Ébola obriga ONU a dar comida a um milhão de pessoas

Populações da Libéria, Serra Leoa e Guiné-Conacri, em quarentena devido ao surto, já começaram a receber alimentos. Medida destina-se a conter a doença.

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Rapariga suspeita de ter ébola a ser vigiada num hospital de Kenema, na Serra Leoa, na África Ocidental Carl de Souza/AFP

A história aconteceu numa aldeia na Libéria. Uma rapariga de 12 anos, com ébola, ficou isolada em casa durante sete dias ao lado do corpo da mãe, morta devido à febre hemorrágica. Em Ballajah, a aldeia-fantasma que a agência AFP visitou, a 150 quilómetros a noroeste da capital Monróvia, o silêncio era então entrecortado pelos gemidos e choros de Fatu Sherrif. Ninguém a ajudou e, sem comida nem água, ela também acabou por morrer em casa, já depois de as entidades sanitárias terem levado o corpo da mãe.

O medo e o isolamento causados pelo ébola poderão estar a produzir casos semelhantes noutros locais da Libéria, da Guiné-Conacri e Serra Leoa, os três países mais afectados pela epidemia. Por causa deste pânico e também por causa das zonas sob quarentena, a Organização Mundial da Saúde (OMS) teme que os doentes não estejam a receber alimentos, e que as populações isoladas viajem para outros locais à procura de comida, levando o vírus com elas.

Por isso, com ajuda do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas, já se começou a alimentar um milhão de pessoas que, de acordo com a OMS, está nesta situação. “Os alimentos já foram entregues a doentes hospitalizados e a pessoas sob quarentena, que não podem sair das suas casas para irem à procura de comida”, lê-se num comunicado desta terça-feira da OMS. “Dar alimentos regularmente é um meio eficaz de limitar o movimento desnecessário.”

O PAM já tinha ajudado 34.000 pessoas afectadas pelo ébola naqueles três países antes de se ter anunciado, na sexta-feira, ampliar a ajuda para um milhão de pessoas, revelando a verdadeira dimensão do surto. Nunca um surto de ébola afectou tanta gente, pois geralmente os surtos ficavam contidos em pequenas povoações.

Nesta terça-feira, a OMS actualizou as estimativas da epidemia. Há 2240 casos e 1229 mortes por ébola, e foram registados 113 novos casos e 84 novas mortes entre 14 e 16 de Agosto. Mas o esforço para conter uma epidemia deste tamanho exige pôr muito mais gente isolada, muitas vezes em locais paupérrimos e de acesso difícil. “Ao mesmo tempo que é crucial prevenir mais transmissões [do vírus], é essencial que as pessoas nestas regiões tenham acesso a alimentos e água”, defende a OMS.

Na aldeia de Ballajah, muitas famílias fugiram das suas casas. Mas foram impedidas de entrar em aldeias vizinhas e ficaram na floresta. Da família de Fatu Sherrif, só restou o irmão. O pai tinha sido o primeiro a morrer de ébola no final de Julho. Quanto a Barnie Sherrif, o irmão de 15 anos, que não foi infectado pelo vírus mas foi tratado como tal pelos vizinhos, acabou por ir viver para uma casa abandonada. “É aqui que durmo, é aqui que fico todo o dia. Ninguém se aproxima de mim, apesar de ter sido dito que eu não tinha ébola”, contou o jovem à AFP, com um olhar triste. “Quando tenho fome, vou ao mato à procura de legumes.”

“Tempestade perfeita” na Libéria

O ébola apareceu pela primeira vez em dois surtos distintos em 1976: primeiro no antigo Zaire, e depois no actual Sudão do Sul. Pensa-se que os morcegos frutívoros das florestas possam ser o reservatório natural do vírus. Um cenário hipotético para o início do contágio é o vírus passar de um morcego para um primata, que depois é caçado e comido pelas pessoas.

O surto actual começou em Dezembro de 2013, no Sul da Guiné-Conacri. Na Primavera, o vírus já tinha passado para a Libéria e Serra Leoa. Em Julho, a doença chegou à Nigéria. A OMS, que a 8 de Agosto declarou que a epidemia é “emergência de saúde pública de âmbito internacional”, avalia agora a situação da Nigéria com um “optimismo cauteloso”, já que só se registaram aí três casos novos, também entre 14 e 16 de Agosto. E diz que a Guiné-Conacri está num estado “menos alarmante”.

Já a Libéria teve, no mesmo período temporal de três dias, 48 novos casos e 53 mortes e é o país que regista mais mortes: 466. Além da doença afectar a capital, há outros factores que levaram a que tenha acontecido ali “a tempestade perfeita”, explicou Cyprien Fabre, do grupo humanitário da União Europeia de ajuda à África Ocidental. “Há um número ridículo de médicos [0,1 por 10.000 habitantes na Libéria, contra a média de 2,6 médicos em África, segundo a OMS]. Além disso, quando a epidemia rebentou, os Médicos Sem Fronteiras (MSF), que têm competências para o ébola, não estavam presentes”, explicou à AFP.

Para complicar a situação na Libéria, numa zona pobre da capital um grupo de pessoas atacou no último fim-de-semana um centro de saúde onde estavam internadas pessoas que se suspeitava terem ébola. Os atacantes achavam que o ébola é uma mentira. Durante o ataque, os 17 doentes fugiram do centro com medo dos atacantes, mas já foram encontrados. “Estamos contentes por confirmar que os 17 indivíduos foram transferidos para o centro JFK de tratamento especial do ébola”, explicou o ministro da Informação, Lewis Brown, citado nesta terça-feira pela agência Reuters, referindo-se a um outro centro na capital.

O ébola ainda não tem um tratamento com eficácia comprovada. Os doentes sofrem de febre, dores de cabeça, diarreia, vómitos e até hemorragias. A mortalidade do vírus pode chegar aos 90%, a do actual surto é de 55%. Os doentes têm mais hipóteses de sobrevivência se forem acompanhados no hospital, já que a febre é controlada, são hidratados e alimentados e as infecções secundárias podem ser combatidas. Mas devido à dimensão da situação, a OMS já declarou ser eticamente aceitável o uso de tratamentos experimentais. O surto está a afectar especialmente o sector da saúde: 170 profissionais adoeceram e 81 morreram.

Ontem à noite, a Libéria impôs um recolher nocturno obrigatório para evitar que a doença se espalhe, avançou a Reuters. Mas há sinais positivos. “Os MSF vão abrir um centro de 120 camas [na Libéria]. É o núcleo a partir do qual se pode fazer o seguimento das pessoas contactadas [por um determinado doente], de forma mais ou menos coerente”, disse Cyprien Fabre. No domingo, Donald Kaberuka, director do Banco de Desenvolvimento Africano, anunciou que o banco está a reunir 55 milhões de euros para combater a epidemia: “Estamos de coração com os governos da África ocidental na luta contra o vírus ébola.”