Opinião

Uma pessoa, um nome: Sócrates

Embora eu considere José Sócrates a pior coisa que aconteceu a este país desde o PREC, nunca levei a sério a ideia da “assombração socrática”, e muito menos a tese tonta de que António Costa estaria a preparar a segunda encarnação do socratismo.

Se Sócrates ainda valesse alguma coisa em termos eleitorais, ele não teria sido posto de lado durante a campanha das primárias. Ora, ninguém o viu a desfilar pelas ruas, nem a discursar nos palanques, junto àquele povo socialista que alegadamente lhe quer tão bem. Aliás, ninguém sequer viu a sua sombra no Fórum Lisboa na noite da vitória, apesar das suas declarações de amor semanais a António Costa na RTP. Terá sido por acaso?

Não, não foi por acaso. José Sócrates rouba votos, e qualquer socialista com dois dedos de testa sabe isso. António Costa sabe isso. Augusto Santos Silva sabe isso. Pedro Silva Pereira sabe isso. Até João Galamba sabe isso. O único que parece não saber isso é mesmo Eduardo Ferro Rodrigues, que aparentemente esteve fechado numa cave durante dez anos, surgindo na passada sexta-feira na Assembleia da República a elogiar “uma pessoa, um nome: José Sócrates”. A frase, ainda por cima, foi proferida em tom empolgado e a transbordar de orgulho pelo trabalho desse grande combatente anti-troika, o que deu logo origem a urros de indignação entre os partidos do governo, a acalorados aplausos na bancada socratico-socialista, e – imagino eu – a suores frios na testa de António Costa.

Costa, aliás, já havia feito na véspera algumas curiosas afirmações na Quadratura do Círculo, ao ser confrontado com a postura morna e indecisa do PS no debate sobre o orçamento. Sem desmentir a inexistência de uma linha clara em relação ao futuro das finanças públicas, António Costa afirmou que o PS ainda estava “a arrumar a casa”, e que o debate sobre o orçamento tinha chegado numa altura complicada – tão complicada que deve ter-se esquecido de passar os olhos pelo discurso de Ferro Rodrigues e explicar calmamente ao seu novo líder parlamentar que sobre o senhor José o PS diz sempre que respeita o seu legado, mas nunca – nunca mesmo – toma a iniciativa de o nomear.

A razão é simples: os socialistas até podem gostar muito da ferocidade e energia do ex-engenheiro técnico, mas gostam muito mais do poder – e hoje em dia, para chegar ao poder, ele atrapalha, e muito. Incapaz de se manter longe da ribalta, de não ripostar aos que o atacam e mortinho por tentar impor a sua narrativa do resgate, Sócrates aceitou uma cadeira de comentador semanal que tem feito maravilhas pela sua impopularidade. Em vez de optar pela travessia do deserto, permitindo que aos poucos a memória dos portugueses se esbatesse, Sócrates preferiu recordar semanalmente a sua existência, fazendo o patriótico favor de nos dizer o que sente e o que pensa, para que nunca mais possa vir a ser eleito.

É evidente que os socialistas mais astutos já perceberam isso, e que a chamada “tralha socrática” estará em breve a servir António Costa com a mesma devoção com que serviu José Sócrates. Agora, parece-me bastante claro que para chegar lá, e sobretudo para chegar lá com algo que se assemelhe a uma maioria absoluta, convinha avisar Ferro Rodrigues e os deputados mais destrambelhados que tecer loas a Sócrates em voz alta é meio caminho andado para que a direita moderada fuja dos socialistas como o diabo da cruz. O PS tem de escolher: ou quer recuperar José Sócrates ou quer recuperar o país. Os dois juntos, não dá.