Opinião

Por que podem eles, e nós não?

Quando Léon Blum foi preso — a 15 de setembro de 1940, fez anos há dias —, a acusação que a direita pétainista fez a este antigo primeiro-ministro da Frente Popular foi, basicamente, a de ter ampliado o estado social.

 É difícil acreditar, mas Blum foi considerado culpado de ter instituído a semana das 40 horas de trabalho, ter criado as férias pagas, ter aceitado a atividade sindical e permitido propaganda política aos trabalhadores. Com estes quatro “crimes” (a que se juntou um quinto, o de ter nacionalizado a indústria de armamento) Blum foi entregue aos alemães e preso em Buchenwald. Como, além de socialista, era judeu, passou a menos de dois dedos da morte.

Criar o estado social só foi possível após uma luta difícil, prolongada e muitas vezes arriscada. As oportunidades de conquistar avanços não eram muitas e dependiam de uma unidade difícil de alcançar. Mas as suas conquistas, depois de obtidas, são extremamente populares. Hoje só é possível atacar o estado social pela calada, quando se proclama a sua defesa em público.

Assim vimos esta semana, em Portugal, um governo que tem atacado as próprias bases do estado social, substituindo-o por uma lógica caritativa e privatista, colar-se às comemorações dos 35 anos do Serviço Nacional de Saúde. Não admira: a saúde é uma das áreas, provavelmente a principal, em que Portugal deu um enorme pulo do subdesenvolvimento para o topo das tabelas internacionais.

Todavia, o mais interessante foi ouvir e ler por estes dias as entrevistas concedidas por António Arnaut. O “pai do SNS” aproximou-se destas comemorações com os olhos mais no futuro do que no passado. Ele sabe que manter é tão importante como conquistar. E que a defesa do SNS — como dos outros elementos do estado social — é uma responsabilidade histórica que nos convoca a todos. É assim que interpreto a sua resposta à pergunta de quem seria um bom ministro da saúde socialista — João Semedo, coordenador do Bloco de Esquerda, diz António Arnaut. Este momento especial exige responsabilidades especiais.

Este domingo houve eleições na Suécia. Ali se construiu um dos estados sociais mais avançados do mundo mas, nos últimos anos, as maiorias de direita no governo têm feito regredir alguns elementos essenciais deste, em particular privatizado o sistema de educação.

A esquerda sueca aprendeu a lição e apresentou-se concertada para estas eleições: sociais-democratas, verdes e esquerda radical foram juntos (a que se poderia juntar um quarto partido, feminista, que não conseguiu eleger ninguém para o parlamento) prepararam com tempo uma convergência estratégica e programática para governar, e não só para resistir a partir da oposição. O próximo primeiro-ministro sueco será um ex-líder sindical e isto é importante também para nós porque significa que haverá menos um aliado da austeridade no Conselho Europeu.

A partir daqui, nada será fácil. O governo não tem uma maioria absoluta, a extrema-direita teve dez por cento, e muitas das privatizações serão difíceis de reverter. Mas o certo é que a esquerda sueca respondeu bem à responsabilidade histórica de defender o estado social que — como sabia Léon Blum — tanto custou a conquistar e que tanto depende de unidade entre aqueles que o defendem.

A questão agora é: porque podem os suecos, e nós não?

Historiador