O contra-ataque ao ébola está a chegar na forma de diversas vacinas

Se os primeiros ensaios em humanos tiverem bons resultados em Dezembro, no início de 2015 as primeiras vacinas poderão ir para África. Para já, o soro do sangue é a opção na luta contra o vírus.

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Vacina experimental criada no Canadá e que foi enviada para a OMS Public Health Agency of Canada/Reuters

Os primeiros ensaios clínicos de duas vacinas contra o vírus do ébola já estão em marcha: uma é da GlaxoSmithKline e a outra da NewLink Genetics, que foi desenvolvida pela Agência de Saúde do Canadá. O vírus, que causa uma febre hemorrágica, já fez 4877 mortos, segundo a actualização desta quarta-feira da Organização Mundial da Saúde (OMS), no maior surto de sempre desta doença identificada pela primeira vez em 1976. A OMS também já disse que fará, pela sua parte, ensaios clínicos na Suíça àquelas duas vacinas. E nesta quarta-feira, a empresa farmacêutica Jonhson & Johnson anunciou que investirá 158 milhões de euros numa terceira vacina contra o ébola e que em Maio de 2015 terá prontas 250 mil doses para iniciar ensaios clínicos.

Esta constelação de esforços das empresas farmacêuticas para encontrar uma solução para o ébola mostra que, pela primeira vez, os países ocidentais estão mesmo preocupados com a doença. Até agora, os surtos eram isolados no coração de África, afectando algumas centenas de pessoas, tendo assim um impacto sanitário pequeno. Por isso, chegou-se a 2014 sem um medicamento ou uma vacina contra esta doença, que chega a atingir os 90% de letalidade na estirpe mais grave.

Mas a epidemia actual, em que já foram infectadas 9936 pessoas, principalmente na Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, e que já tocou países como a Espanha e os Estados Unidos, evidencia que, deixado à sua sorte, o ébola fica fora do controlo e causa pânico.

Na segunda-feira, a Agência Europeia do Medicamento disse estar pronta para dar aos medicamentos e vacinas contra o ébola o estatuto de “medicamentos órfãos”, de forma a encorajar as empresas farmacêuticas a apostar nestes produtos. Este estatuto pode ser atribuído a medicamentos ou vacinas para doenças que afectem, no máximo, cinco em cada 10.000 pessoas na União Europeia, como é o caso do ébola. Este estatuto permite às empresas ter aconselhamento científico gratuito, isenção de taxas e dez anos de exclusividade no mercado.

Nos três países africanos, a necessidade de obter algo que ajude a resolver esta crise é tanta que os Médicos Sem Fronteiras (MSF) já tomaram a iniciativa de participar na realização dos ensaios clínicos para o desenvolvimento de fármacos. “Os MSF não costumam participar nos ensaios clínicos, mas diante deste enorme surto, estamos a tomar medidas excepcionais”, disse Bertrand Draguez, director-médico dos MSF, envolvido na luta contra o surto.

Os MSF são uma das organizações não-governamentais com mais experiência a lidar com o ébola. “Temos acesso a um grande número de doentes e por isso temos destinatários potenciais para os tratamentos experimentais”, disse ainda. Medicamentos experimentais como o ZMapp, famoso por ter sido usado nalgum pessoal de saúde, embora não esteja comprovado a sua eficácia em humanos, terão de passar por estes ensaios.

Em relação à vacinação, a GlaxoSmithKline foi a primeira a iniciar os ensaios clínicos de primeira fase em seres humanos da vacina cAd3-Zebov, que desenvolveu juntamente com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID, sigla em inglês). A vacina já está a ser testada nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Mali.

Já a vacina rVSV-Zebov, desenvolvida pela Agência de Saúde do Canadá, que a NewLink Genetics agora detém, começou a ser testada na semana passada nos Estados Unidos. “É urgente termos uma vacina para nos proteger contra a infecção do ébola”, disse nesta quarta-feira Anthony Fauci, director do NIAID, citado pela agência Reuters, acrescentando que a rVSV-Zebov é “promissora”.

Os primeiros ensaios a estas duas vacinas vão permitir analisar a sua segurança e se produzem realmente uma resposta imunitária.

Quanto aos ensaios da OMS a estas duas vacinas, que se iniciarão em Novembro, vão ter lugar em Genebra e em Lausana, anunciou na terça-feira Marie-Paule Kieny, vice-directora-geral da OMS. “Vamos testar a vacina em pessoas saudáveis entre os 18 e os 65 anos”, disse a médica, citada pela agência AFP. Os ensaios serão em voluntários que não serão pagos para tal, só terão ajudas de custo.

Em Lausana, será testada a vacina da GlaxoSmithKline. “A importância deste ensaio é terá um número suficiente de pessoas para provar a sua segurança e imunogenicidade”, explicou ainda Marie-Paule Kieny, citada pelo jornal espanhol El Mundo.

No site da OMS, a própria Marie-Paule Kieny diz que será voluntária para os ensaios. “Muitos colegas profissionais de saúde perderam a vida ao cuidar daqueles que têm ébola”, escreveu, explicando que deseja ser voluntária “para ajudar a obter vacinas testadas e prontas o mais rapidamente possível”.

Os primeiros resultados dos ensaios a estas duas vacinas deverão chegar no início de Dezembro. E a OMS diz que poderá começar a dá-las já no início do próximo ano.

“Se a produção em massa das vacinas só se iniciar após os resultados da eficácia das vacinas, poderemos ter de esperar durante meses para ter o produto em quantidades suficientes”, alertou por seu lado Bertrand Draquex. “Do ponto de vista dos MSF, esta produção deverá começar ainda antes, para que as pessoas que estão em risco de contrair a doença possam receber e beneficiar da vacina assim que a eficácia e a segurança tenham sido provadas”, acrescentou.

Mas enquanto não há vacinas nem medicamentos disponíveis, a luta diária contra o vírus poderá passar pela utilização de soro do sangue para o tratamento dos doentes, segundo Marie-Paule Kieny. O soro é obtido a partir do sangue de pessoas que sobreviveram à doença e terão desenvolvido anticorpos contra o vírus. Estes anticorpos são fundamentais para lutar contra o vírus e podem ser aproveitados para lutar contra a infecção no corpo de outra pessoa.

Apesar de não se conhecer a verdadeira eficácia deste tratamento, o soro sanguíneo já foi usado diversas vezes em surtos anteriores e até no actual. “Há parcerias que estão a começar a formar-se para permitir aos três países [da África Ocidental] que extraiam de uma forma segura o plasma e o preparem para ser usado no tratamento de outros doentes”, disse Marie Paule Kieny, citada pela BBC News, acrescentando que na Libéria as instalações onde o soro será obtido poderão estar prontas dentro de algumas semanas.

Este método não está isento de riscos, mas a OMS publicou orientações para garantir a sua segurança: o sangue de qualquer dador terá de ser testado para certos agentes patogénicos como as hepatites e o vírus da sida.