Mais de 191 mil mortos em três anos de guerra na Síria

ONU diz que número é uma estimativa por baixo e sublinha que a "paralisia internacional" está a incentivar a matança.

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A Síria está afastada da atenção dos Governos mas o número de mortos não pára de aumentar Bassam Khabieh/Reuters

Pelo menos 191 mil pessoas foram mortas na Síria desde o início da guerra, quase arredada das atenções internacionais desde que os jihadistas que ali ganharam força atacaram o Iraque. A estimativa é mais do dobro do número calculado há um ano, sublinham as Nações Unidas, afirmando que a inacção internacional incentiva o derramamento de sangue.

Os números foram apresentados nesta terça-feira pela alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navy Pillay, que é a primeira a admitir que, “tragicamente, é provável que se trata de uma estimativa por baixo do número real de pessoas mortas nos primeiros três anos deste conflito assassino”.

A estimativa das Nações Unidas baseia-se em cinco listas de organizações não-governamentais e departamentos governamentais sírios, mas excluiu milhares de registos por não incluírem dados completos sobre o nome das vítimas, o local e a data da morte. Além destes, a ONU admite que há milhares de outras mortes ocorridas durante combates e que simplesmente não foram registadas.

Certo é que as 191.369 registadas entre Março de 2011 – quando começaram os protestos contra o regime de Bashar al-Assad, duramente reprimidos pelas forças de segurança – e Abril deste ano mostram uma escalada no número de vítimas sem precedentes. Em Dezembro de 2011, o Alto Comissariado estimativa que tivessem morrido 5000 pessoas, pouco mais de um ano depois eram já 60 mil e, no Verão passado, tinha registo de 93 mil vítimas.

Isto sem falar nos imensos dramas humanitários causados pela guerra. Mais de metade da população de antes da guerra (22,8 milhões de pessoas) foi obrigada a fugir de sua casa e estima-se que três milhões sejam hoje refugiados. Outros 6,5 milhões estão deslocados no interior do país, devido aos combates.

“Os assassinos, os destruidores e os torcionários na Síria e no Iraque estão a ser encorajados e impelidos pela paralisia internacional”, denunciou Pillay, considerando “escandaloso que o enorme sofrimento, a difícil situação dos feridos, dos deslocados, dos presos e das famílias dos que foram presos ou estão desaparecidos não gere maior atenção” dos governos mundiais.

“Existem sérias acusações de crimes de guerra e contra a humanidade cometidos, múltiplas vezes, com toda a impunidade”, reiterou Pillay. Lamentou ainda que o Conselho de Segurança nunca tenha decidido passar o caso da guerra destas violações ao Tribunal Penal Internacional. “O simples facto desta situação poder ter durado tanto tempo, sem perspectiva de um fim, e que tenha hoje consequências tão horríveis para centenas de milhares de pessoas para lá da fronteira da Síria, no Norte do Iraque, constitui um verdadeira acusação contra a época em que vivemos”, concluiu. 

Após três anos em que só por uma vez o Conselho de Segurança chegou a um consenso (aprovando o acordo entre americanos e russos para a destruição do arsenal químico da Síria), a alta comissária diz que é tempo de os governos adoptarem medidas sérias para pôr fim à guerra e “pararem de alimentar esta catástrofe monumental e totalmente evitável através do envio de armas” para os dois lados em conflito.

Das vítimas documentadas, a ONU adianta que mais de 85% são homens, mas diz não ter condições para determinar quantos são combatentes e quantos eram civis. O que pode dizer com certeza é que 8803 eram menores, dos quais 2165 tinham menos de dez anos. Os dados disponíveis indicam também que o maior número de mortos ocorreu na periferia rural de Damasco (39.393 mortos), onde a oposição chegou a controlar várias localidades antes de uma ofensiva do Exército que ainda perdura, seguida das províncias de Alepo (31.932), Homs (mais de 20 mil), Deraa e Hama.