Opinião

O juízo final é hoje

Quem anda nos hospitais sabe como muitas vezes é mais violento o sentimento de culpa dos doentes do que a mais severa doença.

“Vou dizer-lhe um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Realiza-se todos os dias”. Esta sentença do juiz-penitente, a quem Albert Camus deu a palavra, é das mais assombrosas sobre a condição humana. Não há drama da Humanidade, nem sofrimento profundo de cada um de nós, a que não possa servir de legenda.

Podemos imaginar como se afogaram os tripulantes das caravelas da História Trágico-Marítima, a carnificina do grande terramoto, as tempestades de aço nas trincheiras da batalha da Flandres. Mas basta-nos recordar a doença grave de um familiar querido, a morte de um amigo íntimo, o grande desgosto de amor da nossa biografia. A sentença resiste a tudo, acrónica, com a sua luz sombria a preencher o mundo de dor e de luto, do coração até ao futuro.

O que se passou nos últimos anos encoraja, infelizmente, leituras à letra. Depois de mais uma bancarrota, cá estamos nós outra vez, a fazer contas ao desemprego, a falências em massa, a dez anos de retrocesso no PIB. No sector que conheço melhor posso apresentar números precisos sobre a destruição da economia: 147 farmácias faliram; 290 foram alvo de penhoras; 83 por cento têm prejuízo por manter a porta aberta. Todas as semanas oiço, na primeira pessoa, relatos desesperados sobre a destruição do sonho, da paz e do meio de vida de muitos farmacêuticos. Vi jovens e adultos sair do balcão da farmácia, do contacto diário com centenas de pessoas, para a solidão do desemprego. Ouvi-os cair, incrédulos, nesse ciclo vicioso de quem procura trabalho, não encontra, volta a procurar, sempre sem êxito, e acaba meses atrás de meses exilado num sofá, com medo dos meses que hão-de vir.

Em dias como estes não basta sentir o sol na pele para afastar a sombra que se abateu sobre tanta gente. De pouco vale recordar a um desempregado que vivemos uma época de paz sem precedentes na Europa e dispomos de sistemas de protecção social inimagináveis pelos nossos antepassados dos Descobrimentos, do terramoto, das trincheiras da Grande Guerra. O certo, para quem continua a navegar, e sobretudo para quem tem a responsabilidade de pilotar as naves da economia que sobreviveram à tempestade, é calar os argumentos e fazer qualquer coisa.

No mês passado, acredito que o Ministério da Saúde e a Associação Nacional das Farmácias fizeram qualquer coisa. O acordo alcançado é muito prudente, mas também ambicioso, se formos capazes de o realizar. O plano é reforçar as políticas de prevenção da doença e de promoção da saúde. As farmácias vão ajudar os diabéticos, os seus médicos e enfermeiros a controlar a glicemia, permitindo à população ganhar anos de vida saudável e ao Estado poupar milhões em amputações, sessões de hemodiálise ou cirurgias oculares, tratamentos indispensáveis, mas sempre traumáticos. As farmácias vão voltar a distribuir seringas à população toxicodependente, evitando o casamento em massa de dois dramas de muitas famílias: a droga e a sida. As farmácias vão ajudar Portugal a atingir a cobertura vacinal contra a gripe nos idosos e doentes crónicos, populações em que a doença faz centenas ou mesmo milhares de vítimas todos os anos. As farmácias vão intensificar ainda mais a dispensa de medicamentos genéricos, com o objectivo de poupar mais 100 milhões de euros por ano às famílias.

O Estado só avança, para já, com incentivos financeiros à dispensa de genéricos, verdadeira máquina de gerar poupanças, com anos de provas dadas em muitos países. Nos programas de saúde pública, as experiências-piloto a lançar no território serão gratuitas durante um ano. Mas milhares de portugueses começam, de imediato, a beneficiar de cada infecção por HIV ou tratamento tardio da diabetes que sairá do seu destino. Os Orçamentos do Estado dos próximos anos também começam a diminuir desde já, em medicamentos contra a sida, sessões de hemodiálise, internamentos hospitalares e cirurgias severas. Só depois de auditores independentes contabilizarem os ganhos, para os cidadãos e os contribuintes, eles serão partilhados com as farmácias.

Escrita num livro considerado existencialista, a sentença talvez seja menos sobre o fatalismo e mais sobre o livre-arbítrio, o que só lhe aumenta o carácter dramático. Quem anda nos hospitais sabe como muitas vezes é mais violento o sentimento de culpa dos doentes do que a mais severa doença. Ora, o acordo tem um triplo sentido de futuro: combater sem tréguas esse sofrimento, evitar a imoralidade do desperdício de recursos públicos, devolver viabilidade ao sector farmacêutico. Não podemos falhar. Ele vai ter de se realizar todos os dias. Hoje é dia de Juízo.

Presidente da Associação Nacional das Farmácias