Por que gritam elas?

Agosto é mês de festivais. Haverá boy bands. Haverá gritos, muitos gritos. Porquê? Porque é assim que as raparigas expressam a sua individualidade e reforçam o seu lugar no grupo. A sua mensagem é quase sempre a mesma: “Estou aqui!”

Agosto é mês de festivais. Haverá boy bands. Haverá gritos, muitos gritos. Porquê? Porque é assim que as raparigas expressam a sua individualidade e reforçam o seu lugar no grupo. Porque é assim que competem. Gritar é no fim de contas uma forma de comunicação — e a sua mensagem é quase sempre a mesma: “Estou aqui!”

Quando os One Direction actuarem este mês na parte norte-americana da sua digressão Where We Are [que já passou pelo Porto], há que franzir os olhos e apurar a audição para ouvir os êxitos da boy band por entre um som mais fascinante e antigo: o esvaziar dos pulmões adolescentes.

Obviamente, haverá gritos — jorros de elevados decibéis, em tons agudos que pressionam os tímpanos de forma dura e cada vez mais dura, até atingir níveis de surrealismo. É um som abstracto em que JC Chasez teve anos para reflectir como membro dos famosíssimos ‘N Sync. Mas traduzir em palavras o poder daquele bramido comunitário ainda não é fácil.

“Som é energia”, diz Chasez. “E a sala toda está a produzir som, não só as pessoas em palco, e quando a sala toda está a ressoar com cada ser humano a produzi-lo, é uma sensação muito excitante.”

Seguramente. Mas o que está por trás dessa sensação? Por que é que as jovens reunidas em concertos pop exprimem o seu êxtase colectivo com o som mais alarmante que os seus corpos podem produzir? Por que é que gritam?

De certa forma, os jovens fãs de hoje estão simplesmente a imitar os guinchos ritualizados das gerações que os antecedem, dos Beatlemaníacos aos Beliebers — os fãs dos Beatles e os fanáticos de Justin Bieber. E se por um lado os gritos não estão exclusivamente reservados para os jovens ídolos do sexo masculino, os concertos de Miley Cyrus e de Taylor Swift não parecem gerar o mesmo tipo de fervor sónico que uma actuação dos One Direction ou de Ed Sheeran.

Desde o advento de Elvis Presley, em 1956, os média norte-americanos têm caracterizado frequentemente o clamor das jovens fãs reunidas na presença de um ídolo pop como “histeria” — “uma descrição que minimiza e denigre o seu envolvimento musical”, segundo um artigo de 2003 da investigadora australiana Sarah Baker.

“Não só estes corpos esmagados e gritantes animam estes espaços [de actuação]”, escreve Baker, “mas também tornam a experiência pop uma sensação intensamente real, tanto para as raparigas envolvidas quanto para o público em geral”.

Por isso, quando as luzes se apagam para um concerto de uma boy band no século XXI, não estamos a ouvir um urro histérico e desamparado. Estamos a ouvir uma expressão complexa de individualismo e colectividade — talvez com uma pitada de Darwin à mistura.

Os sociólogos têm diferentes nomes para diferentes tipos de multidões. Os aglomerados barulhentos num concerto pop são qualificados como “multidão expressiva” — um ajuntamento no qual os participantes têm uma permissão implícita para abandonar o decoro e… passarem-se.

“Quando os homens choram num evento desportivo, é muito semelhante” à gritaria que tem lugar num concerto dos One Direction, diz Rachel Simmons. “Não seria aceitável que os homens o fizessem em qualquer outro lugar. Mas o evento desportivo sanciona esse comportamento.”

Simmons é autora de The Curse of the Good Girl, um livro em que defende que é injustamente pedido às jovens mulheres que se limitem a um molde impossível de educação e modéstia. Segundo a escritora, um concerto é um evento único que dá às raparigas a oportunidade rara de quebrar com esses modelos e papéis.

“No seu dia-a-dia, nas suas vidas que não envolvem concertos, as raparigas não têm muita autorização para gritar”, diz. “Um concerto oferece-se como um oásis em relação às regras diárias do que é ser uma rapariga bem comportada. Gritar é soltarem-se e deixarem os limites do agrado e das inibições.”

É uma forma de explicar por que é que tantos concertos estão cheios de raparigas aos gritos em vez de rapazes aos gritos.

“Gritar é uma forma de controlar uma situação”, diz Michelle Janning, professora de Sociologia na Whitman College, no estado de Washington. “Quando se é criança, e uma rapariga, não se tem controlo. Os jovens não têm uma voz audível em sociedade, por isso gritar neste tipo de espaço é uma forma de ter voz. Literalmente.”

Janning também crê que as raparigas sentem a expectativa do seu grito desde que a Beatlemania se espalhou pelos EUA em 1964. “Estamos constantemente a ser socializados vendo multidões de raparigas a gritar a estrelas rock”, diz Janning. “Por isso estamos a seguir a multidão, a fazer o que vimos as outras pessoas fazer. Mas também queremos destacar-nos enquanto indivíduos.”

Tanto Janning quanto Simmons concordam que gritar nos concertos serve, em última análise, o propósito de dar às raparigas uma oportunidade de expressar a sua individualidade enquanto, ao mesmo tempo, reforçam o seu lugar num grupo maior. E este também pode ser um espaço de competição.

“As raparigas adolescentes investem mesmo muito na aceitação por parte dos seus pares”, diz Simmons. “Mas há um elemento competitivo no ser fã e no ser uma fã rapariga — e gritar é uma expressão desse acto de ser fã. Por isso as raparigas estão a fazê-lo não só para afirmar a sua paixão pela banda, mas para competir com as outras e para sinalizar entre si que ‘é disto que gosto, é o que me importa’. É uma parte competição, mas também uma outra parte que é uma forma de estabelecer uma ligação. É uma pulsão que, durante a adolescência, e para as raparigas, é muito complexa e importante.”

Chasez, dos ‘N Sync, diz que já viu essa ligação competitiva a manifestar-se através de demonstrações fascinantes de trabalho de equipa vocal. Os gritos que mais frequentemente lhe chamavam a atenção quando em palco durante os tempos áureos dos ‘N Sync muitas vezes vinham de “grupos de três ou quatro”, diz Chasez. “Estavam de mãos dadas e aos saltos para cima e para baixo, a gritar juntas.”

Quer seja uma expressão de excitação, prazer ou angústia, gritar é, no fim de contas, uma forma de comunicação — e a sua mensagem fundamental é quase sempre a mesma: “Estou aqui!”

Harold Gouzoules, presidente do departamento de Psicologia da Universidade de Emory, em Atlanta, começou a estudar recentemente os gritos humanos, depois de anos a estudar como os macacos Rhesus usam os gritos para comunicar. Está actualmente a compilar uma biblioteca áudio de gritos humanos e a pedir aos participantes da experiência para tentar discernir entre gritos de alegria, excitação, surpresa, dor, agressão e exasperação. Até agora, eles têm sido bastante bons nisso, em parte porque gritar tende a transcender a cultura. “Gritamos enquanto espécie”, diz Gouzoules. “Em termos evolutivos, provavelmente surgiu como uma forma de assustar um predador. Mas, à medida que [os humanos] se desenvolviam socialmente, obtivemos uma maior complexidade de interacção, e os gritos tinham uma função dentro de um grupo social.” Durante a infância, a eficácia do nosso grito é muitas vezes reforçada através do jogo. “Posso imaginar os humanos ancestrais a gritar da mesma forma que vemos os miúdos a brincar hoje no jardim”, diz Gouzoules.

E essa forma lúdica de se fazer notar é algo cujas origens Gouzoules diz que podem ser encontradas em acontecimentos públicos que antecedem a ascensão dos Beatles, de Elvis ou de Frank Sinatra. “Se recuarmos aos comícios nazis nos anos 1930, quando Hitler estava a crescer em proeminência, há relatos históricos de jovens mulheres aos gritos”, recorda Gouzoules. “Há qualquer coisa naquele tipo de evento social — há a excitação que está a ser gerada por alguém que tem poder ou autoridade… e aqueles gritos são chamarizes de atenção. É assim que são usados pelos macacos. É assim que são aplicados grande parte do tempo.”

Mas algures entre a infância e a idade adulta, aqueles gritos esfriam até se tornarem berros, incentivos e outras formas de expressão vocal que vemos mais comummente na multidão expressiva.

Contudo, para as boy bands reunidas para uma nova aventura, o grito será sempre o barómetro do sucesso. “Temos de fazer com que toda a sala chegue ao mesmo nível de decibéis”, diz Michael Bivins, de 45 anos e vocalista dos New Edition, uma boy band dos anos 1980 que se juntou novamente para uma digressão. “É científico, num certo sentido. Se não há gritos, há desilusão.”

No Verão de 2014 — quase 30 anos depois do lançamento do êxito do grupo, Cool it Now —, os fãs originais dos New Edition são agora de meia-idade, mas ainda enchem os seus concertos. O ritual mantém o seu formato, mesmo que soe ligeiramente diferente.

“As vozes delas estão maiores!”, diz Bivins. “Mas ainda é a mesma sensação. Estão a gritar nas mesmas partes em que gritavam quando éramos miúdos.”

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post     

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