Morreu Menahem Golan, produtor de Jean-Claude Van Damme, Stallone e Godard

Era uma versão gritante, exibicionista, até na sua postura intervencionista, do produtor ao velho estilo, que deu que falar de si no mercado dos autores e da série B de acção.

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A sua última aparição em Cannes: 2014

Quem poderia ter produzido o "quem é quem?" do cinema de acção, Sylvester Stallone, Chuck Norris ou Jean-Claude Van Damme, e ao mesmo tempo ter tocado no firmamento do mais idiossincrático "cinema de autor", produzindo Jean-Luc Godard ou John Cassavetes?

Resposta: o israelita Menahem Golan, produtor de duas centenas de filmes, 80 dos quais action movies, realizador de mais de quatro dezenas. Morreu em Jaffa, no dia 8 de Agosto, aos 85 anos, noticiou no sábado a imprensa israelita.

O seu tempo terminara há muito, esse em que se associou ao primo Yoram Globus (ficaram ao leme da Cannon Group a partir de 1979) e trouxe para os anos 80 o espírito de série B de Roger Corman, com quem colaborou nos anos 60. Nesse sentido, a associação com Godard (King Lear), Cassavetes (Love Streams) ou Andrei Konchalovsky (acabado de abandonar a ex-URSS: Os Amantes de Maria, depois Runaway Train, ) era eivada do mesmo espírito de golpe mirambolante de transformar o pequeno orçamento em acontecimento. A audácia do gesto era, em si, já uma parte do espectáculo. Nesses casos, é claro, era também uma oportunidade para as duas partes, para o produtor em busca de respeitabilidade, para o autor com dificuldade em arranjar dinheiro. Mesmo que nenhum deles, e ainda houve Robert Altman (Fool For Love) ou Barbet Schroeder (Barfly), tenha querido repetir a experiência.

Golan era uma versão impossível, gritante, exibicionista, até na sua postura intervencionista, do produtor ao velho estilo, que dava que falar de si nesse mercado dos autores e das starlettes que era, por exemplo, o Festival de Cannes. "Senhor Cinema até ao ultimo sopro" foi a frase-homenagem da ministra da Cultura isrealita, Limor Livnat. Mas diz-se que nunca foi olhado pela "aristocracia" de Hollywood como fazendo parte da tribo.

Tudo começou para os primos Menahem e Yoram em Israel, com o sucesso internacional chamado Gelado de Limão (1978), vampirização barata do American Graffiti de George Lucas. Foi já com a Cannon que fizeram a sua reputação de Go-Go boys”, título do documentário de Hilla Medalia sobre os tempos áureos da Cannon: a série B, as intermináveis sequelas, o início do filão dos comic books, o fazer render a violência justiceira de Charles Bronson no pós-Death Wish de Michel Winner, o erotismo de O Amante de Lady Chatterley versão Just Jaeckin, Break Street, um dos primeiros filmes a aperceber-se do fenómeno do hip hop, ou, como realizador, Operation Thunderbolt, um dos vários títulos a reencenar, no final dos anos 70, a operação israelita em Entebbe para libertar 100 reféns que estavam no poder do Exército de Libertação da Palestina. O filme foi nomeado para o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro.

Golan cumpriu serviço militar na Força Aérea israelita durante a guerra árabe-israelita em 1948. Chamava-se Menahem Globus, e munou o nome para Golan para reafirmar a sua fidelidade a Israel.