Libélulas estão em viagem para o Norte à boleia do bom tempo

Quem vive no litoral já as terá visto passar. Vão em busca dos charcos onde irão pôr os ovos, à espera da chuva que há-de garantir a sobrevivência da espécie.

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Muitas libélulas voam em tandem, macho e fêmea, até à postura dos ovos Albano Soares/DR

Quem vive no litoral já as terá visto passar. “O movimento migratório é mais visível no corredor marítimo porque ali há menos obstáculos e as temperaturas são mais constantes”, explica Albano Soares, entomologista e especialista em libélulas. O investigador acredita que estejam a deslocar-se "milhões" de indivíduos, sobretudo da espécie Sympetrum fonscolombii, o que torna o fenómeno mais visível para o cidadão comum, mas não há nada de anormal nesta enorme digressão.

Nos últimos dias tem sido fácil encontrá-las na região de Lisboa - na capital, junto ao Tejo, são às centenas - mas muitas já chegaram ao Norte. “Foram vistas em grandes quantidades nos charcos de Santarém, há três semanas, mas tenho um colega que também já as viu no Mindelo [Vila do Conde]”, diz Albano Soares. Depois de um Verão atípico, terão começado a viagem mal o tempo começou a melhorar, já que estes insectos não voam à chuva.

É comum ver algumas libélulas a voarem aos pares, em tandem. “É uma posição pós-cópula”, explica o entomologista. Esta é a forma que os machos têm de “segurar” a fêmea desde a fecundação até à postura, para assim garantir a prole.

Indicador ecológico
A viagem das libélulas deve terminar em meados de Novembro. “As migrações fazem parte de uma estratégia de sobrevivência para tentar ocupar os corpos de água quando há menos concorrência”, diz Albano Soares. Quando se acabar este Verão de São Martinho, a chuva irá alimentar os charcos onde as fêmeas põem os ovos, que têm assim mais hipóteses de se desenvolverem e completarem o ciclo, o que acontece no prazo de meio ano.

Antigamente acreditava-se que as libélulas e libelinhas (a diferença não está necessariamente no tamanho, mas mais na forma das asas) estavam ligadas a figuras diabólicas, devido ao seu aspecto, com mandíbulas implacáveis e grandes asas. Reflexo disso são os nomes comuns atribuídos a estes insectos da ordem Odonata: tira-olhos, cavalinho-das-bruxas, dragões-voadores ou balanças-do-diabo.

A verdade é que as libélulas podem fazer mais pelo Homem do que muitos imaginam. O entomologista Ernestino Maravalhas, co-autor do livro As libélulas de Portugal, o primeiro sobre a espécie, em parceria com Albano Soares, sublinha o papel destes insectos como “agentes de controlo” de pragas de mosquitos e, por inerência, das doenças que estes transportam.

“No Sul do país deveria ser feito um estudo alargado da importância das libélulas enquanto agentes de controlo de doenças como o dengue, e outras”, defende, lamentando que se saiba ainda “muito pouco” sobre o potencial da espécie por falta de estudos e de verbas para os realizar.

Segundo Ernestino Maravalhas, as libélulas dependem da água para completar o ciclo vital e procuram sobretudo águas limpas, o que as torna bons indicadores da qualidade da água. “Há espécies que só vivem em águas muito oxigenadas e limpas”, sublinha, alertando para a importância de monitorizar os insectos e os locais escolhidos para a postura. “Em 10 ou 20 anos podemos ter mais doenças tropicais e as libélulas podem ajudar a controlá-las.”