A noite em que Marcelo Rebelo de Sousa andou feito pardal pelos telhados de Beja

O comício que o PPD se preparava para fazer no cine-teatro Pax Julia em Beja a 9 de Abril de 1975 acabou mal. Marcelo ainda conseguiu falar, mas a intervenção de Francisco Vaz Ramos sobre as consequências funestas da ditadura do proletariado foram o rastilho da desordem. Travou-se uma verdadeira batalha campal. O professor e comentador, então jornalista do Expresso de 27 anos, fugiu pelas traseiras e patinou pelos telhados naquela que foi considerada a "épica e a mais turbulenta noite do PPS/PSD em Beja".

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Quem vê e ouve semanalmente o comentador televisivo e professor universitário, dificilmente conseguirá associar o seu estatuto ao militante do PPD que, aos 27 anos de idade, superou em Beja, da forma como o fez, um dos momentos mais dramáticos da sua vida política.

A noite de 9 de Abril de 1975 surge sem crepúsculo, quando Marcelo Rebelo de Sousa e Vasco de Graça Moura, que desempenhava as funções de secretário de Estado da Segurança Social do IV Governo Provisório, entram no cine-teatro Pax Júlia em Beja. Iam apresentar os candidatos do PPD à Assembleia Constituinte, pelo círculo eleitoral de Beja.

Vivia-se um período de grandes tensões sociais e fortes afrontamentos políticos na ressaca do golpe militar de 11 de Março. No Sul do país, emergia uma realidade explosiva. Ainda não era Verão, mas já aquecia.

Arrancava o processo da reforma agrária, que recebe cobertura legal do Governo para a expropriação das grandes herdades, com vista à constituição de Unidades Colectivas de Produção (UCP). 

António Barreto referia no texto “Classe e Estado”, publicado em 1984 na revista Análise Social, que a situação nos campos do Sul “evoluíra para uma crescente radicalização”, no início de 1975, generalizando-se rapidamente um movimento de ocupações de terras “invocando a sabotagem económica levada a cabo pelos grandes proprietários das terras”.

O contexto político era susceptível de sobressaltos e carregado de imprevisibilidade. Avisados para as consequências resultantes da realização de um comício do PPD em Beja, os dirigentes da organização a nível distrital promovem, dias antes do comício, uma reunião de “filiados” antecipando a resposta às previsíveis provocações de radicais de esquerda, que a região acolhia em grande número.  

Marcelo era o orador que suscitava mais expectativas nos que arriscaram estar presentes no comício, apesar das ameaças que rodeavam a sua realização. Conseguiu chegar ao fim da sua intervenção “sem incidentes ou interrupções”, destaca uma reportagem sobre o comício publicada na edição do dia 10 de Abril no Diário do Alentejo (DA).

Os outros oradores tiveram menos sorte. As perturbações junto da porta de entrada do cine-teatro acentuavam-se e Francisco Vaz Ramos, membro da Comissão Política Nacional do PPD, entendeu ser oportuno falar sobre as consequências funestas da ditadura do proletariado, advertindo os pouco mais de uma centena de presentes que a concretização de um tal modelo de sociedade se traduziria na “escravização” da maioria dos portugueses.  

Foi forçado a interromper o seu discurso para pedir calma e bom senso à assistência, mas a desordem estava instalada. Indivíduos estranhos ao comício envolveram-se em forte pancadaria com elementos da Juventude do Partido Popular Democrático vindos de Lisboa, Serpa e Évora para garantir a segurança no comício.  

A voz do orador tentou fazer-se ouvir: “Falei de Trás-os-Montes ao Algarve e não será aqui que me calo”, gritou Vaz Ramos, já no meio de uma verdadeira batalha campal, destaca o texto do DA.

Era director do jornal José Moedas, pai de uma criança de cinco anos, hoje comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, de seu nome Carlos Moedas.

Nos incidentes envolveram-se “vários jovens afectos ao PPD e opositores de grupos e movimentos políticos, designadamente da extrema-esquerda” escreve o diário, acrescentando que as cenas de violência “assumiram maior proporção após a saída das pessoas”. Registaram-se então “choques entre jovens, muitos deles (especialmente militantes do PPD) armados não apenas de paus e pedras, mas também de matracas, facas e outros objectos cortantes que causaram vários ferimentos, alguns dos quais receberam tratamento hospitalar”.

Os elementos da segurança recorreram ainda ao sistema de combate a incêndios, numa tentativa de afastar os radicais de esquerda à força de agulheta. Os confrontos físicos redundaram ainda na destruição de montras, balcão do bar, cadeiras e de outros objectos.

Virgínia Estorninho, antiga deputada do PSD, confessou ao PÚBLICO que o “triste” episódio de Beja foi a situação “mais traumática” que enfrentou ao longo da sua vida política. 

“Tranquei-me com mais uns 20 jovens num dos camarins do Pax Júlia” até que a porta foi forçada por “uns indivíduos de braçadeira vermelha,” que presume pertencerem ao PCP ou ao MDP e que vinham acompanhados de alguns elementos do MFA, que os conduziram numa viatura militar para a enfermaria do Regimento de Infantaria nº 3 (RI3) em Beja, para serem libertados na madrugada seguinte. 

A antiga deputada recorda que os “esquerdistas” tinham atirado as bandeiras do PPD ao chão. “Foi nesse dia que senti a importância de uma bandeira”. Lembra-se ainda de Marcelo “andar como um pardal pelos telhados de Beja”.

Marciano Lopes, actual dirigente da Distrital de Beja do PSD, na altura com apenas 16 anos, diz ter presenciado “ uma tal confusão e violência” que nem autoridades presentes (governador Civil e comandantes da PSP, GNR e Regimento de Infantaria 3) conseguiram sanar. Todos “saíram in extremis com os elementos da mesa do comício e dirigentes locais do PPD por uma porta lateral.

Os jovens da segurança ficaram encurralados num canto do cine-teatro, até que os militares os foram buscar, após terem feito disparos para ar, para desimpedir a área circundante ao local do comício. Só às primeiras horas da madrugada, os ânimos serenaram e os dirigentes locais do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa e comitiva, dirigiram-se para a sede do partido, na Praça da República.

No entanto “tínhamos consciência de que o pior podia acontecer e as coisas não ficariam por ali, pois o barulho ia aumentando e os que boicotaram o comício tentavam assaltar a sede e arrombar a porta reforçada com secretárias e cadeiras”, recorda Marciano Lopes.

Pouco depois, “numerosos elementos jovens invadiram a sede do PPD, atirando para a rua documentos, material de propaganda a que pegaram fogo. Levaram ainda cadeiras, máquinas de escrever, stencils, um esquentador e um fogão da cozinha, mobiliário e outros objectos. Partiram vidros das janelas e provocaram outros danos, de que resultou a completa destruição das instalações, ante a impotência das autoridades policiais e militares do RI 3, que chegaram tarde”, descreve o DA.

Os furtos estenderam-se a uma casa particular que confinava com a da sede. “Apoderaram-se de livros, alguns com biografia de Salazar como se fossem pertença do PPD, levaram tudo para o centro da Praça da República, onde foi ateado um fogo que reduziu tudo a cinzas” explicou Marciano Lopes.

Receando pela sua vida, os militantes que se encontravam na sede saíram por uma porta das traseiras do edifício, e Marcelo Rebelo de Sousa fugiu pelos telhados e permaneceu cerca de uma hora numa noite fria, “patinando” e deambulando de um lado para o outro, até encontrar quem o ajudou a descer e a regressar em segurança para Lisboa. Marciano Lopes completa o relato da noite classificando-a como “épica e a mais turbulenta e perigosa do PPD/PSD em Beja”. 

Na sequência dos acontecimentos, a UDP divulgou um comunicado aconselhando a comissão de inquérito - que foi formada para apurar os responsáveis dos desacatos - a apurar quem eram “os mercenários pagos pelo PPD e os filhos-família que vieram a Beja agredir-nos com facas, correntes e bolas de aço”, questionando a proveniência do dinheiro do PPD para “pagar mobílias tão caras, máquinas tão modernas e tanta e tão luxuosa propaganda”.

“Por que razão é que um partido que diz que não é fascista tinha na sua sede livros de Salazar, do Hitler e documentos da Legião Portuguesa?”, questiona o comunicado da UDP em jeito de conclusão.

O PPD reconhece que os seus apoiantes “trouxeram algumas armas de defesa pessoal”, mas para garantir a segurança que “as forças militares por lei deveriam dar” e explica que mobília que se encontrava na sede do partido e que foi destruída e roubada “está por pagar,” ao mesmo tempo que apelavam a quem a levou que “vá fazer contas com o vendedor”.

Numa referência ao acervo bibliográfico que desapareceu na fogueira acesa no centro da Praça da República, o comunicado esclareceu que “era composta de 20 volumes da obra O socialismo reformista, 15 volumes de Introdução à Política e diversos livros sobre Che Guevara, Cuba, etc,” refutando as acusações formuladas pela UDP de que estariam na sede do partido livros sobre Salazar, Hitler e documentos da Legião portuguesa.  

Respostas de hoje, 39 anos depois
Decorreram, entretanto, 39 anos deste acontecimento que deixou marcas na comunidade local. Sectores da direita insistem em associar o boicote e o assalto à sede do PPD aos comunistas, e repudiam o pacto celebrado, na sequência das últimas eleições autárquicas, entre o PSD e a CDU para esta força política garantir a maioria absoluta na gestão das duas maiores freguesias da cidade de Beja.

Em resposta às questões colocadas pelo PÚBLICO sobre eventuais envolvimentos nos acidentes de 9 de Abril de 1975, o PCP diz que é “alheio aos acontecimentos e incidentes relacionados com o comício” do PPD em Beja. Os comunistas lembram que sempre “denunciaram e combateram quaisquer actos de vandalismo e terrorismo políticos”, realçando que foram as suas sedes, património e militantes os principais alvos de acção terrorista, no ano de 1975, em várias zonas do país”.

Virgínia Estorninho vivenciou os acontecimentos e garante que “foram os esquerdistas que nos provocaram e maltrataram” e Marcelo Rebelo de Sousa já fez questões de explicar em várias ocasiões que “foram militantes do Partido da Unidade Popular (PUP)” que desencadearam as acções.

O actual presidente da distrital de Beja do PSD, o deputado Mário Simões, adiantou ao PÚBLICO que o seu partido vai comemorar a efeméride integrando-a nas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril para demonstrar “como os tempos são diferentes”. Acredita que desta vez Marcelo Rebelo de Sousa irá ter um acolhimento “mais afectivo e sem os sinais de confronto político” que foram patentes há 39 anos.

O PÚBLICO tentou ouvir as memórias de Marcelo, mas o comentador não esteve disponível. Dentro de semanas, o professor vai discursar no comício agendado pela distrital de Beja para o cine-teatro Pax Júlia, depois desloca-se à sede do PSD para observar à luz do dia os telhados onde “andou patinando” naquela noite que não é para esquecer.