Opinião

Para que serve a universidade?

Esta foi a pergunta que o meu colega e amigo Jonathan Taplin, antigo tour manager de Bob Dylan, produtor de Martin Scorsese e de filmes como “Until The End of the World”, tentou responder numa carta publicada na Internet e dirigida aos seus alunos de comunicação, artes e jornalismo da USC Annenberg. A resposta de Jonathan Taplin é simples e directa: serve para construir um mundo melhor através da criação e inovação.

A carta de Taplin, dirigida aos seus alunos, tem algo de viral, pois é uma tentativa de resposta a um desafio actual e aplicável também à realidade portuguesa.

O ponto central de Taplin é o de que, embora tenhamos percorrido um longo caminho na direcção certa, estamos a viver tempos particularmente preocupantes e temos de mudar quer de protagonistas quer de formas de pensar para os poder ultrapassar.

Cresci vendo Portugal melhorar na saúde, na educação, no PIB e vendo o futuro com optimismo para as novas gerações saídas das universidades, com emprego, vidas e salários cada vez melhores – uma tendência vivida até à crise de 2008.

Com o massacre de Santa Cruz em Díli e anos mais tarde com o referendo em Timor-leste, aprendi que a mobilização nas ruas e a utilização da Internet nos permitia sermos ouvidos e mudar algo.

Imaginámos, agimos e conseguimos com a CNN, a Internet e até com um camião com uma tela gigante passando cenas do massacre de Santa Cruz, aquando do tratado de Maastrich, domesticar a comunicação ao serviço da nossa ideia de justiça.

Aprendi que entupir os servidores de e-mails e fax das representações dos membros permanentes do conselho de segurança da ONU, tendo o apoio de meios de comunicação social, empresas de telecomunicações e do sector bancário resultava e era possível em Portugal.

Ainda estudante universitário descobri que poucos podem mudar algo, quando nos opusemos primeiro às propinas e depois a tudo o que vinha politicamente atrás disso – face a um governo cheio de personagens cinzentas que alguns anos mais tarde, em bancos, na política e em outras actividades, igualmente cinzentas, acabaram por destruir ou comprometer muito do que havíamos entretanto conseguido em Portugal.

Acreditei que na Europa seria possível construir um futuro comum em que olhássemos para o “outro”, independentemente, do seu país de origem, como um igual (hoje já não acredito, ou melhor, acredito que quando mudarmos o que é hoje a Europa voltarei a acreditar).

Tirei um curso de gestão onde as aulas que mais gostei foram aquelas em que os professores nos impeliam a questionar o que estava nos programas e acabei por achar que deveria mudar para sociologia, porque tendo aprendido a fazer, precisava de aprender a razão do porquê de se fazer assim.

Tive a sorte de conhecer amigos fantásticos na universidade e de os ver na vida activa, cada um à sua maneira, tentar mudar aquilo de que não gostava para algo melhor, fosse no domínio do sector público ou do sector privado – a maioria de nós ainda não desistiu, mas não se pode dizer que as desilusões não tenham sido também muitas.

No entanto, as tentativas de mudança que poderiam ter sido concretizadas têm também esbarrado nos destroços deixados para trás por quem nos tem dirigido, colocando-nos perante aquilo que aparentam parecer dificuldades inultrapassáveis.

A minha geração tinha (e tem) o sonho de construir uma vida melhor, mas também tinha a esperança de que aqueles em quem depositámos a nossa confiança política fossem capazes de viver à altura da nossa esperança. Mas na sua grande maioria falharam-nos (e estão ainda a falhar-nos).

A maior parte dos membros das gerações mais velhas que nos têm dirigido e influenciado a prática política e económica dos últimos 40 anos (as quais incluem as elites académicas, políticas e económicas nacionais) falharam-nos deixando, muitos de nós, cínicos e desiludidos.

Tal como o Jonathan, escrevo este artigo na esperança que, entre nós que hoje ensinamos nas universidades e os que a elas vão chegar no próximo ano lectivo, seja possível estabelecer um verdadeiro diálogo transgeracional que nos permita a nós (professores) explicar os contextos e escolhas que nos trouxeram até onde hoje estamos e em que vocês (alunos) sejam capazes de nos ajudar a compreender qual a melhor forma para seguir a partir daqui.

Como refere Taplin, o local até onde chegámos é uma sociedade baseada na lógica do “winner-takes-all”. Essa é a lógica na economia, na política, mas também nas artes – 80% dos downloads ou streamings têm origem em 1% dos conteúdos. Isso quer dizer que o Jay-Z e a Beyoncé são billionários, mas o músico médio quase não consegue sobreviver.

O exemplo de Taplin é simples e foca as listas de vendas de música digital, mas poderíamos encontrar paralelismos nas desigualdades de rendimento, riqueza, da concentração económica em quase-monopólios ou da dependência entre política e banca.

Como lembra Taplin, a história tem demonstrado que a comunicação, jornalismo e a arte funcionam como poderosos correctores contra os perigos da “situação” – isto é, os perigos criados por quem nos governa, nos dirige ou gere o nosso consumo e coloca apenas ao seu serviço (e dos seus) aquilo que deveria pertencer a um futuro comum.

Se buscamos uma mudança política e económica, então as artes, a comunicação e o jornalismo podem ser a chave dessa mudança. Artistas, jornalistas e todos os que utilizam a comunicação podem inspirar mudanças culturais, rejeitando o que de negativo existe na política e economia e promovendo uma sociedade mais justa, mais humana e menos desigual.

Daí que o papel daqueles que hoje estudam as artes, a comunicação ou o jornalismo passe também por olhar, com particular atenção, para a comunicação que nos rodeia e pensar de forma crítica sobre a mesma, nos seus efeitos, nas suas influências, nas agendas promovidas e se essas agendas são as que melhor servem os nossos propósitos e metas.

Como começar então essa mudança? As aulas (e não a instituição difusa Universidade) são o ponto fulcral da mudança e a forma como as pensarmos e delas fizermos uso ditarão muito do mundo que iremos construir e como poderemos colocar em causa o que de errado existe nas diferentes instituições da sociedade portuguesa.

Que competências precisamos então de desenvolver nas nossas salas de aulas para, em conjunto, nos ajudarem nesse diálogo transgeracional?

Concordando com o Jonathan, diria que primeiro precisamos de improvisar. É necessário que os alunos desafiem os professores, tal como estes devem encorajar e desafiar os alunos.

Improvisar implica tanto coragem como inteligência e quer dizer que, por vezes, se terá que abandonar o tirar notas, ou pensar no já lido, para simplesmente responder com base no que se acha face às ideias apresentadas nas aulas. São essas competências que nos podem permitir a liderança na mudança.

No entanto, tal como me recordo de ter ouvido há alguns anos numa aula na Harvard Kennedy School, a liderança é mais do que demonstrar coragem e inteligência. Como lembra Taplin, liderar requer também cultivar a vulnerabilidade e a tolerância.

Tal como o Jonathan não tenho, ninguém tem, todas as respostas. Acho que muito do que temos que fazer passa pela forma como vocês (nossos alunos) forem capazes de connosco (professores) partilhar as vossas visões.

Mas a partilha tem também de ser feita intra-geracionalmente, pelo que precisamos que vocês assumam a mesma vulnerabilidade face aos vossos colegas, tratando-os com a tolerância necessária para que todos possamos, compreender melhor este nosso mundo em desagregação e percorrer um caminho de mudança juntos.

Todas as gerações, normalmente ao contrário de algumas das suas elites (dis)funcionais, acreditam na justiça e igualdade. É sobre essa dimensão comum que podemos aspirar a uma aliança transgeracional em busca de uma nova e esperançosa sociedade, cultura e economia.

Há que começar por algum lado e as nossas salas de aulas parecem ser o local ideal para o fazer, apesar da pesada e confusa herança que nos está ainda hoje a ser legada pelos nossos governantes dos dois lados do Atlântico Norte.

O autor é docente do ISCTE-IUL em Lisboa e investigador do Centre d'Analyse et Intervention Sociologiques (CADIS) em Paris