Gérard Depardieu é mesmo assim

Uma autobiografia chocante e comovente de Gérard Depardieu faz a França reavaliar a sua relação com o ícone.

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Figura excessiva, um físico que se tornou chocante, Gérard é também uma das mais delicadas memórias do cinema francês

Ça c'est fait comme ça: roubo, prisão e prostituição. 170 páginas da autobiografia de Gérard Depardieu, tal como narrada a Lionel Duroy. Não certamente uma confissão de "pecados", mas um desassombrado reencontro consigo mesmo. É isso o que torna sempre tocante, mesmo quando chocante, Gérard Depardieu, e a forma como não tem medo de deixar que um tesouro nacional francês seja visto como embaraço nacional.

"Desde jovem que me dei conta de que agradava aos homossexuais". Por isso não hesitava em passar ao acto e pedia dinheiro, conta. Relata ainda os actos de delinquência na juventude, e no início da sua vida de adulto, em Châteauroux, tal como violar túmulos para encontrar as jóias e os sapatos dos mortos. "Aos 20 anos o ladrão em mim estava bem vivo".
Mas o que está a ser destacado pelos títulos dos jornais, não só franceses, mesmo os britânicos como o Independent, é a revelação de que sobreviveu "a toda a violência" que a mãe "inflingiu a si própria com agulhas de tricotar e outras coisas", na tentativa de matar o feto. Era o terceiro filho de uma família que chegaria a ter seis.

Estas revelações estão a dar uma outra hipótese à complicada relação dos franceses com um dos seus mitos nacionais (recentemente outro "caso", o de Brigitte Bardot, a propósito da entrevista que deu à televisão francesa na comemoração do seu 80º aniversário). Por exemplo, a relação Depardieu-Depardieu, Gérard e o filho Guillaume, também actor, que morreu em 2008 aos 37 anos devido a uma pneumonia, depois de lhe ter sido amputada uma perna na sequência de um acidente de moto e depois de um historial de drogas e prisão.

Guillaume acusou o pai de ser alcoólico e obcecado pelo dinheiro. “Guillaume passou pelas mesmas coisas que eu”, diz hoje Depardieu, filho de um alcoólico, Dédé, assim chamado por essas serem as únicas letras do alfabeto que conseguia escrever (mas sobre o álcool e o dinheiro, Gérard, 65 anos, disse a semana passada numa entrevista na TV francesa que não é alcoólico porque os alcoólicos "não se embebedam" e se procurou exílio fiscal primeiro na Bélgica e depois na Rússia de Putin não o fez por obsessão pelo dinheiro, porque... é rico).

“Demorei muito tempo a perceber as exigências e o sofrimento de Guillaume, e não soube como lhe responder. Nunca encontrei as palavras.” Não há sentimentos de culpa, no entanto. Há muito que mandou isso às urtigas.

Figura excessiva, um físico que se tornou chocante (é uma das exibições de Welcome in New York, de Abel Ferrara, em que interpreta Dominique Strauss-Kahn), Gérard é também uma das mais delicadas memórias do cinema francês, um físico e uma sensibilidade (uma sensualidade) que se construíram a partir do instinto (conta que antes de aprender as aulas de teatro teve de aprender a falar) e que tocaram e comoveram Marguerite Duras, Truffaut ou Marco Ferreri. Foi ele que convenceu Bertrand Blier a dar-lhe, e não a Coluche, o papel de Jean-Claude em Les Valseuses. "Mas sou eu, é a minha vida, é para ti!". E o resto, como se diz, é História.

A solidão que vive na personagem que interpreta no filme de Ferrara é a dele - o filme é tanto uma ficção sobre DSK como um documentário sobre o actor. Que diz nesta biografia que a sua família - os seus três filhos, para além de Guillaume - sentem vergonha do seu nome. "Já lhes disse, 'O que querem? Mudem de nome, por amor de Deus, se isso vos incomoda'."