A “grande muralha informática” da China nunca censurou tanto como agora

Milhares estão nas ruas de Hong Kong a gritar por democracia. Milhões estão na China continental sem saber o que se está a passar.

Milhares de manifestantes de telemóvel em riste nos protestos de Hong Kong
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Milhares de manifestantes de telemóvel em riste nos protestos de Hong Kong AFP/AARON TAM
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Para contornar a censura, muitos dos manifestantes adoptaram o FireChat, uma nova aplicação que funciona sem rede e sem Internet AFP /ALEX OGLE
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Manifestantes carregam os seus smartphones num centro de artes em Hong Kong REUTERS/Carlos Barria

Na China continental, milhões de chineses ignoram completamente a existência dos protestos em Hong Kong. O popular site de partilha de fotos Instagram foi a última grande aplicação electrónica a sofrer as consequências da censura chinesa. Bloqueado desde domingo, o Instagram juntou-se assim ao Facebook, Twitter e YouTube, que já estão banidos na China.

Para contornar a censura, muitos dos manifestantes de Hong Kong adoptaram nos últimos dias o FireChat, uma nova aplicação de mensagens para smartphones que funciona sem rede e sem Internet.

“O sistema de censura extremamente eficaz que eles [as autoridades chinesas] desenvolveram depois de 1949 funciona realmente, e há muito pouca informação a circular fora da linha oficial que consegue manter-se nos sites”, sublinha Jeremy Goldkorn, director do site de informação danwei.org, igualmente bloqueado pela censura.

Sobre o tema de Hong Kong, os media chineses receberam instruções para se manterem fieis à linha oficial, descrevendo os manifestantes como extremistas, muitas vezes violentos, que ameaçam os negócios, a “estabilidade” e o normal funcionamento da bolsa. “Isso não quer dizer que as pessoas não saibam o que se passa, mas a mensagem é muitíssimo controlada”, explica Goldkorn

Este clima é semelhante ao que se viveu no início de 2011, quando as autoridades abafaram os apelos para manifestações pró-reformas na China, inspiradas pelas revoluções no mundo árabe.

Fu King-wa, um perito de media da Universidade de Hong Kong, revela que o número de microblogs apagados no Weibo, o maior serviço de microblogging da China, bateu todos os recordes.

Fu King-wa é o fundador do Weiboscope, um site que monitoriza diariamente o destino de 50 mil a 60 mil microblogs publicados na China. E constatou que o rácio de microblogs apagados passou de 98 por dez mil no sábado para 152 por dez mil no domingo, dia em que se registaram os piores confrontes entre a polícia e os manifestantes em Hong Kong

“É a taxa mais elevada em 2014, é mesmo mais elevada do que no 4 de Junho”, aniversário do massacre de Tiananmen, o tema mais censurado na China.

Conhecido como “a grande muralha informática”, um sistema sofisticado de censura que emprega um “exército” de milhares de funcionários, consegue bloquear na China todo o acesso a endereços na Internet considerados “sensíveis”.

E o sistema está sempre a evoluir: o célebre jornal de Hong Kong, o South China Morning Post, juntou-se recentemente a uma nova lista de jornais bloqueados na China continental.

Segundo o site GreatFire.org, a China nunca bloqueou tantos sites de informação como agora. “E isto inscreve-se numa tendência mais vasta e mais inquietante”, comenta Charlie Smith, pseudónimo de um dos fundadores do Greatfire.org, que estuda o controlo da Internet pelo poder comunista.

“A maioria das pessoas pensa que as autoridades chinesas estão dispostas a tudo para conservar o poder, mas poucas imaginariam que Pequim iria ao ponto de isolar o país da Internet mundial desta forma”, acrescentou Charlie Smith

“Aquilo de que as pessoas têm mesmo medo é que o regime recorra à violência, aos tanques, à repressão brutal”, conclui Goldkorn. Nesse caso, “o desafio seria enorme para conseguir censurar tais acontecimentos”.