Um documentário que mostra como “qualquer um pode ir parar à rua”

2 Metros Quadrados, da autoria de Ana Luísa Oliveira e Rui Oliveira, recusa estereótipos e gerou discussão na antestreia, no Porto. Há imagens que chocam mas também momentos de humor.

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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira
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“Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira Rui Oliveira

Daniel Horta Nova, de 54 anos foi jornalista em publicações como A Capital e Tempo, até que, “burlado por um sócio”, perdeu a “estrutura mental” e acabou na rua, onde viveu durante quatro anos. Moisés Ferreira, de 53 anos, habita uma casa abandonada há quatro anos e procura um quarto para refazer o seu projecto de vida e regressar aos tempos em que foi DJ numa rádio. Estas são duas das histórias de 2 Metros Quadrados, um documentário realizado pelos jornalistas Ana Luísa Oliveira e Rui Oliveira nas ruas do Porto, e que recusa a ideia dos sem-abrigo como “coitadinhos”, “toxicodependentes” ou “preguiçosos”.

“Comecei a colaborar com uma associação e a fazer rondas. Vi que, em grande parte, eram pessoas que tinham cultura geral acima da média, cuja experiência de consumo era consequência de terem caído na rua e não a sua origem. Percebi que muita gente vivia debaixo de tecto mas vinha comer à rua e que isso quer dizer que algo está mal. A nossa ideia é mostrar que a fronteira que nos separa de um sem-abrigo é muito ténue. Qualquer um pode ir parar à rua, se se vir no desemprego e sem suporte familiar”, conta Ana Luísa Oliveira, que falou ao PÚBLICO no final da ante-estreia do filme, na quinta-feira. A sessão encheu o auditório do Instituto Português de Fotografia, no Porto, a casa onde o fotojornalista Rui Oliveira desenvolveu a sua paixão pelas imagens.

Ao longo de quase uma hora, a plateia foi submersa no mundo das rondas e das carrinhas que oferecem comida nas ruas da cidade, todas as noites. Conheceu o Daniel e o Moisés, mas também o Alves e a agente Elisabete Almeida, da PSP de Gaia, cuja relação com os sem-abrigo é feita de afectos e não de repreensões. Percebeu como o aluguer de quartos em pensões se tornou num negócio que gira em torno de pessoas que sobrevivem com 178 euros de Rendimento Social de Inserção e umas quantas artimanhas. E comoveu-se com a imagem de uma criança, que não deveria ultrapassar os dez anos, a sorver uma malga de sopa nos degraus da Torre das Antas.

É possível ser feliz na rua?
Depois da exibição do documentário, a conversa na sala prolongou-se por mais de uma hora e meia, com polémica à mistura. Deveria o filme ser visto como um retrato imparcial de uma realidade – a tese defendida pelos autores, que incluíram testemunhos de vários profissionais e voluntários que lidam com o fenómeno – ou tomar um partido, uma militância? A estratégia nacional de integração de pessoas sem-abrigo é boa, pelo menos no papel? A realidade apresentada no filme é mais simpática do que a realidade?

Daniel Horta Nova – que deu o nome ao documentário, quando se referiu aos “dois metros quadrados de chão” em que dormiu meses a fio – pensa que há um submundo ainda mais sombrio: “O filme tem perfume a mais para aquilo que é a realidade, mas também tem muito mérito, porque, por muito mal que um sem-abrigo possa viver, não podemos fazer dele um coitadinho. São gente e ainda querem ser gente”.

Se há imagens que chocam, também há momentos de humor, em que a plateia pôde descontrair. Moisés Oliveira, com tiradas como “a tesoura de Passos Coelho não tem preguiça” e uma ironia e sentido de humor desarmantes, foi o primeiro protagonista desses instantes. “Houve momentos em que chorei e pedi ao Rui para não os pôr no filme, mas ao fim e ao cabo tento ser feliz, mesmo na pobreza em que vivo”, confessou ao PÚBLICO. O angolano – que veio trabalhar para Portugal há 14 anos e que não tem vontade de regressar ao país-natal – não se recusou a dar a cara e esteve presente na primeira exibição pública do filme, mas os autores encontraram muitas portas fechadas. “Tivemos de fazer um grande trabalho de campo prévio. Uma associação indicou-me o Daniel e foi a partir dele que começámos a puxar pelo fio do submundo da rua”, recorda Rui Oliveira.

O caso do ex-jornalista é um dos exemplos de reabilitação apresentados, tal como o de J., um engenheiro civil que releva ter chegado a ganhar 4.000 euros por mês. Aliás, o regresso a uma vida normal não é fácil: Daniel Horta Nova revelou que, quando voltou a ter quatro paredes, chegou a procurar a rua para dormir porque não o conseguia fazer em casa. “Se tivesse sido ajudado logo, por um psicólogo, tinha passado quatro dias na rua e não quatro anos. No entanto, o sem-abrigo fascinou-me, não vou esquecer a pessoa que me recebeu na primeira noite, com o conceito de verdadeira amizade. Não me faltou nada. Percebi que não eram bichos, eram humanos”.

Quer Daniel quer Moisés encorajaram os autores de 2 Metros Quadrados a rodar um novo capítulo, talvez “mais agressivo socialmente”. Mas, para já, a Ana e o Rui apenas querem levar este projecto realizado a custo zero – e que engloba ainda uma reportagem multimédia e uma exposição de fotografia – ao maior número de pessoas possível, incluindo festivais de cinema.