Palavras Andarilhas: Contar histórias para quê?

“Para nada.” Uma provocação respondida com outra, por Cristina Taquelim, organizadora das Palavras Andarilhas, encontro que começa nesta quarta-feira, em Beja. Se não precisássemos de histórias, o leitor não estaria desse lado do ecrã à espera do que temos para lhe contar.

André Letria
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André Letria

Beja volta a ser a “cidade dos contos”. Pela 13.ª vez, as Palavras Andarilhas vão trazer ao Alentejo contadores de histórias, escritores, ilustradores, mediadores de leitura e leitores. Muitos. Quem gosta de palavras volta sempre, quem pensa que não gosta descobre que está enganado.

Entre esta quarta-feira e domingo, o Jardim Público de Beja vai ser o palco do Festival de Narração e do encontro Aprendizes do Contar, mas também o cenário do Mercado do Livro, da primeira Biblioteca de Livros de Pano do Mundo e da Floresta de Sussurradores. Haverá mais música do que em edições anteriores.

Contar histórias para quê?, perguntou-se a Cristina Taquelim, técnica da Biblioteca Municipal de Beja, que faz parte da organização do encontro. Resposta à medida: “Para nada. Porque nem tudo o que se faz na vida tem de servir para alguma coisa. Vivemos num mundo em que tudo o que fazemos tem de ter um carácter utilitário. As histórias são apenas para estarmos juntos a escutar. E, com essa escuta, nos resolvermos como sujeitos, organizarmos a nossa história.”

A mediadora de leitura admite que “é uma pergunta difícil de responder” e lembra que “há quem diga que conta para ser amado e quem diga que escuta também para isso”.

Quanto ao trabalho de narração oral que a biblioteca desenvolve junto das crianças, Cristina Taquelim sabe bem para que serve: “Contar histórias aos miúdos tem uma função muito importante. A criança desenvolve o seu vocabulário, estrutura os enunciados verbais, desenvolve o imaginário. De alguma forma, acaba por depois buscar e aplicar ao contexto de leitura directa, da relação com o livro, todas essas competências que foi construindo a partir da escuta.”

Mas a componente que mais valoriza é a relacional: “Temos muitos trabalhos com pais e filhos. Com os mais pequeninos, notamos, e todos os pais o referem, uma boa qualidade de tempo que conseguem dar à relação que têm com os miúdos nestes contextos.”

A vertente familiar também faz parte do programa desta edição das Andarilhas, onde haverá tempo e espaço para oficinas que juntarão pais e filhos, sessões de contos para todas as idades e gostos e um percurso lúdico a partir de textos de diversos poetas.

O encantamento dos adultos

E os adultos, o que procuram nas histórias? “Há um encantamento muito especial dos adultos em relação ao contar”, diz a também narradora. “Se o conto tiver uma carga simbólica forte, o adulto mergulha nele tal qual uma criança mergulha.” E fala da sua experiência fora e dentro da biblioteca. “Apercebo-me de coisas muito interessantes, sobretudo nas comunidades mais velhas, seniores, com que trabalhamos muito. Acaba-se de contar uma história e há uma necessidade de a pessoa a colocar na geografia da sua vida. Os contos também servem para isso.”

Lembra que as histórias nos podem conduzir para caminhos sem volta e para circunstâncias onde de imediato nos projectamos. “Isto tem que ver com a história do próprio homem. A natureza humana necessita de ouvir e de contar.”

Talvez por isso as sessões mais mágicas das Palavras Andarilhas sejam as que fazem parte do Festival da Narração, sob o mote “Eu conto para que tu sonhes”. A brasileira Marina Colasanti, presente na edição anterior, descreveu-o assim: “No Alentejo, em Portugal, não chove nesta época do ano. Por isso estamos no Jardim Público da cidade, debaixo de uma quase tenda transparente erguida entre árvores a partir do tecto do coreto, que se agita lenta na brisa, dando-nos a impressão de estar debaixo de água, com o ritmado movimento das ondas acima de nossas cabeças. Sentados nesse espaço, a um só tempo símbolo e realidade, recebemos histórias. (…)”

O Festival da Narração irá decorrer nas noites de sexta-feira e sábado. Alguns nomes: Ana Santos, Ana Sofia Paiva, Avelino Gonzalez, a dupla Estupendo Inuendo, Estrella Ortiz, Jorge Serafim, Luís Carmelo, Luzia do Rosário e Vitória Gullon. Em ambas as noites, o conto inicial será traduzido em Língua Gestual Portuguesa.

Narrar com música

Garantido está também um passeio nocturno pelo centro histórico da cidade, ao som dos músicos João Cataluna, Buba Espinho e Amigos, Contadores do Mundo e Moços da Aldêa, naquilo a que se chamou “O Cante dos Contos”. Marcado para a 22h30 de dia 28 no jardim público, o “concerto-cortejo” terminará no Castelo de Beja à meia-noite, dando início à estafeta de contos.

“No panorama português da narração oral, está a verificar-se a contaminação com diferentes áreas. O narrar acompanhado com música é um deles. Há um cruzar de linguagens muito interessante”, diz a mediadora de leitura.O espectáculo da primeira noite da “festa da palavra” (dia 27, às 22h30, no coreto do jardim) é também um exemplo dessa contaminação: Spoken Word, de Tiago Gomes e Flak, parte “de improvisos entre palavras, guitarras e electrónica”, resultando numa “fusão de spoken words, a palavra falada, cantada, dita com a guitarra”, explica-se no programa.

Outro tipo de espectáculo está marcado para a noite de quinta-feira: a Andante Associação representará Quem Quer Ser Saramago? (21h30, jardim público). O nobel da Literatura também será invocado numa exposição no átrio da Biblioteca Municipal de Beja: 90 Anos de Saramago.

Neste ano, “a autarquia assumiu as questões financeiras do encontro, com contenção, porque não se vivem tempos fáceis”. À semelhança da última edição, são esperadas cerca de 400 inscrições, mas este número é sempre largamente ultrapassado pelos participantes nas actividades abertas ao público em geral.

Função social da leitura

Cristina Taquelim tenta resumir “as questões de fundo” na organização do programa, mas é preciso travá-la no entusiasmo da descrição. Não há dúvida de que estamos perante uma contadora de histórias.

Atribui bastante importância à função social da leitura  (praticada pela biblioteca nos dois últimos anos e que convoca “homens em situação de rua, mulheres ciganas e crianças, toxicodependentes, reclusos e muitos idosos”). Explica que o projecto Dos livros sem páginas às páginas dos livros, com apoio da Gulbenkian, resultou da ideia de explorar “as coisas que os antigos sabem, de cantigas de embalar e de lengalengas, trabalhando-as junto das crianças”. Assim nasceu a Primeira Biblioteca de Livros de Pano do Mundo, com a colaboração da turma de 12.ª de Artes da Escola Secundária Diogo de Gouveia.

Neste âmbito social, destaca também Yolanda Reyes, escritora e educadora colombiana, fundadora do projecto de formação de leitores (primeira infância) Espantapájaros. Para melhor a dar a conhecer no encontro, está marcada uma entrevista ao vivo conduzida por Sérgio Letria e Andreia Brites, da revista Blimunda (sexta-feira, 18h30).

A “consciência da multiplicidade de linguagens que se cruzam neste universo dos contos” levou a que fosse convidada Madalena Victorino, que “constrói peças coreográficas que têm atravessado o país e que envolvem  pessoas de idades e experiências de vida diferentes, em co-criação com intérpretes profissionais”.

Destaque também para Estrella Ortiz, que fará uma performance sobre livros transparentes, “lidos e contados com gestos”; para Doté Geovane D’Ósóòsi, com cantos e contos dos Orixás; Cebaldo Inawinapi, antropólogo que vai falar na cultura kuna, “que se baseia na terra, na mulher e na palavra”; José Barbieri, fundador e director do projecto Memoriamedia, e-Museu do Património Cultural Imaterial, e Mariana Bicho, da aldeia de Salvada, “idosa com um enorme reportório de romanceiro e oracineiro”.

Cruzes ou flores

O contacto com os idosos é considerado por Cristina Taquelim como “um trabalho absolutamente fantástico do ponto de vista da relação”. Mas explica que não é fácil: “Há que arranjar um repertório muito ajustado, têm pouca escuta. Eu misturo narração com excertos de leitura em voz alta, para lhes permitir outras experiências.”

Mas também ela acaba por ouvir histórias, como esta, que nos reconta a partir da versão da protagonista: “Uma analfabeta, de Cabeça Gorda, forçada a ter de ir trabalhar para fora e a ter de deixar os filhos com os pais, combina com os filhos: vou mandar-vos uma carta, se tiver cruzes, é porque as coisas estão a correr mal; se a carta tiver passarinhos e flores, é porque as coisas estão a correr bem. Passados dois meses, as crianças recebem uma carta cheia de pássaros e flores.”

A voz de Cristina, já de si rouca, enrouquece ainda mais ao contar esta história. A seguir à emoção, o desabafo-protesto: “Um tipo alimenta-se de tantas coisas no inferno que é a função pública neste momento, que só vai buscar alento a estas coisas. Porque se percebe que o nosso trabalho tem significado para as pessoas.”

Outro exemplo: “Quando se pega num romance e se começa a cantar a Bela Infanta [Estava a bela Infanta. No seu jardim assentada…] e se vai contando e cantando, cruzando, porque elas não aguentam de outra maneira, e no final alguém diz ‘ai filha, ouvi essa cantiga a vida toda e só agora é que compreendi o que queria dizer’, sentimos que vale mesmo a pena.” É (também) para isto que se contam histórias.