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Um caos ligeiramente organizado

Nas Hortas, Fernando Brito capta a apropriação livre e desordenada de território. É um trabalho que mostra como gostamos de nos organizar no caos. E que revela como um projecto de final de curso se transforma numa reflexão visual de corpo inteiro     

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Quando se tem o território como objecto fotográfico, saber onde estão os limites pode ajudar. Fernando Brito (Luanda, 1963) pegou no mapa topográfico n.º 454 do Instituto Geográfico do Exército, fixou um raio de acção até 30 quilómetros à volta da sua casa, na zona de Azeitão, e deu início a um trabalho de “exploração” visual. É uma parcela de espaço que está limitada a sul pela serra da Arrábida e por Setúbal, a norte pelo traçado da A2, a este pelas terras de Palmela e a oeste pelas urbanizações da Quinta do Conde. Dentro deste rectângulo, Brito procurou hortas suburbanas que foram ocupando o espaço de maneira desordenada, construções sem qualquer planeamento, numa tentativa de captar a espontaneidade com que lidamos com territórios que aparentam ser terra de ninguém (na verdade, muitas destas terras têm dono, alguém que normalmente não é quem nelas planta ou quem nelas ergue construções).

Apesar de um ponto de partida cartográfico, que tem a virtude de delimitar e que remete para o detalhe e para a representação fiel do espaço, estas imagens de Fernando Brito convidam à experiência da liberdade, dão relevância ao acto criativo inconsciente e não demonstram grandes preocupações de mapeamento exaustivo. Mais relevante do que a forma como se encaixam visualmente (parece que o fotógrafo só teve de rodar sobre si), estas imagens estabelecem uma familiaridade entre lugares através de uma atitude dos outros para com o espaço, onde impera um caos organizado, traço que caracteriza uma certa maneira de existir, uma relação particular com a ocupação do território nos países da Europa do Sul.

Para lá do confronto entre homem e natureza (ainda que a uma escala reduzida), Fernando Brito persegue o objectivo de captar a paisagem onde se operou um processo de transitoriedade desde o território bravo para uma noção mínima de lugar, onde passaram a existir sinais de apropriação, neste caso meramente utilitária, mas cujas imagens nos abrem portas para outro tipo de leituras (criativa, ecológica, económica, geográfica…).

A série Nas Hortas — terceira parte de um projecto iniciado em 2012, com AUGI#12, e continuado em 2013, com VÁRZEA, ambos também dentro da carta militar n.º 454 — é o resultado final do Curso de Projecto 2013/14 orientado por António Júlio Duarte na escola de fotografia e centro de artes visuais Atelier de Lisboa. Foi um dos trabalhos presentes na exposição Novos Trabalhos #2, na Galeria Avenida da Índia, mostra colectiva que fechou portas mais cedo do que o previsto por causa das últimas chuvadas torrenciais em Lisboa (houve uma inundação na galeria). Totalista dos cursos de Projecto do Atelier (já passou pela orientação de Paulo Catrica e Daniel Malhão), Fernando Brito não poupa elogios a uma instituição que, na sua opinião, deixou de ser “apenas uma escola” para se tornar um espaço de reflexão e crítica sobre fotografia. E isso, diz, para além ser raro em Portugal “é muito difícil de alcançar”. 

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