Entre o delicado Hong e o infernal Tsukamoto está o clown Houellebecq

Fires on the Plain, de Tsukamoto, é a melhor obra até agora da competição do Festival de Veneza, edição onde nos cruzámos com delicadeza e potência do universo Hong Sangsoo e com o suicida Michel Houellebecq.

Que delicado e que potente é o cinema do coreano Hong Sangsoo, miniatura que se abre progressivamente como um harmónio para tocar a vastidão. Hill of Freedom (secção Horizontes) é mais um dos seus exercícios com a narrativa que faz o espectador sentir essa potência, mesmo que a tenha experimentado antes, como uma iniciação.

O ponto de partida é a chegada à Coreia de um japonês que vem em busca de uma rapariga. É uma relação passada que talvez nem sequer tenha começado ou que provavelmente foi interrompida - não é claro. O que quer que seja, a chegada é antecipada por uma carta que o rapaz lhe envia.

Durante as duas semanas que está em Seul, e em que tem dificuldades em encontrar-se com ela, ele conhece uma série de personagens ligadas à estalagem onde pernoita. Essa interacção tem o efeito de expansão, como um sonho. A sequência dos acontecimentos começa a surgir truncada, como uma história a ser contada através da leitura de uma sequência desordenada de folhas de papel (motivo explicitado o das mãos da rapariga a ler a carta que o rapaz escreveu – como a mão que embala o berço no Intolerância do Griffith, é esse o motivo “criador”, dele parecem depender a existência, o ritmo do que está a ser visto). Mais do que essa desordenação, o ponto de partida da narrativa passa a ser um episódio entre os outros, como se perdesse a sua posição na hierarquia, para tudo se igualizar e não se saber quem sonha que realidade – uma partícula estilhaçou-se numa imensidão.

A forma como o Hong Sangsoo se aproveita dos maneirismos dos actores, a gestualidade, a boca, o nariz, o som das vozes, a vacilação das composturas pela carga das emoções, tudo isso é um material fisicamente vibrante e em movimento de uma comédia humana imprivisível.

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"Hill of Freedom"

No caso de A Pigeon sat on a Branch Reflecting on Existence, de Roy Anderson (competição), as personagens são clowns imobilizados com precisão num tableau vivant. Filme que encerra uma trilogia sobre o que é isso de “ser um ser humano” (Songs from the Second Floor, de 2000, e You, the Living, de 2007, foram os anteriores), reitera tudo o que Anderson já dissera antes. E fá-lo da mesma maneira, tal como no interior do filme, em que a humanidade é abraçada pelo sofrimento mas ela própria desencadeia a dor, os sketches reiteram sempre o mesmo: a inescapabilidade do sofrimento, a culpa, o indivíduo e a História. O realizador não expurga do filme a sensação de que cada quadro é coisa congelada que se satisfaz a si mesmo, mas se calhar é essa a razão que faz os filmes serem admirados. É Monty Python cruzado com Bergman.

No capítulo dos clowns, depois de termos ficado servidos com o Benoît Poelvoorde com coração de Chaplin no Rançon de la Gloire, um dos primeiros títulos da competição, preferimos Michel Houellebecq, o escritor. É o actor de Near Death Experience, objecto ligeiramente não identificável, realizado por Gustave Kelvern e Benoît Delépine (secção Horizontes).

Houellebecq é Paul, e quer suicidar-se. Já o teria feito antes se não fossem os filhos, mas a verdade última é que um pai morto é melhor do que um pai sem vida que se veja. É assim que se sente Paul, sem capacidade de ser útil ao sistema de produção. Atira-se para a natureza vestido de ciclista, à procura de um momento púdico, sem assistência, para o golpe de misericórdia. Mas a natureza é incómoda, passa uma pessoa a vida, diz Paul, a trabalhar o seu conforto, a personalizar o sofá, para acabar assim... por causa do sofá, aliás, deixou de ir ao teatro.

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"Near Death Experience"

O pessimismo de Houellebecq é uma construção, como uma persona, como em Woody Allen ou em João César Monteiro. Sai directamente do universo do escritor mas também das suas características físicas: a forma de fumar, a boca hirta, uma expressividade grave que às vezes mal consegue disfarçar a doçura de um sorriso. É um pacto cómico contra a natureza redentora e a favor da morte entre esses espíritos punk e metaleiros que são o filme e Paul - há um momento em que este se entrega aos Black Sabath.

O melhor até agora

De
clowns estamos servidos. Quanto ao existencialismo, Fires on the Plain, de Shinya Tsukamoto, é o grande abismo. É daqueles filmes que parecem querer dizer que o cinema foi inventado para a guerra ou que foi inventado em estado de guerra. Pensa-se no Samuel Fuller do conflito na Coreia, The Steel Helmet (1951) e Fixed Bayonets! (1951), porque, tal como esses, o novo do cineasta japonês, contando um episódio da II Guerra – um grupo de soldados isolados, vulneráveis, na ilha que tomaram - parece ter tido à mão pouco para conseguir inventar muito, toda uma ilha, por exemplo, apenas com luz e sombras.

Tsukamoto andou dez anos a preparar este projecto, entrevistando sobreviventes da II Guerra, querendo chegar o mais perto possível da memória do medo e da experiência da desumanização. Quis esperar que os entrevistados morressem, para que o filme pudesse revelar menos as experiências particulares – o canibalismo, por exemplo – do que a combustão humana. É um Apocalypse Now de bolso, é uma experiência sensorial violenta totalmente controlada por Tsukamoto, que não deixa derivar a energia que desencadeia.

A experiência sensorial é a tónica que distingue o filme da versão que em 1959 Kon Ichikawa já fizera do livro de Shohei Ooka. Mas participa da mesma interrogação sobre o que pode levar a Humanidade a despir-se dos seus atributos. É para já o melhor filme do concurso.

Mesmo se os italianos se congregam à volta de Il Giovane Favoloso, de Mario Martone. O realizador de Nápoles quis arrancar ao século XIX a figura de Giacomo Leopardi, um dos maiores poetas italianos, e tornar activo, presente, vital, o seu pessimismo, a sua melancolia e cepticismo. A electrónica de

Apparat/Sascha Ring é um dos anacronismos propositados e acaba por ser uma emanação natural, orgânica, da personagem. A espaços o corpo do actor Elio Germano, interpretando uma figura atormentada por deficiências físicas e doença degenerativa, parece conseguir impor o seu tempo ao da personagem – como o Jacques Dutronc do Van Gogh (1991), de Pialat, o que talvez seja comparação abusiva; Martone nada tem a ver com Pialat e não impõe uma respiração contemporânea a Il Giovane Favoloso, muito rigoroso mas sufocado pelas obrigações santificadoras de filme-biográfico.