Serão os evangélicos a decidir quem é o próximo Presidente do Brasil?

A importância do activismo político religioso leva todos os candidatos a cortejar o voto dos evangélicos, que já são 25% da população do país.

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Candidatos brasileiros no primeiro debate televisivo: Pastor Everaldo é o primeiro à esquerda. AFP/Miguel SCHINCARIOL

A última sondagem realizada pelo Ibope dava apenas 1% das intenções de voto ao pastor Everaldo: a sua campanha perdeu terreno com a ascensão de Marina Silva ao lugar cimeiro da “chapa” Unidos pelo Brasil, a coligação liderada pelo Partido Socialista Brasileiro e que ficou sem o seu candidato presidencial, Eduardo Campos, morto num acidente aéreo. Missionária da Assembleia de Deus, a maior congregação evangélica do Brasil, com mais de 12 milhões de fiéis, Marina é agora a principal – e a mais bem colocada – representante do movimento pentecostal na política brasileira.

Nas suas primeiras declarações, ainda em choque, após a morte de Campos, a candidata usou uma linguagem carregada de evocações religiosas, falando em “providência divina” e em “mistérios que nós não compreendemos” para explicar o facto de não ter seguido a bordo do jacto que se despenhou. Depois de ter sido duramente criticada, na anterior campanha presidencial de 2010, pelo alegado “fundamentalismo” do seu discurso que adviria do seu vínculo religioso, Marina Silva tem – para já – escapado a esse tipo de acusações e contestação.

Com o poder de representar quase 30% do eleitorado brasileiro, o bloco eleitoral evangélico é “cortejado” por quase todos os candidatos presidenciais, que não hesitaram em participar em debates organizados pela Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em cortar fitas na inauguração de templos ou a ler trechos bíblicos em assembleias de fiéis.

Como explicou ao PÚBLICO o sociólogo da Universidade de São Paulo, Ricardo Mariano, especialista em religião e política, os evangélicos “conquistaram bastante respeitabilidade e legitimidade religiosa. Não se pode mais pensar a democracia brasileira sem considerar o activismo político evangélico”, afirma, acrescentando que o “grande temor” de qualquer político do país é sofrer o boicote do movimento evangélico. “Todo o candidato tem de evitar essa oposição.”

Em presidenciais passadas, o bloco evangélico dividiu o seu voto – e os analistas esperam que o fenómeno volte a repetir-se este ano. Apesar de quatro grandes grupos pentecostais terem manifestado o seu apoio público à candidatura do Pastor Everaldo, ele tornou-se efectivamente carta fora do baralho com a entrada de Marina Silva na corrida. Até então, a Presidente candidata a um segundo mandato, Dilma Rousseff, era a concorrente mais bem posicionada para captar o voto dos evangélicos que, como nota Ricardo Mariano, “estão concentrados nas camadas sociais com menor rendimentos e escolaridade, que tendem a votar no Partido dos Trabalhadores, sobretudo no Nordeste”.

A agnóstica Dilma aprendeu a lição de há quatro anos, quando a sua campanha tremeu com a possibilidade de perder a segunda volta por causa da oposição dos líderes evangélicos. Nessa altura, a aliança com a IURD do bispo Edir Macedo terá sido fundamental. Em Brasília, manteve-se fiel à promessa feita ao eleitorado religioso: na sua presidência, não haveria propostas legislativas referentes ao aborto ou ao casamento gay – como de facto não houve.

Este ano, a Presidente montou um “comité evangélico” na sua estrutura de campanha, realizou várias acções com líderes religiosos. Mas a Presidente, e sobretudo o PT, também contam com uma feroz oposição no movimento evangélico. Em guerra aberta está, por exemplo, o pastor Silas Malafaia, que dirige a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e critica os petistas por “apoiarem tudo o que é lixo moral”.

Pastor liberal radical

Quando Marina se tornou candidata, beneficiou da migração do voto evangélico (ela domina entre esses eleitores, captando 37% desses votos, oito pontos mais do que a sua média eleitoral a nível nacional). A campanha do Pastor Everaldo, que ocupava o quarto lugar nas sondagens, com 4% das intenções de voto, perdeu a sua natureza “inédita”. Mas Ricardo Mariano identifica várias características interessantes da candidatura. “O que chamou a atenção foi o radicalismo liberal da sua agenda económica”, diz, com o pastor a defender a extinção de ministérios e a privatização das empresas públicas, incluindo a Petrobrás. “Nenhum dos 30 partidos do Brasil é tão liberal”, compara, distinguindo a novidade do movimento de Everaldo: pela primeira vez, notam-se esforços para o estabelecimento de um nicho eleitoral claramente de direita no Brasil. “Isso é absolutamente inédito num país onde ninguém quer dizer que é de direita”.

À margem da eleição presidencial, é fácil perceber a importância – e expansão – da bancada evangélica no Brasil. É um reflexo do crescimento do pentecostalismo no país, que contém o maior contingente evangélico da América Latina. Há 70 anos, pouco mais de 2,5% da população era evangélica; em 2010, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já 22,2% dos brasileiros se identificavam como evangélicos – ou seja, cerca de 42 milhões de pessoas. Em termos de eleitores, os evangélicos podem já somar cerca de 27% do total: o seu peso relativo aumenta nas regiões metropolitanas, onde representam 30% do total, e no Nordeste do país, onde são 34%.

Ricardo Mariano estima que actualmente um quarto da população brasileira se identifique como evangélica. E que nem eles, nem o resto da sociedade, achem estranho que os religiosos participem activamente na política partidária e eleitoral – ao contrário do que sucedia, por exemplo, na década de 1970, quando o movimento evangélico, que começava a crescer no Brasil, evocava o apolitismo (com a excepção da sua mensagem anti-comunista, que permanece até hoje).

“Para os religiosos dessa altura, a política, os media, eram coisas mundanas e demoníacas. O seu lema era ‘crente não se mete em política’”, diz. Mas no fim dos anos 1980, com a formação da Assembleia Nacional Constituinte, encarregada de redigir uma nova Constituição depois do fim da ditadura militar, houve uma mutação no movimento evangélico. “O factor principal foi em 1986, com a eleição constituinte. A liderança da Assembleia de Deus disseminou um boato persecutório, dizendo que a Igreja Católica estaria a negociar um estatuto superior que levaria ao privilégio estatal dos católicos e à redução da liberdade religiosa dos evangélicos”, recorda.

Foi o bastante para a mobilização eleitoral das lideranças pentecostais, e a adopção de um novo lema ‘Irmão vota em Irmão’: a percepção de que a “solidariedade intereclesial também se manifestava no campo político eleitoral”. O efeito desse novo activismo político é a bancada evangélica do Congresso, que em 1982 tinha apenas dois deputados federais pentecostais e em 1986 já tinha 18, um crescimento de 900%.

Subrepresentados

Ricardo Mariano sublinha, porém, que apesar do crescimento considerável da representação parlamentar de então para cá, em termos absolutos, os evangélicos ainda estão subrepresentados no Congresso, onde são apenas 15% (um número que inclui também os deputados do protestantismo histórico; são no total cinco entre os 81 senadores e 68 deputados em 513). “Algumas igrejas continuam a opor-se ao activismo político partidário”, explica o sociólogo. E, ao mesmo tempo, “há uma resistência dos fiéis às tentativas das lideranças [religiosas] de transformar púlpito em palanque e rebanho em curral eleitoral”, distingue.

Um levantamento feito pelo jornal Estado de São Paulo nos cadernos eleitorais de 2014 encontrou 270 pastores, 33 missionários e 25 bispos evangélicos que são candidatos a cargos no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas. Os registos no Supremo Tribunal Eleitoral confirmam um crescimento de 45% do número de candidatos declaradamente evangélicos, em relação às eleições de 2010.

Nestas eleições, os evangélicos declarados – por norma conservadores – integram as listas de 16 partidos diferentes. Desses, três foram criados propositadamente para servir como braços políticos das suas igrejas: o Partido Republicano Brasileiro (PRB) ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e o Partido da República, que é presidido pelo líder da Igreja Batista, além do PSC, que tem como vice-presidente o pastor Everaldo Dias Pereira.

Fundado em 1985, o crescimento da bancada do PSC é paradigmático: em 2002, tinha apenas dois deputados federais; quatro anos mais tarde já eram nove e em 2010 o grupo aumentou para 17. Nestas eleições, com o Pastor Everaldo e o controverso Marcos Feliciano, um dos mais proeminentes nomes da bancada evangélica no Congresso, o partido espera conseguir eleger 35 deputados.