Crítica

No teatro de espelhos de Alain Resnais

Os dois últimos filmes do autor de Hiroshima Meu Amor estreiam em Portugal, acompanhando uma retrospectiva de uma das obras mais singulares do cinema mundial do último meio século. Onde Resnais está sempre presente sem estar

“Já em vivo estava entre o céu e a terra,” disse o actor André Dussollier aos Cahiers du Cinéma sobre o cineasta com quem rodou por sete vezes. “Nele existia uma vontade de arrancar todas as máscaras para chegar direito ao osso, ver tudo o que existia lá por trás,” segundo Pierre Arditi, outro dos actores da “família” (nove presenças), também aos Cahiers.

Mas talvez a melhor – porque mais vaga – definição seja a da actriz Caroline Silhol ao Ípsilon, em Berlim: “Tem uma forma de génio que penso que mais ninguém pode encarnar. Tem um cérebro completamente à parte, é alguém que não se consegue fechar numa categoria.”

O homem de quem Dussollier, Arditi, Silhol falam? Alain Resnais, falecido em Março, a poucas semanas de completar 92 anos de idade. Era um dos últimos cineastas ainda vivos revelados durante as “trente glorieuses” do pós-II Guerra Mundial, mais companheiro de percurso da Nouvelle Vague de Godard, Truffaut, Chabrol ou das experiências simultâneas de Demy, Varda, Marker, mais do que parte integrante de qualquer movimento. “Um realizador que nunca fez parte de nada, que sempre saíu de todas os esquemas, que atravessou todas as mudanças do cinema francês” – define ao Ípsilon Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, actual adido audiovisual do Institut Français de Portugal e ele próprio actor em dois filmes do cineasta.

Resnais estreou-se na longa-metragem com Hiroshima, Meu Amor (1959), escrito por Marguerite Duras, depois de ter feito com a curta documental Noite e Nevoeiro (1955) um dos statements definitivos do horror do holocausto nazi. Capaz de conciliar à sua volta crítica e público, eterno experimentador de formas e narrações, devem-se-lhe alguns dos filmes seminais do cinema francês da segunda metade do século XX, em registos tão diferentes como O Último Ano em Marienbad (1961), Muriel (1963), A Guerra Acabou (1966), O Meu Tio da América (1980), Fumar/Não Fumar (1993) ou É Sempre a Mesma Cantiga! (1997).

A sua importância para o cinema moderno justifica plenamente a homenagem de que é alvo entre nós este mês. Desde a passada semana e até dia 18, a Cinemateca Portuguesa, em associação com a Festa do Cinema Francês, retraça o seu percurso com uma escolha de cerca de uma dúzia de filmes – retrospectiva que para Sibertin-Blanc se tornou inevitável, “infelizmente”, quando a morte de Resnais foi anunciada. Até ao final do mês, o DocLisboa vai homenagear o cineasta com a exibição das suas três seminais curtas As Estátuas Também Morrem (1953), Toda a Memória do Mundo (1956, partilhada com Chris Marker) e Noite e Nevoeiro. E, esta semana, Portugal vê a estreia dos dois últimos filmes que Alain Resnais dirigiu: Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012), revelado no concurso oficial de Cannes, e Amar, Beber e Cantar (2013), prémio Alfred Bauer na edição 2014 do Festival de Berlim.

Testamento artístico
Vistos separados ou em conjunto, os dois filmes compõem uma espécie de “testamento artístico” do cineasta, com a morte abertamente no centro das suas narrativas — em tom mais dramático no primeiro, inspirado na leitura do mito de Orfeu e Eurídice por Jean Anouilh, em tom mais cómico e celebratório no segundo, terceira adaptação por Resnais do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn, depois de Fumar/Não Fumar e Corações (2006). Em ambos os casos, num vai-vém entre a comédia e o drama que Caroline Silhol definia como inseparáveis - “não há tragédia sem comédia nem comédia sem tragédia, e quando sabemos que vamos todos morrer existe forçosamente algo de cómico pelo meio de toda a tragédia”.

Em Berlim, onde esteve presente para apresentar Amar, Beber e Cantar, Sabine Azéma, “musa” do cinema de Resnais desde 1983 e sua companheira na vida real desde 1998, mostrava-se “picada” pela insistência da imprensa na presença da morte e no lado testamentário do filme, como se a única coisa que interessasse fosse perceber se seria realmente o último do realizador. Era uma questão inevitável face à idade avançada de Resnais, mesmo que todos fossem unânimes a falar da sua energia, no plateau ou fora dele. 

André Dussollier, em Berlim, falava ao Ípsilon de uma espécie de “juventude perpétua que tem e na qual nos embala,” considerando sempre tudo como novas experiências. Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, que rodou com Resnais em É Sempre a Mesma Cantiga! e Vocês Ainda Não Viram Nada, fala de alguém que se considerava “um jovem realizador”, que recusava em absoluto sentir-se “esmagado” pela reputação de “mestre” que lhe era atribuída. Mesmo que o seu estado de saúde já não lhe permitisse afastar-se de Paris, e o forçasse a restringir-se às rodagens em estúdio perto de casa (coisa que, de qualquer modo, lhe agradava sobremaneira – o estúdio era o espaço ideal para as suas experimentações formais), continuava a trabalhar e preparava já uma nova adaptação de Alan Ayckbourn. (De uma peça com um título premonitório: Arrivals and Departures, Chegadas e Partidas...)

Os rumores de “testamento”, de “filme terminal”, em qualquer caso, já haviam estado muito presentes durante a apresentação em Cannes, em 2012, de Vocês Ainda Não Viram Nada!, fábula onde um punhado de actores se reunia para as exéquias de um encenador com quem todos haviam trabalhado, e que lhes deixava como testamento o convite para assistir aos ensaios filmados de uma nova produção da sua Eurídice. Esses actores – que interpretam versões de si próprios – incluiam muitos “repetentes” de toda a obra de Resnais, dos mais recentes (Sabine Azéma, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Mathieu Amalric, Michel Vuillermoz) aos mais veteranos (Anny Duperey, Gérard Lartigau).

PÚBLICO -
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Ao Ípsilon, Dussollier - que curiosamente não entrava em Vocês Ainda Não Viram Nada! e tem apenas um pequeno papel em Amar, Beber e Cantar - é quem melhor define essa dimensão de “companhia teatral” recorrente, com papéis importantes num e menos importantes noutro, falando de “surpresa”: “Uma das vantagens de nos conhecermos muito bem é sermos obrigados a surpreender-nos. Ele surpreende-nos propondo-nos papéis diferentes de cada vez e é preciso devolver-lhe o presente que ele nos dá.” Sibertin-Blanc avança que Resnais se distinguia por ser “um realizador que gosta dos actores” - “dá a sensação que não os dirige, não dá indicações psicológicas nenhumas. Instala um clima onde os actores se sentem à vontade e têm a sensação de fazer parte de um ensemble”.

Caroline Silhol falava em Berlim da imensa generosidade do olhar de um cineasta que nada tinha do peso institucional que a sua reputação lhe dava. “Em teoria, a ideia de rodar com aquele que é talvez o último grande mestre vivo do cinema é bastante aterrorizadora. Mas, antes da rodagem, tivemos longas conversas, houve pedidos do Alain, explorações da personagem. E assim que chegamos ao plateau deixamos de ter medo do olhar do realizador, porque o seu olhar é de tal modo generoso que sabemos que ele apenas vai buscar o que de melhor temos. É uma espécie de relação de casal em que sabemos que o outro nos vai enriquecer, que nos vai ajudar a transcender-nos e também a devolver-nos a nós próprios.”

É por aí que se entende a ausência no centro de Amar, Beber e Cantar, ronda romântica para três casais da província inglesa, alguns dos quais pertencem a um grupo amador de teatro, com a acção a decorrer durante o período de ensaios de uma peça. Essa ausência é a da personagem central do filme, à volta da qual as seis personagens circulam: George Riley, diagnosticado com um cancro incurável em fase terminal, nunca é visto nem ouvido ao longo das duas horas do filme, contudo toda a gente no écrã dá por si manipulada pelos desígnios de um demiurgo externo e ausente – tal como acontece em Vocês Ainda Não Viram Nada!, através do defunto encenador Antoine d'Anthac, que está sempre presente sem lá estar.

Essa dimensão, bem patente nos cartazes que o desenhador Blutch criou para os dois filmes (no primeiro um homem que espreita por trás de uma cortina, no segundo uma figura sem rosto pairando no céu por cima do elenco), apenas sublinha como o teatro é a trave-mestra destes filmes. E nem por acaso, Resnais planificava meticulosamente os seus filmes sem recorrer aos storyboards, preferindo usar maquetas dos cenários criadas pelo cenógrafo Jacques Saulnier nas quais fazia evoluir figurinhas da Lego representado os actores.

“Resnais não esconde que as coisas vêm do teatro,” explicava Dussollier em Berlim. “Ele não tenta que as personagens saiam deste palco onde estão a representar a sua vida. Acabava por ser-lhe conveniente que se tratasse de uma peça de teatro, como se fossem casais a representar a sua vida, mesmo que com muita sinceridade.” Dussollier poderia estar a falar de Vocês Ainda Não Viram Nada!, com o seu jogo de ida e volta entre actores que “mudam de nível” ao longo de todo o filme, diluindo as fronteiras entre actor, actor-no-filme e personagem. E falar de Antoine e George como “duplos” ou “espelhos” de Resnais-director, do mesmo Resnais que logo ao início da sua carreira, com Hiroshima Meu Amor e O Último Ano em Marienbad, questionava abertamente a noção de memória e de identidade, sublinhava ainda mais a noção de “fim de ciclo” ou de “círculo a fechar-se” que estes filmes transportam.

Dussollier reflectia que Resnais podia não ter necessariamente pensado a fundo nessas leituras – já em Corações se sentia um ar “crepuscular” que o cineasta dizia vir inteiramente da peça original de Alan Ayckbourn. “Penso que, tanto neste como no anterior filme, agradava-lhe esse lado de estar presente sem estar presente. Esta história da ausência na sua maneira de receber o amor é um modo de se encenar, de encontrar um lugar. E como ele é um homem bastante irónico, e espirituoso, entra no jogo com algo de farsante...”

Um farsante, sim, cujo gosto pela ironia e pela liberdade, patente ao longo de toda a sua obra, está particularmente visível nos dois filmes que agora estreiam entre nós – que, sem fazerem parte das suas obras-primas, demonstram como, até ao final da sua vida, Alain Resnais nunca deixou de ser um cineasta livre. A última palavra poderia ser de Caroline Silhol, que dizia ao Ipsilon que essa liberdade era passada também aos seus actores - “enquanto rodamos com ele, somos actores um pouco diferentes devido à liberdade que ele nos dá, uma liberdade que adquirimos graças a ele.” Mas talvez seja mais apropriada a citação de Alphonse Allais que André Dussollier lançou em tom jocoso em fim de conversa: “Não nos levemos demasiado a sério. Ninguém sobreviverá.” Alain Resnais apreciaria, sem dúvida.