco de jornais, diz ter por hábito ler no Campus da Justiça, mas sai pouco depois, deixando dúvidas sobre se de facto representa o arguido.

12h30 – Ainda não há certezas sobre se José Sócrates está no Campus da Justiça. Os outros três arguidos foram avistados durante a manhã a chegar em carros descaracterizados. Entrou também uma carrinha celular da PSP, mas esse meio de transporte não é o habitual em casos em que ainda não há prisão preventiva ou efectiva.

14h00 – Um novo comunicado da Procuradoria-Geral da República dá algumas respostas à escassez de informação vivida à porta do tribunal. A nota adianta a identidade dos outros três arguidos detidos no âmbito deste inquérito, o empresário Carlos Santos Silva, o advogado Gonçalo Trindade Ferreira e o motorista João Perna. Fica-se também a saber que o caso foi desencadeado na sequência de uma “comunicação bancária” feita pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal.

16h45 – Depois de vários alertas infundados, os primeiros sons de sirenes geram um compasso de espera e incredulidade. Aproximam-se luzes azuis da polícia. A velocidade faz com que câmaras, máquinas fotográficas e blocos de notas voem com os jornalistas pelo caminho empedrado ou pelo atalho de relva molhada, em direcção à rua que marca o momento do dia. É José Sócrates que chega ao tribunal, numa viatura descaracterizada que saira de sua casa pouco antes. E com um alerta sonoro que contraria a expectativa de que não iria dar nas vistas.

16h50 – Um grupo de cerca de 20 elementos do Partido Nacional Renovador (PNR) que aguardava junto a uma das garagens do tribunal de bandeiras em punho, abre uma garrafa de champanhe e em clima de festa assinala a entrada do ex-primeiro-ministro neste tribunal.

17h00 – João Araújo, que tinha passado a tarde longe do Campus da Justiça, a acompanhar as buscas em casa de José Sócrates regressa ao tribunal. Continua evasivo sobre se vai liderar a representação do ex-primeiro-ministro neste novo caso. Questionado pelo PÚBLICO sobre se vem acompanhar o seu cliente e se é o único advogado no caso, limitou-se a repetir “venho sozinho”.

17h10 – Pessoas que vivem nas imediações do Campus da Justiça ou que vieram passear para a Expo aproximam-se da rua do Tribunal Central de Instrução Criminal para tentar perceber junto dos jornalistas o ponto de situação das investigações e se Sócrates está ou não a ser ouvido. Há quem finja passear o cão, mas que se demore mais tempo do que o costume e que mantenha os olhos colados ao edifício. Outros assumem a curiosidade. Emanuela Costa é uma delas. Porém, critica a forma “exagerada como foram deter à porta do avião” o ex-primeiro-ministro e considera que o “aparato” criado “não dignifica o país”. “Fiquei muito surpreendida e, caso a acusação venha a verificar-se, então temos muitos Sócrates no nosso país”, defende.

17h30 – As luzes acesas no lado esquerdo do rés-do-chão do edifício esperado lançam um novo alerta. O tribunal é todo espelhado e, por dentro, tem umas persianas que tornam praticamente impossível que os olhos penetrem o interior. Mas as pequenas brechas entre os estores deixam perceber que nessa zona, sentado numa cadeira, está José Sócrates, de costas, acompanhado pelo advogado. Em cima de uma mesa consultam o processo e conversam antes de o arguido ser finalmente presente a Carlos Alexandre.

17h40 – Jornalistas e fotógrafos amontoam-se e agacham-se junto a uma janela do tribunal, o que alerta as forças policiais para o que pode estar a ser avistado. De imediato uma das funcionárias do tribunal, também vislumbrada por brechas, assegura-se que tanto Sócrates como João Araújo mudam de local e, pouco depois, as luzes apagam-se.

17h52 – João Araújo volta a sair do edifício para uma pausa para um cigarro que acaba por não durar nem um minuto. Cercado por flashes e câmaras o advogado circulou entre os dois cinzeiros, repetiu várias vezes “deixem-me em paz” e não prestou mais nenhuma declaração.

18h10 – Os curiosos já não passam apenas pelo Campus da Justiça. Vieram para ficar, com máquinas e telemóveis para registar o momento em que pela primeira vez um ex-primeiro-ministro foi detido. A máquina de José Camilo disputa o espaço com a dos fotojornalistas. “Quis vir ter a certeza de que isto está mesmo a acontecer. Infelizmente somos comandados por vigaristas e estava à espera deste momento. Como acreditar em alguém que diz que a dívida não se paga, negoceia-se? Como acreditar em alguém que não cumpre os seus compromissos?”, questiona Camilo, que conclui que “quem faz política não é honesto e quem é honesto não faz política”.

19h30 – A equipa de segurança, destacada de forma extraordinária para este sábado, está pedida até à meia-noite e já foi emitida uma nova ordem para domingo, pelo que se percebe que os trabalhos não vão mesmo terminar no sábado.

21h00 – Chegam algumas refeições ao Campus da Justiça que indicam que os trabalhos tiveram direito a uma pausa.

21h20 – João Araújo sai pela última vez neste sábado e repete: “Não posso esclarecer coisa nenhuma do que se passa lá dentro”. Invoca a “arte” e o “respeito ao segredo de justiça e ao tribunal”. “Vou para sopas e descanso”, explicou aos jornalistas, acrescentando que “tem problemas sérios e complicados” e que no domingo eventualmente fará uma declaração.

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