A voz que nos canta o vento

Bouchra Ouizguen chega de Marrocos para apresentar Ha! no Teatro Virgínia, em Torres Novas. Viagem à intimidade de quatro mulheres cuja história se escreve todos os dias.

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Para Bouchra Ouizguen, não há um antes e depois do espectáculo: "Faz tudo parte do mesmo movimento de se estar vivo" HERVÉ VÉRONÈSE

Às vezes um movimento começa muito antes de chegar ao corpo que o dança. Para a coreógrafa marroquina Bouchra Ouizguen, esse movimento é uma história que começa de madrugada, quando as suas bailarinas se levantam e saem das suas aldeias do interior de Marrocos para virem até ao estúdio, em Marraquexe. As quatro horas que passam juntas nunca são suficientes. Mas são quanto basta para que desse encontro que há oito anos repetidamente acontece possa nascer um movimento que é mais do que uma passagem dentro de uma coreografia.

Em palco, na peça que amanhã chega ao Teatro Virgínia, em Torres Novas, estão quatro mulheres – entre elas a coreógrafa  cuja vida era dançar nos cabarés das aldeias marroquinas ou, às vezes, cantar em funerais a pedido das famílias. Era uma vida modesta e continua a sê-lo, mesmo que seja já pouco o tempo que têm para ir cantar para os outros. Os seus corpos mostram-se agora, em todo o seu esplendor e em toda a sua integridade, nos palcos mais diversos. Em Ha!, que marca o regresso da coreógrafa marroquina a Portugal depois de Madame Plaza, apresentado há dois anos em Lisboa no Alkantara Festival, voltamos a encontrar o prazer da exposição de corpos que desafiam a realidade, em movimentos que parecem surgir do interior das intérpretes. No Festival Materiais Diversos, será tempo de nos perdermos numa coreografia construída a partir de um desejo intenso de comunhão.

Para Bouchra Ouizguen, a dança é uma escolha. É um modo de contar uma história, de inventar um percurso, de partilhar uma vida com as vidas de Kabboura Aït Ben Hmad, Naïma Sahmoud e Fatéma el-Hanna, cantoras da tradição aïta, que aqui se entregam aos poemas escritos pelo poeta sufi Jalal ad-Din Ruminormalmente cantados em rituais exclusivamente masculinos.

Bouchra Ouizguen fala-nos a partir de Marraquexe, num fim de tarde que ainda é soalheiro, sobre esse encontro que é, afinal, o princípio e o fim das razões que a levam a querer ser coreógrafa: “Foi isso que descobri quando as encontrei. Encontramo-nos. Falamos a mesma língua. Escolhemo-nos mutuamente. Foi também assim que aprendi a dançar. Na maneira como penso, escrevo e coreógrafo está o olhar delas. Aquilo que se vive é a construção de um gesto que nos é comum." Continua: “Tudo o que dançamos existe ainda. Está nas nossas mãos, nos nossos pescoços, nos nossos cabelos, nos nossos gestos, nas nossas frases, naquilo que dizemos e no modo como vivemos."

A invenção de um ritual

Do dia-a-dia marroquino para a abstracção da caixa negra dos palcos, Bouchra desenha, através das suas coreografias, um espaço e um tempo que recusa a necessidade de se justificar permanentemente. “Não sou uma coreógrafa das imagens, sou alguém que procura aquilo que desaparece no interior dessas imagens sempre exteriores e impostas”, diz, referindo-se à insistência em inscrever o seu trabalho numa etnografia exótica. “Ao contrário do que acontece em Portugal ou Espanha, onde há uma memória e uma história comum que pertence a todos, em França, por exemplo, sei que tenho que defender constantemente o meu trabalho daquilo que ele não é: a representação de uma história com uma componente política”.

O seu trabalho, argumenta, é mais do que isso. Propõe “uma invenção de um ritual, como se quisesse encontrar no gesto actual o que nele há de mais ancestral”. É aqui que Bouchra se distingue de Nacera Beleza, coreógrafa argelina que já vimos várias vezes em Lisboa: nesse modo de olhar para o movimento como uma passagem para um estado de transe que se aproxima de uma relação mística com o corpo. No caso da coreógrafa marroquina, os corpos são o princípio e o fim de “uma loucura que é mística, que é mal-sã, que é ambiciosa, mas que é extremamente atenta ao que a envolve”.

Não é uma dança da abstracção ou do desaparecimento, é uma dança que procura portas de entrada para as entranhas do inconsciente. “Não quero uma dança que se prenda ao corpo. Quero partir da liberdade delas e dar-lhes uma outra amplitude”, conta, descrevendo um processo que se revelou, ao longo dos anos, um modo de “habitar um desejo pelo movimento”. “Há uma vontade de construir um movimento, e tanta excitação, tanta alegria ao fazê-lo que a cada espectáculo, a cada apresentação, ganha em intensidade e matéria."

O que vemos em palco, como se fôssemos convidados a entrar na intimidade de um ritual, é essa forma de olhar para o corpo como lugar de encontro, sem necessidade de acrescentar palavras à intensidade dos silêncios. Por isso Ha! Nada tem de exótico, de ritualizado. Conclui Bouchra: “Não há um antes e um depois do movimento, como não há um antes e um depois do espectáculo, porque já não havia um antes e um depois do ensaio. Faz tudo parte do mesmo movimento de se estar vivo, de se estar com os outros, de construir, a cada dia, uma vida em comunidade."