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Por que adoramos odiar os U2?

Esta semana, a Apple disponibilizou para descarregamento gratuito, durante um mês, o novo álbum do grupo rock U2. Mais um ensaio numa época em que os modelos de negócio de uma série de indústrias (da música aos media) deixaram de servir a uma larga maioria e cada um tenta encontrar o seu. Hoje, em vez de um modelo sólido, temos muitos modelos experimentais.

O que aumenta as hipóteses de confusão. Em parte parece ter sido isso que aconteceu com utilizadores da Apple a não entenderem a operação. A Apple não injectou o disco dos U2 nos computadores, iPhones e afins. O álbum está na Cloud. Só o descarrega quem quer. Quem não quer, ignora. Em teoria, porque quando o tema são os U2 é difícil ignorar seja o que for.

Como é evidente, existem diversas tangentes (éticas e legais) que podem ser problematizadas nesta operação. No limite poderemos equacionar se não será intrusiva. Mas salta à vista que muitas das reacções de desagrado são da ordem do gosto.

Dificilmente se a operação acontecesse com Bob Dylan ou Bruce Springsteen, por exemplo, a irritação se faria sentir. Mas os U2 são simultaneamente a banda rock mais popular do mundo e também a que mais gente adora odiar. Em grande parte porque não batem certo com os ideais romantizados da cultura rock.

O gosto nunca é desinteressado. Amar ou odiar os U2 não é apenas uma escolha estética. É também ética. É uma forma de dizermos que pertencemos a um mundo e não queremos pertencer a outro. E isso é tanto mais verdade quando falamos do grupo de Bono, o cantor que gera emoções desencontradas.

Isolemos Bono. Os outros três U2 parecem tipos simpáticos. E têm atitude, particularmente The Edge. Bono, não. Parece não encaixar. E se existe alguém com consciência disso é o próprio. Sabe que as actividades extra música produzem efeitos perversos. Podem provocar admiração, mas afastamento, também. Há quem não lhe perdoe querer ser mais do que um cantor rock e frequentar os palcos da política e dos negócios.

Na actualidade diz já não ter complexos. Mas quando os U2 começaram a ter sucesso nos anos 1980, tinha sentimentos de culpa. Segundo a ética punk, do qual procedia, ter espírito empresarial era uma contradição com ser de uma banda rock. Hoje fala de dinheiro com frontalidade, o que não é bem visto, como se a credibilidade artística fosse inimiga dos negócios.

Bono sempre percebeu que um artista terá tantas mais hipóteses de afirmar o seu trabalho quanto mais consciente estiver das dinâmicas do mercado em que se insere e ter uma perspectiva estratégica. Não para se vender, mas para assegurar que a sua actuação corresponde de facto às suas escolhas de base. Ou seja, para que ninguém mande nele e seja dono do seu destino.

E se era assim nas últimas décadas, hoje ainda mais determinante é. Actualmente, a distribuição e a partilha da música é tão decisiva como a criação da mesma. As variáveis deixaram de estar separadas.

Na actualidade, os U2 até se podiam dar ao luxo de não gravar discos. Os Rolling Stones são adulados pelo seu passado. Os U2 expõem-se. Não se escondem apenas atrás dos sucessos. Nunca estão totalmente satisfeitos. Estão sempre a pensar no futuro.

Há muito tempo que não lançam nenhum álbum decisivo? Não acho que tenham um sequer. Ouvi com paixão adolescente os dois primeiros e no resto da sua discografia reconheço bons, razoáveis e maus momentos. Mas em concerto, no escalão das bandas de estádio, nunca vi nenhum grupo tão desafiador, sempre pronto a explorar novos conceitos. Basta imaginar parte dos discípulos: Killers, Snow Patrol, Keane, Coldplay. Pois.

O que é incrível nos U2 é ainda se sentirem envolvidos até ao ponto de se colocarem em causa. Bono diz que o seu pai, já falecido, estava sempre a dizer-lhe para não sonhar. Ele, como reacção, fez o contrário. Não parou de ter sonhos megalómanos. Talvez a operação com a Apple se venha a traduzir num problema para os U2 e a dar razão ao pai.

O pai era cínico acerca do mundo. Tinha medo. Estava sempre à espera do momento em que o filho ia falhar. Bono substituiu o medo pela fé. O impossível pelo possível. Respeito isso.

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