O Nanook de Robert Flaherty na garganta de Tanya Tagaq

Filme-concerto abre a temporada do Theatro Circo a 5 de Setembro.

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Tanya Tagaq compôs a partir das suas vivências como inuíte e das memórias da mãe, vítima da política de realojamentos forçados do Governo canadiano

Tanya Tagaq ainda andava na escola em Cambridge Bay (Ikaluktuutiak, no original inuíte) quando viu pela primeira vez o filme que Robert Flaherty realizou após dois anos de imersão numa das mais inóspitas regiões do Árctico canadiano, em pleno território esquimó – um filme (falamos, claro, de Nanook, O Esquimó, de 1922) que os 340 cineastas e críticos chamados pela revista Sight&Sound a escolher os melhores documentários de sempre acabam de considerar o sétimo melhor filme da história do cinema documental. "Lembro-me de ter ficado muito envergonhada, e muito chateada, naquela cena em que ele morde o disco: 'Olha para estes selvagens, não fazem ideia do que é!'. Apeteceu-me perguntar: 'E porque é que não pomos um inglês no Nunavut e nos rimos dele a morrer de frio? Oh, está a ser comido por um urso!'", contou a throat singer inuíte numa entrevista à Canadian Broadcasting Corporation (CBC) a propósito do seu segundo encontro, agora já em idade adulta, com o filme de Flaherty.

Não foi um encontro tão acidental como o primeiro: por encomenda do Toronto International Film FestivalTanya Tagaq criou em 2012 uma nova banda-sonora original para Nanook, O Esquimó, apresentada em estreia mundial no programa First Peoples Cinema: 1500 Nations, One Tradition. O espectáculo, concebido em parceria com o compositor canadiano Derek Charke (cujas Tundra Songs Tanya já interpretou com o Kronos Quartet) e com os músicos Jean Martin (percussão) e Jesse Zubot (violino), entrou entretanto em digressão e vai ter uma escala portuguesa já na próxima semana, em Braga, onde abre a temporada do Theatro Circo a 5 de Setembro, às 22h.

Em Braga, o Nanook de Tanya Tagaq será também o primeiro capítulo de um ciclo, Frames Polifónicos, que atravessará as temporadas dos próximos dois anos, explicou ao Ípsilon o director do Theatro Circo, Paulo Brandão: "O Theatro Circo vai festejar o seu centenário entre 21 de Abril de 2015 e 21 de Abril de 2016; até lá, iremos lançando alguns ciclos de programação que terão mais visibilidade ao longo desses 12 meses. Este é um deles." A ideia, diz, é associar a "obras referenciais" da história do cinema (mas não necessariamente do cinema mudo) a músicos "menos conhecidos mas de indiscutível valor, de preferência que nunca se tenham apresentado em Portugal". Em 2015, o ciclo prosseguirá com mais seis filmes-concerto, um dos quais deverá resultar de uma encomenda do Theatro Circo. À partida, as novas bandas-sonoras acompanharão sempre filmes pré-existentes, mas o ciclo está aberto "a outras experiências de cruzamento entre imagens e sons", admite o programador.

O primeiro filme-concerto do ciclo constituirá a estreia em Portugal de uma das mais extraordinárias novas praticantes do throat singing inuíte: a cantora canadiana iniciou-se nesta tradição vocal secular aos 15 anos, tendo depois desenvolvido com a sua garganta uma gramática muito particular, influenciada pelo contacto com as electrónicas, o punk e a música industrial e pelas colaborações com músicos como Björk (participou no álbum Medúlla, de 2004) e Mike Patton. "Os sons que Tagaq projecta carregam a marca dos contornos e dos recantos secretos do corpo, escavando muito para além da expressão pessoal e da identidade humana para convocar vozes da carne, espíritos animais e energias primordiais", escreveu a revista The Wire a propósito da sua banda-sonora para Nanook, O Esquimó, que compôs também a partir das memórias da sua mãe, vítima da política de realojamentos forçados do Governo canadiano, das gravações de campo de Derek Charke no Nunavut, e das suas irremediáveis mixed feelings sobre as imagens tão fulgurantes como preconceituosas que Flaherty registou junto dos seus antepassados longínquos quando ela ainda nem sequer era nascida.