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A duas semanas do referendo na Escócia, Salmond dá novo fôlego à campanha do "sim"

Primeiro-ministro escocês visto como claro vencedor do segundo – e muito intenso – debate com Alistair Darling, o líder da campanha pelo "não".

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O debate assemelhou-se a um combate de boxe, com Darling (à esq) e Salmond (à dir) a tentarem desferir um golpe fatal sobre o adversário David Cheskin/AFP

Num frente-a-frente que se assemelhou a um combate de boxe sem luvas, venceu Alex Salmond, primeiro-ministro da Escócia, mais eficaz na retórica e na esgrima das emoções nacionalistas do que Alistair Darling, líder da campanha contra a independência. Mas a duas semanas e meia do referendo e já sem argumentos novos disponíveis, é pouco provável que o triunfo seja suficiente para inverter o destino da consulta e dar a vitória ao “sim”.

“Os olhos do mundo estão concentrados na Escócia. Este é o nosso momento. Vamos fazê-lo juntos”, disse Salmond na abertura do debate em Glasgow, o segundo entre os líderes das duas campanhas mas o único a ser transmitido, através da BBC, para todo o Reino Unido. O líder independentista sabia que tinha de ganhar de forma inequívoca depois de, contra as expectativas, Darling o ter encurralado no primeiro encontro, exigindo saber qual a sua alternativa para o caso de Londres não aceitar partilhar a libra com uma Escócia independente.

O repto era ainda mais urgente porque nesta terça-feira começaram a ser distribuídos os 750 mil boletins aos eleitores que se registaram para votar antecipadamente, aqueles que poderão estar sob maior influência dos argumentos usados no debate no momento em que colocarem o seu voto no correio. O apoio à independência subiu ligeiramente nas últimas semanas, mas os estudos que agregam os resultados das últimas sondagens realizadas revelam que a distância entre os dois campos se mantém entre dois a 14 pontos do “não”.

Salmond recorreu, por isso, a artilharia pesada, afirmando que manter a ligação de 307 anos com Londres equivale a permitir que os escoceses continuem a ser governados pelos conservadores, com pouca representação na região, e à mercê dos seus planos de ataque ao Serviço Nacional de Saúde ou de investimento em novas armas nucleares a troco de cortes nos apoios sociais. “Atravessamos tempos difíceis, mas em tempos difíceis um governo não retira apoios aos deficientes ou às famílias com crianças”, acusou o líder do governo autónomo escocês, traçando várias comparações entre as políticas sociais de Edimburgo e as prioridades do executivo londrino.

Darling, ex-ministro das Finanças e deputado trabalhista, viu-se na posição de ter de defender as políticas de Londres, muito impopulares na Escócia, como quando lembrou que a gestão do sistema de saúde na Escócia é uma competência do governo de Edimburgo. Salmond aproveitou e, para clara irritação do adversário, afirmou: “Você deitou-se com o Partido Conservador, na cama do Partido Conservador”.

A campanha pelo “não” insiste que os adversários assentam o seu projecto de independência em números e planos irrealistas – quer sobre as reservas de petróleo no mar do Norte, quer sobre promessas de mais gastos sociais – e no debate Darling voltou a tentar que Salmond explicasse o que fará se Londres não aceitar partilhar a libra. O líder independentista respondeu que “tem três planos B pelo preço de um”, mas que o seu objectivo é “obter um mandato para poder negociar em nome do povo escocês a opção sensata de uma união monetária”.

Num inquérito realizado para o jornal Guardian logo após o debate, 71% dos 500 inquiridos atribuíam a vitória ao primeiro-ministro escocês (um resultado mais claro do que o estudo idêntico realizado após o frente-a-frente na televisão escocesa) e a campanha do “sim” afirmava ter saído “enormemente reforçada” por aquela prestação. John Curtice, especialista em estudos eleitorais da universidade de Strathclyde, diz ser improvável que o resultado do embate “não se traduz necessariamente em votos” e, apesar da combatividade, Salmond não desferiu um golpe decisivo na campanha do “não”. A mesma sondagem do Guardian indicava que ambos os campos tinham subido 1% nas intenções de voto à custa dos indecisos.
 

   

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