Revelados vários “calcanhares de Aquiles” do vírus do ébola

Novo estudo mostra como um “cocktail” experimental de anticorpos anti-ébola ataca o vírus, dando pistas para aperfeiçoar este medicamento, em vias de desenvolvimento.

Imagem 3D que mostra os locais onde os três anticorpos do ZMapp (a cores) se ligam à proteína viral GP (a branco)
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Imagem 3D que mostra os locais onde os três anticorpos do ZMapp (a cores) se ligam à proteína viral GP (a branco) Cortesia do laboratório de Andrew Ward/Instituto Scripps

Cientistas nos EUA e Canadá conseguiram mapear os componentes do vírus de ébola que constituem os alvos de um medicamento experimental promissor, chamado ZMapp, cujos ensaios clínicos deverão começar já no início de 2015. Os seus resultados foram publicados online, na segunda-feira, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

ZMapp é um “cocktail” de anticorpos (moléculas do sistema imunitário) que está a ser actualmente desenvolvido pela empresa californiana Mapp Biopharmaceutical. Foi utilizado, em Agosto, para tratar sete pessoas infectadas com ébola – cinco das quais sobreviveram. Porém, não é possível afirmar ainda que a melhoria desses doentes tenha sido devida ao medicamento, em particular porque até aqui, o seu modo de acção não era claro.

O vírus do ébola possui, à sua superfície, uma proteína chamada GP, que se pensa estar na base da eficácia do ZMapp. E Andrew Ward, Erica Ollmann Saphire e colegas do Instituto de Investigação Scripps (EUA) e da Universidade de Manitoba (Canadá) confirmaram agora esta hipótese, fornecendo assim uma explicação possível para a eficácia do medicamento – e dando pistas para a concepção de medicamentos preventivos ou terapêuticos contra o vírus.

Os cientistas utilizaram a técnica dita de microscopia electrónica de partículas isoladas para visualizar precisamente como é que os três anticorpos contidos no ZMapp se ligam à proteína GP, cujas moléculas se encontram "espetadas", à maneira de antenas, no invólucro viral. E descobriram então que dois desses anticorpos se ligam à base das moléculas de GP e o terceiro à parte superior da mesma proteína.

Os dois anticorpos que se ligam à base, explica em comunicado o Instituto Scripps, parecem impedir a entrada do vírus do ébola nas células do hospedeiro, enquanto que o anticorpo que se liga ao topo da molécula viral age como um sinal que atrai para o local as células do sistema imunitário encarregadas de matar os microrganismos invasores.

“Agora que já sabemos como o ZMapp ataca o ébola, podemos comparar todos os novos anticorpos contra o vírus que forem sendo descobertos para obter um cocktail imunoterapêutico ainda melhor”, diz Ward, citado no mesmo comunicado.

A equipa descobriu ainda que os locais onde dois dos anticorpos do ZMapp se ligam à base da proteína GP estão por assim dizer encavalitados. Daí que coloquem a questão de saber se futuras variantes do ZMapp devem continuar a utilizar estes dois anticorpos em conjunto – ou se deveriam, pelo contrário, incluir apenas um deles e integrar algum outro anticorpo que permita um “terceiro ângulo” de ataque ao vírus.

“Esta informação ajuda a orientar as decisões sobre como formular estas terapias”, diz por seu lado Charles Murin, primeiro autor do estudo. “Em vez de incluir dois anticorpos diferentes que fazem a mesma coisa, por que não duplicar a quantidade do mais eficaz dos dois? Ou ainda, incluir um terceiro anticorpo, dirigido contra um local diferente, para travar o vírus de três maneiras diferentes em vez de duas?”

O “calcanhares de Aquiles” do vírus do ébola agora localizados apresentam ainda outro aspecto promissor. Acontece que resultados publicados em Agosto na revista Science mostravam que o vírus já terá sofrido mais de 300 alterações genéticas desde o início da actual epidemia de ébola em África Ocidental. No entanto, os novos resultados indicam que, até aqui, os locais onde os anticorpos do ZMapp se ligam ao vírus não foram afectados.

“As estirpes do vírus do ébola que circulam actualmente na Guiné-Conacri e na Serra Leoa apresentam múltiplas mutações que as distinguem das estirpes anteriores do vírus. Porém, nenhuma dessas mutações adicionais cai directamente dentro do [local de ligação] dos anticorpos do ZMapp”, escrevem os cientistas na PNAS.

E acrescentam: "O ZMapp é capaz de neutralizar tanto estirpes virulentas anteriores do ébola (…) como as actuais estirpes, o que sugere que será provavelmente eficaz contra as estirpes em circulação na epidemia em curso em 2014”.

O estudo foi feito no âmbito de uma colaboração científica financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA:  o Consórcio Imunoterapêutico da Febre Hemorrágica Viral, que está neste momento a testar anticorpos vindos de 25 laboratórios de todo o mundo. O objectivo é justamente encontrar o melhor cocktail de anticorpos para neutralizar o vírus do ébola e outros vírus que provocam doenças semelhantes.

A próxima etapa, explica ainda o comunicado, deverá consistir em estudar anticorpos vindos de pessoas que sobreviveram ao ébola nos últimos meses – e ainda, segundo Saphire, desenvolver cocktails alternativos para o caso de o vírus se vir a tornar resistente ao ZMapp.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 11 de Novembro o número total de casos confirmados, prováveis ou suspeitos de ébola era de 14.413 "nos seis países actualmente afectados (Guiné-Conacri, Libéria, Mali, Serra Leoa, Espanha e EUA) e nos dois países anteriormente afectados (Nigéria e Senegal)”. O número de mortes reportado era de 5177.